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PGR pede nulidade do relatório que escancarou a guerra no Supremo
André Mendonça confirma reunião com banqueiro do Banco Master após vazamento de mensagens e áudios; PGR pede nulidade de relatório da PF que envolve Alexandre de Moraes; crise institucional expõe racha entre ministros e coloca em xeque os limites da atuação judicial
Politica
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■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

O Supremo Tribunal Federal vive uma de suas crises institucionais mais agudas dos últimos anos. O que começou como uma investigação sobre supostas fraudes no Banco Master transformou-se em uma guerra aberta entre ministros da Corte, exposta por áudios vazados, mensagens extraídas do celular de um banqueiro preso e um pedido de nulidade da Procuradoria-Geral da República que questiona a própria legalidade dos procedimentos adotados pelo relator do caso, o ministro André Mendonça.

Na manhã desta quarta-feira (2 de setembro de 2026), Mendonça confirmou que se encontrou com o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador e controlador do Banco Master, em março de 2025, em São Paulo. A confissão veio horas depois de o jornalista Paulo Motoryn revelar o encontro em sua newsletter "Noites Húngaras", na plataforma Substack, com base em mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro. Segundo a reportagem original do ICL Notícias, a reunião ocorreu em 14 de março de 2025, na sede do Instituto ITER, fundado pelo próprio magistrado, e durou cerca de duas horas.

Em nota à imprensa, Mendonça afirmou que recebeu Vorcaro "uma única vez", por iniciativa do empresário, e que se "limitou a ouvi-lo". Segundo o ministro, o encontro tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo em julgamento no STF que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Mendonça destacou que, na data da reunião, o julgamento estava interrompido por pedido de vista de outro ministro, e que sua atuação posterior no caso foi contrária à posição defendida por Vorcaro. O magistrado disse ainda que, no mesmo mês, recebeu também o advogado do banqueiro.

O conteúdo dos áudios vazados, no entanto, revela uma articulação mais complexa do que a versão oficial apresentada pelo gabinete de Mendonça. As mensagens indicam que a aproximação entre Vorcaro e o ministro foi intermediada ao longo de semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Em um dos áudios, Ciro afirmou a Vorcaro que estava "trabalhando" para ele e que iria levar o ministro a uma alfaiataria — acompanhado de uma foto ao lado de Mendonça. Em outra conversa, o advogado disse ter "balançado" o ministro com informações sobre a situação do Banco Master no Banco Central. A expressão "levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno", dita por Ciro em áudio enviado a Vorcaro em 8 de fevereiro de 2025, expõe a informalidade e a proximidade das tratativas que antecederam o encontro reservado.

A confirmação do encontro entre Mendonça e Vorcaro ocorre em um momento particularmente delicado. Apenas um dia antes, o ministro havia retirado o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mais de 200 páginas que revelou trocas de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Nessas conversas, o banqueiro pedia ajuda a Moraes dois dias antes de ser preso, discutindo a possibilidade de a PF deflagrar uma operação que o teria como alvo. As mensagens também mencionam um contrato de R$ 3,6 milhões mensais entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A PF aponta que a última modificação do contrato foi feita por um perfil atribuído ao próprio Alexandre de Moraes.

Foi diante desse cenário que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu, na terça-feira (1º de setembro), a nulidade do relatório da PF. Em manifestação contundente, Gonet sustentou que o ministro André Mendonça não teria competência para determinar o aprofundamento de uma investigação pré-processual contra outro integrante da Corte. Segundo o procurador-geral, a ordem para investigar pessoas específicas, sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da própria Polícia Federal, viola o artigo 3º-A do Código de Processo Penal, que impede o juiz de assumir funções de investigação.

Gonet foi além e apontou o que chamou de "dupla nulidade". Primeiro, porque a determinação de Mendonça para que a PF identificasse os interlocutores das mensagens de Vorcaro partiu de iniciativa exclusiva do magistrado, sem provocação do órgão acusatório. Segundo, porque a investigação de um ministro do STF por outro ministro, na fase pré-processual, fere o princípio do juiz natural e o foro privilegiado. "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais", afirmou Gonet em seu parecer. O procurador-geral destacou ainda que Mendonça já sabia das menções a Alexandre de Moraes no material antes de determinar a investigação.

A reação de Mendonça ao pedido de nulidade da PGR foi imediata e reveladora das tensões internas na Corte. Em vez de arquivar o procedimento, o ministro encaminhou o caso para análise institucional do STF e colocou a decisão nas mãos do presidente da Corte, Edson Fachin. A principal dúvida que agora paira em Brasília é se Alexandre de Moraes será formalmente investigado — e quem terá poder para decidir sobre a continuidade ou o arquivamento da apuração.

O cenário desenhado nos últimos dias expõe uma rivalidade que, segundo relatos de bastidores, vinha sendo percebida de forma silenciosa nos corredores do STF. A decisão de Mendonça de retirar o sigilo do relatório da PF foi interpretada por muitos como um movimento calculado para expor publicamente o colega Alexandre de Moraes. Em contrapartida, o pedido de nulidade da PGR, assinado por Paulo Gonet, representa um duro revés à estratégia de Mendonça e coloca em xeque não apenas o conteúdo das investigações, mas a própria legitimidade dos métodos utilizados para produzi-las.

Há ainda outros desdobramentos que amplificam a crise. Na semana passada, um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça ouviu Daniel Vorcaro sem a presença da Polícia Federal — um procedimento atípico que gerou mais questionamentos sobre a condução do caso. Além disso, Mendonça também encaminhou um ofício à PGR pedindo esclarecimentos sobre mensagens em que Vorcaro buscava ajuda de Moraes para intervir junto ao procurador-geral e ao diretor-geral da PF. O movimento foi visto como mais um capítulo da "guerra civil" que se instalou no Supremo.

Do ponto de vista jurídico-institucional, o episódio levanta questões profundas sobre os limites da atuação de um ministro do STF na fase de investigação, especialmente quando o alvo da apuração é outro integrante da própria Corte. O modelo acusatório, consagrado pelo Código de Processo Penal, estabelece uma separação clara entre as funções de investigar (atribuída à polícia e ao Ministério Público) e julgar (atribuída ao Judiciário). Ao determinar, de ofício, a produção de um relatório que resultou na exposição pública de um colega, Mendonça pode ter ultrapassado essa fronteira — o que, se confirmado, comprometeria não apenas a validade do relatório, mas também a imparcialidade que se espera de um magistrado.

Do ponto de vista político, o escândalo expõe as fraturas internas de um Supremo cada vez mais polarizado. Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e Moraes, frequentemente alvo de críticas do bolsonarismo, representam alas opostas da Corte. O episódio dos áudios vazados e do relatório da PF transformou essa rivalidade latente em um conflito aberto, com repercussões que vão muito além dos muros do STF. A crise ocorre em um momento em que a confiança da sociedade nas instituições já se encontra fragilizada, e a imagem do Supremo — tradicionalmente visto como o guardião da Constituição — sai profundamente arranhada.

O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que tomará as medidas cabíveis diante do caso. Resta saber se a Corte conseguirá conter os estragos institucionais e restabelecer a normalidade, ou se a "guerra aberta" entre ministros se aprofundará nos próximos dias, com novos vazamentos, novas acusações e novas nulidades. O que já está claro é que o caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre supostas fraudes financeiras para se tornar o palco de um dos maiores abalos institucionais da história recente do Supremo Tribunal Federal.

Com informações de BBC News Brasil, Agência Brasil, Congresso em Foco, Revista Fórum, Veja, O Globo, ICL Notícias, JB Jurídico, CartaCapital, O Estado de S.Paulo, CNN Brasil, Gazeta do Povo, O Tempo, Diário do Nordeste, Opera Mundi, Bahia Notícias, Correio da Amazônia, GaúchaZH, A Gazeta, Diário de Pernambuco, Tribuna do Norte, Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Extra, O Povo, DGABC, Hora do Povo, Território Livre, Mais Goiás, BNews, O Imparcial, Correio do Estado, Diário do Centro do Mundo, DN de Portugal e Rádio Nacional ■

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