Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
BTG/Nexus: salto de Cury, empurrão em Marçal e coreografia da Faria Lima
Pesquisa que turbina o psiquiatra e insiste em candidato inelegível escancara um padrão de interferência narrativa que já não cabe mais no campo da estatística
Analise
Foto: https://transmissaopolitica.com.br/wp-content/uploads/2026/08/lula-flavio-e-augustu.webp
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 31/08/2026

O que deveria ser um retrato frio da opinião pública tornou-se, na 12ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, um exercício de engenharia política tão explícito quanto constrangedor. Divulgado nesta segunda-feira (31), o levantamento do banco BTG Pactual em parceria com o instituto Nexus promoveu um salto de nove pontos percentuais do escritor Augusto Cury (Avante) — que foi de 2% para 11% em apenas uma semana —, ao mesmo tempo em que insistiu em incluir o nome do coach Pablo Marçal (PRTB), declaradamente inelegível até 2032 por decisão do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP). A combinação dos dois movimentos, somada à rejeição recorde do candidato Renan Santos (Missão) — que lidera a rejeição líquida entre os presidenciáveis, com 62% dos que o conhecem dizendo que não votariam nele “de jeito nenhum” —, revela mais do que uma simples oscilação de humor do eleitorado: revela um desenho.

O salto de Cury, embora possa ter raízes em sua exposição na TV e nas redes sociais, ganha contornos suspeitos quando confrontado com a estabilidade dos demais nomes da chamada terceira via. Enquanto o escritor disparava, Ronaldo Caiado (PSD) patinava nos 5% e Romeu Zema (Novo) encolhia para 1%. A pergunta que não quer calar: por que justamente Cury, um autor de autoajuda sem trajetória política ou lastro institucional, foi alçado à condição de “primeiro nome da terceira via a atingir dois dígitos”, enquanto nomes com estrutura de partido e capilaridade regional definhavam? A resposta, para os críticos, está menos nas urnas e mais nos escritórios da Faria Lima.

O paralelo com a inclusão de Pablo Marçal é ainda mais revelador. O influenciador digital está inelegível até 2032 por uso indevido dos meios de comunicação na campanha de 2024, com multa de R$ 420 mil confirmada pelo TRE-SP. O próprio tribunal rejeitou recurso da defesa em 25 de agosto, mantendo o impedimento. Mesmo assim, a BTG/Nexus não apenas incluiu Marçal em um dos cenários — onde ele marca 3% — como tratou sua presença como uma variável legítima, como se a decisão judicial fosse mero detalhe. Em qualquer outra circunstância, incluir um candidato cassado em pesquisa eleitoral seria visto como erro metodológico grave. Aqui, parece ser opção política.

Não bastasse o flerte com a inelegibilidade, a pesquisa ainda reserva um espaço generoso para Renan Santos, o fundador do MBL que, segundo os próprios números da Nexus, ostenta a maior rejeição líquida entre todos os presidenciáveis — 62%. Esse índice é pelo menos dez pontos percentuais superior ao de adversários como Zema (52%), Flávio Bolsonaro (51%) e até Lula (50%). A insistência em manter Santos no páreo, mesmo diante de uma rejeição tão avassaladora, sugere menos um retrato fiel do eleitorado e mais uma tentativa de validar uma narrativa de “terceira via radical” que interessa a quem deseja fragmentar o voto anti-Lula e anti-Bolsonaro — exatamente o nicho que Santos ocupa.

As críticas à metodologia e ao viés da BTG/Nexus não são novas. O jornalista Moisés Mendes, do Diário do Centro do Mundo, já apontava em julho que a pesquisa “terrivelmente estranha” parecia mais uma “torcida” do que um levantamento isento. Na ocasião, ele destacou a discrepância gritante entre os números da Nexus e os de institutos como Datafolha e AtlasIntel, que mostravam Lula com vantagem muito maior sobre Caiado no segundo turno — diferença que caía de sete pontos para apenas dois na simulação da BTG/Nexus. “Que milagre é esse?”, questionou Mendes. “Parece que a Faria Lima, a Globo, o agro pop e o centrão estão se esforçando para tirar Flávio da corrida já”.

O que se vê, portanto, não é uma pesquisa, mas uma peça de marketing político travestida de dado científico. Ao impulsionar Cury, incluir um inelegível e manter um rejeitado, a BTG/Nexus desenha um tabuleiro onde a terceira via é plasticamente moldada conforme os interesses de quem paga a conta — e o banco BTG Pactual, que encomendou e financiou o levantamento, tem seus próprios interesses na sucessão presidencial. A “dança das cadeiras” divulgada pelo instituto não é um reflexo do eleitorado; é um ensaio coreografado nos corredores da Faria Lima, onde o mercado financeiro tenta, a cada rodada, impor sua narrativa sobre quem deve — e quem não deve — estar na disputa.

Que a pesquisa eleitoral seja um instrumento de construção de realidade, e não apenas de medição, já não é novidade. Mas quando um instituto insiste em incluir candidatos cassados, turbina nomes sem lastro e ignora a rejeição estratosférica de outros, ele deixa de ser um termômetro para se tornar um termostato — ajustando a temperatura do debate conforme a conveniência de seus patrocinadores. O problema não é o salto de Cury, a inclusão de Marçal ou a rejeição de Santos. O problema é que, na BTG/Nexus, tudo isso parece fazer parte de um mesmo roteiro.

Com informações de Folha de S.Paulo, CartaCapital, GZH, CNN Brasil, Diário do Centro do Mundo, Crusoé, A Crítica, Money Times ■

Mais Notícias