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Polícia boliviana descobre fazenda de robôs de Cerimedo; MP é acionado contra Flávio Bolsonaro
Investigação sobre argentino aliado dos Bolsonaro revela estrutura de manipulação digital na Bolívia e leva Ministério Público a apurar possível ligação com campanha presidencial de 2026
Politica
Foto: https://pbs.twimg.com/card_img/2091530804300333056/JQhU_CRI?format=jpg&name=orig
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■   Bernardo Cahue, 27/08/2026

A Polícia da Bolívia encontrou uma "fazenda de bots" ou "fazenda de robôs" em um endereço ligado ao consultor político e marketeiro digital argentino Fernando Andrés Cerimedo, preso em Santa Cruz de la Sierra sob acusação de tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller. O caso ganhou repercussão internacional e chegou ao Brasil, onde o Ministério Público foi acionado para investigar a possível atuação de Cerimedo na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República em 2026.

Cerimedo, de 45 anos, é descrito como uma espécie de "Steve Bannon latino-americano" – um especialista em criar estratégias políticas no ambiente digital sem se balizar por critérios éticos. Ele atuou como estrategista digital de Javier Milei na Argentina, de Jair Bolsonaro no Brasil e assessorou os presidentes da Bolívia, Rodrigo Paz, e de Honduras, Nasry "Tito" Asfura. Sua relação com a família Bolsonaro vem de pelo menos 2018, e ele ganhou notoriedade no Brasil após as eleições de 2022, quando propagou informações falsas sobre fraude nas urnas eletrônicas.

A descoberta da "fazenda de robôs" ocorreu durante buscas realizadas pelo Ministério Público de La Paz em diversos imóveis relacionados a Cerimedo. Em uma das residências, agentes encontraram o equivalente a US$ 43 mil e uma estrutura tecnológica descrita como "minigranja de bots" ou "fazenda de cliques". Essas fazendas de bots utilizam sistemas automatizados para administrar milhares de perfis falsos em redes sociais, gerando curtidas, comentários e compartilhamentos para simular mobilização social espontânea e influenciar debates, especialmente em períodos eleitorais.

A prisão de Cerimedo ocorreu na madrugada do dia 18 de agosto, quando ele desembarcou no aeroporto de Santa Cruz. Ele é investigado como principal suspeito de ter ordenado um atentado a tiros contra Nadia Beller, que sobreviveu a três disparos quando deixava um hotel na cidade. A advogada, que está grávida de quatro meses, acusou Cerimedo de planejar sua morte. No dia 21 de agosto, a Justiça boliviana decretou seis meses de prisão preventiva contra o argentino no presídio de Palmasola, em Santa Cruz. Cerimedo declarou-se inocente e negou envolvimento no crime.

O caso chamou a atenção do Brasil depois que Nadia Beller revelou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que Cerimedo teria dito que "lutaria" pelo senador Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026. Segundo a advogada, ela perguntou ao consultor se Flávio tinha alguma chance de vencer a disputa presidencial. "Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar", afirmou Nadia. Ela disse ter entendido na hora que Cerimedo ajudaria o filho de Jair Bolsonaro.

O relato levou o Ministério Público a ser acionado para investigar a possível relação de Cerimedo com a campanha de Flávio Bolsonaro. Notas e mensagens encontradas no celular do argentino estão sendo analisadas. A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada para comentar o caso, mas não respondeu oficialmente até a publicação. Reservadamente, integrantes da equipe disseram que Cerimedo não tem relação com a campanha.

Além disso, no dia 24 de agosto, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) formalizou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), um pedido para ampliar as investigações sobre Cerimedo. O parlamentar requisita a colaboração com as autoridades bolivianas para que os equipamentos, documentos e dados apreendidos sejam preservados, compartilhados e analisados pela Polícia Federal. Falcão também pede apuração sobre eventual relação financeira de Cerimedo com partidos, candidatos ou intermediários ligados a campanhas eleitorais brasileiras, além do uso ou planejamento da estrutura tecnológica para amplificação artificial de conteúdos que ataquem a integridade do processo eleitoral.

Cerimedo já havia sido indiciado pela Polícia Federal em 2024 no inquérito que apurou a tentativa de golpe de Estado no Brasil, mas acabou poupado pela Procuradoria-Geral da República. Semanas antes de sua prisão, ele participou de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas, reforçando as suspeitas sobre sua atuação na propagação de desinformação.

O caso Cerimedo expõe uma rede de desinformação e manipulação digital que atua em escala continental, com ramificações na política brasileira. A descoberta da "fazenda de robôs" na Bolívia e o acionamento do Ministério Público contra Flávio Bolsonaro colocam sob investigação os vínculos entre o estrategista argentino e o clã Bolsonaro, em meio à disputa pela Presidência da República em 2026.

Com informações de Intercept Brasil, O Globo, O Povo, UOL, IstoÉ, Folha de S.Paulo, Brasil 247, Aos Fatos ■

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