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Vazamentos seletivos e omissão jornalística forjam ataque a Moraes mirando Lula
A omissão deliberada de um fato público e notório — a indicação de Alexandre de Moraes ao STF por Michel Temer em 2017 — revela a estratégia por trás dos vazamentos seletivos que articulam um ataque ao magistrado com claros objetivos eleitorais
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■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

Uma operação orquestrada nos bastidores do Judiciário e da imprensa ganhou corpo nas últimas semanas, com o claro propósito de associar a imagem do ministro Alexandre de Moraes à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia, alimentada por vazamentos seletivos de informações sigilosas, explora a crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) em torno das investigações que envolvem o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o próprio ministro Moraes. O centro da trama, no entanto, reside em uma omissão que não pode ser atribuída ao acaso: a sistemática ocultação do fato de que Moraes foi indicado ao STF pelo ex-presidente Michel Temer, e não por Lula.

A cronologia dos fatos é esclarecedora. Em 6 de fevereiro de 2017, o então presidente Michel Temer indicou Alexandre de Moraes, à época ministro da Justiça de seu governo, para ocupar a vaga aberta no Supremo com a morte do ministro Teori Zavascki. Moraes, que era filiado ao PSDB e tinha um perfil reconhecidamente conservador, foi sabatinado por quase 12 horas na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, tendo seu nome aprovado por 19 votos a 7, e posteriormente confirmado no plenário por 55 votos a 13. Tomou posse em 22 de março daquele ano. Este é um dado público, amplamente noticiado à época e de fácil verificação.

Entretanto, a enxurrada de notícias sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro — e sobre a suposta edição de um contrato milionário do banco com o escritório de advocacia da esposa do ministro — tem sido apresentada ao público com uma lacuna proposital. Ao não mencionar a origem da indicação de Moraes, a narrativa jornalística e os vazamentos que a alimentam criam um vácuo informativo que é preenchido pela insinuação de uma proximidade política com Lula, que nunca existiu nos termos sugeridos.

Petistas ouvidos publicamente já se manifestaram sobre essa distorção. Setores do PT adotaram um discurso para afastar a imagem do presidente Lula da de Moraes, lembrando que o ministro foi indicado por Temer, sempre foi antipetista e que sua defesa da democracia nos últimos anos não configura um alinhamento político, mas sim uma obrigação de qualquer homem público. A reação, segundo fontes, é para evitar que as suspeitas sobre Moraes prejudiquem a campanha de Lula, em uma das disputas mais acirradas à presidência.

A análise do contexto revela camadas mais profundas dessa articulação. Os vazamentos, que têm como principal vetor a coluna da jornalista Malu Gaspar no jornal O Globo, não ocorrem no vácuo. Eles são alimentados por informações provenientes do gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF. Mendonça, que foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro e é visto como próximo à família Bolsonaro, tem sido acusado por seus pares de promover vazamentos seletivos e de atuar com métodos que remetem à Lava-Jato.

A decisão de Mendonça de levantar o sigilo do relatório da Polícia Federal sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro, a apenas 33 dias do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, foi interpretada por analistas como um movimento calculado com claros objetivos eleitorais. O cientista político Beto Vasques, do Instituto Democracia em Xeque, afirmou que Mendonça “atropelou os regulamentos do Supremo e da magistratura” ao permitir a exposição das mensagens, e que a ação tende a mobilizar a base eleitoral do candidato Flávio Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo em que traz prejuízos à imagem de Lula.

A dinâmica dos vazamentos e a cobertura jornalística que os repercute configuram um padrão preocupante:

  • Seletividade da informação: Divulgam-se mensagens de Vorcaro a Moraes, mas omite-se que não há registro das respostas do ministro, o que inviabiliza qualquer conclusão sobre o teor da “troca”.
  • Construção de narrativa: A divulgação de que Moraes teria “editado” um contrato do Banco Master com o escritório de sua mulher ignora que o simples ato de abrir um documento para leitura, para avaliar um possível impedimento, é registrado como “edição” pelos sistemas, e que o próprio ministro afirmou que não julgaria ações envolvendo o banco.
  • Omissão de contexto político: A origem da indicação de Moraes por Temer é sistematicamente apagada da narrativa, criando a associação falsa com Lula e instrumentalizando a crise para fins eleitorais.
  • Guerra institucional: O episódio escancarou uma crise no STF que opõe de um lado o gabinete de Mendonça e, de outro, a Polícia Federal, Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que classificou a atuação de Mendonça como ilegal.

A fake news que liga Moraes a Lula não é nova. Durante a campanha eleitoral de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob a presidência do próprio Moraes, já havia determinado a remoção de postagens de bolsonaristas com desinformação sobre Lula. Na ocasião, Moraes afirmou que a “insensata disseminação de fake news pode comprometer o processo eleitoral”. A ironia é que, agora, a mesma dinâmica de desinformação é utilizada contra ele, com a conivência de setores da imprensa que replicam vazamentos seletivos sem o devido escrutínio.

O que está em jogo, portanto, vai além da reputação de um ministro do STF. A articulação entre vazamentos de investigações sigilosas, a omissão de fatos fundamentais e a cobertura jornalística acrítica revela um perigoso uso político do Judiciário e da imprensa em pleno processo eleitoral. Ao empurrar Moraes para a fogueira, Mendonça e os setores que o apoiam não apenas incendeiam a eleição, como atentam contra a integridade das instituições. A omissão sobre a indicação de Moraes por Temer não é um detalhe; é a chave que permite à narrativa distorcida ganhar força e cumprir seu papel eleitoral.

Com informações de UOL, SBT News, O Globo, Valor Econômico, JB, G1, Agência Brasil, Senado Notícias, Veja, CartaCapital, Diário do Centro do Mundo, Tribuna PR, Jornal O Sul, Gazeta do Povo, O Dia, ConJur, Folha Vitória, TV Justiça ■

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