Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
As peripécias do magistrado bolsonarista que imita os passos de Moro
Projeto de vingança contra Alexandre de Moraes faz com que André Mendonça conduza investigação da PF e retire sigilo em um momento crucial: às vésperas do pleito eleitoral
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSATq5918sxwvqxEm2gW93pYTjHqVA_oV_nNdeE8bLqmETTTFUS72Hp_vCL&s=10
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), repete à exaustão um roteiro que já foi encenado antes no teatro judiciário brasileiro. Aos poucos, o magistrado indicado por Jair Bolsonaro vai trilhando os mesmos passos do ex-juiz Sérgio Moro: conduz investigações com assimetria de ritmo, promove vazamentos seletivos em período eleitoral e atua como acusador, investigador e juiz ao mesmo tempo. O alvo, desta vez, não é o PT, mas o ministro Alexandre de Moraes — seu colega na Corte e, não por acaso, o homem que conduziu o processo que resultou na condenação do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 2025. A "vingança" contra Moraes, como já rotulam nos bastidores de Brasília, está sendo executada com precisão cirúrgica e no momento politicamente mais sensível: a seis semanas do primeiro turno das eleições presidenciais.

A confissão veio na manhã desta quarta-feira (2 de setembro de 2026), depois que o jornalista Paulo Motoryn revelou, em sua newsletter "Noites Húngaras", mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Mendonça admitiu que se encontrou com o dono do Banco Master em março de 2025, em São Paulo, na sede de um instituto fundado pelo próprio magistrado. Segundo a nota enviada à imprensa, o encontro ocorreu "uma única vez", a pedido do banqueiro, e o ministro teria se "limitado a ouvi-lo". O assunto, segundo Mendonça, foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

O conteúdo dos áudios vazados, no entanto, revela uma articulação bem mais complexa. As mensagens mostram que a reunião foi organizada durante semanas pelo então advogado do Master, Ciro Soares, e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Em um dos áudios, Ciro diz a Vorcaro: "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno". A informalidade e a promiscuidade entre o magistrado e o investigado expõem uma relação que, no mínimo, fere o decoro e a isenção que se espera de um ministro do Supremo — especialmente daquele que, meses depois, tornar-se-ia relator das investigações sobre o Banco Master.

A cronologia é implacável: Mendonça se encontra com Vorcaro em março de 2025, antes de se tornar relator do caso. Em fevereiro de 2026, torna-se o magistrado responsável por investigar as fraudes do banco. Em agosto de 2026, determina que a Polícia Federal identifique os interlocutores das mensagens extraídas do celular de Vorcaro. O retorno veio em 72 horas. No relatório, a PF aponta que Vorcaro trocava mensagens com um contato salvo como "Alexandre de Moraes". As conversas indicam que o banqueiro discutia com o ministro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação que o teria como alvo. A PF também detalhou contratos mantidos por Vorcaro com o escritório de advocacia da mulher de Moraes, no valor de R$ 129 milhões.

Mendonça não deu ciência à Procuradoria-Geral da República sobre o relatório. Procurou o presidente do STF, Edson Fachin, no fim de semana, e relatou o conteúdo "bombástico". Fachin, segundo relatos, não escondeu o temor pelo desgaste que o Supremo poderia amargar com a crise em plena campanha eleitoral. Na segunda-feira (31), o ministro Alexandre de Moraes tomou conhecimento do relatório. Segundo aliados, Moraes buscou Mendonça e o bate-boca começou. Acusou o colega de investigar outros ministros da Corte. Mendonça rebateu dizendo que fez o pedido sem saber quem era o interlocutor. Foi só depois do confronto que Mendonça decidiu encaminhar o documento à PGR.

Na terça-feira (1º), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório. Em parecer contundente, Gonet sustentou que Mendonça não tem competência para determinar o aprofundamento de investigação pré-processual contra outro integrante da Corte, violando o artigo 3º-A do Código de Processo Penal, que impede o juiz de assumir funções de investigação. "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais", afirmou Gonet. O procurador-geral apontou o que chamou de "dupla nulidade": a iniciativa exclusiva de Mendonça, sem provocação do Ministério Público, e a violação do princípio do juiz natural e do foro privilegiado.

Mesmo após o pedido de arquivamento da PGR, Mendonça não recuou. O ministro encaminhou o caso para análise institucional do STF e colocou nas mãos do presidente da Corte, Edson Fachin, a definição sobre os próximos passos. A principal dúvida que resta em Brasília é: afinal, Moraes será investigado? Mendonça deve insistir que o plenário do STF analise as informações trazidas pela PF. O ministro já pediu uma sessão "pública, transparente, presencial" para o julgamento.

O paralelo com Sérgio Moro é inevitável e já vem sendo feito por colunistas, ministros e analistas. O jornalista Bernardo Mello Franco, em coluna no Globo, comparou a atuação de Mendonça à de Moro durante a eleição de 2018. "Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno", escreveu. A referência a 2018 é direta: "Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo".

Dentro do STF, a comparação também ecoa. Uma ala da Corte acusa Mendonça de definir alvos e transmitir ordens indevidas à Polícia Federal, em uma atuação que comparam à do ex-juiz da Lava Jato. O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, já havia criticado a investigação durante um julgamento na Segunda Turma, afirmando ver "triste reminiscências dos métodos e expedientes" da força-tarefa de Curitiba. Mendes citou decisões da Lava Jato que acabaram revistas pelo Supremo, entre elas a que reconheceu a suspeição de Moro. O procurador-geral Paulo Gonet, ao pedir a nulidade, usou o mesmo argumento que anulou processos de Moro: a violação do sistema acusatório.

O timing eleitoral é o que torna o episódio ainda mais explosivo. A seis semanas do primeiro turno, os vazamentos sobre o caso Master pautam o noticiário e têm potencial de desequilibrar a disputa presidencial. O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à reeleição e citado nas mensagens de Vorcaro, já declarou considerar seu envolvimento no caso uma "página virada". Enquanto isso, as investigações sobre o caso Lulinha — que podem atingir o presidente da República — não produzem fatos novos desde maio. A assimetria é tão gritante que já levanta suspeitas sobre a seletividade do relator.

Mendonça, que raramente dá entrevistas, tem seu gabinete "falando pelos cotovelos", na expressão de Mello Franco. Informações são atribuídas a "interlocutores" do ministro — método de divulgação judicial que, segundo o colunista, "fez escola na Lava-Jato". A estratégia de comunicação é idêntica à usada por Moro em 2018: vazamentos graduais, construção de narrativa nos bastidores e exposição pública de investigados em momento crítico.

O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional". Disse que examinará a atuação processual de Mendonça e anunciará uma decisão "nos próximos dias". Enquanto isso, Moraes e seus aliados preparam uma disputa no plenário e calculam ter maioria para anular os atos de Mendonça. Ministros próximos a Moraes avaliam que uma sessão presencial, televisionada e de forte repercussão pública pode aumentar a pressão sobre os colegas mais sensíveis à opinião pública.

O que está em jogo, no fundo, é mais do que o destino de Alexandre de Moraes ou a sobrevivência política de André Mendonça. O que se desenha nos corredores do STF é um teste de fogo para o próprio modelo acusatório e para os limites da atuação judicial no Brasil. Se Mendonça conseguir levar adiante sua investigação, estará consolidado um precedente perigoso: o de que um ministro do Supremo pode, de ofício, investigar outro ministro, produzir relatórios sigilosos, promover vazamentos seletivos e expor colegas publicamente — tudo sem a participação do Ministério Público e sem o crivo do plenário. Se for derrubado, será mais um capítulo na longa lista de tentativas frustradas de usar o Judiciário como arma política.

O fantasma de Sérgio Moro ronda o Supremo. E André Mendonça parece disposto a seguir seus passos — com a mesma caneta, os mesmos métodos e, quem sabe, o mesmo destino. Resta saber se a Corte, desta vez, terá a coragem de interromper o espetáculo antes do fim.

Com informações de BBC News Brasil, Agência Brasil, O Globo, Extra, Valor Econômico, G1, Revista Fórum, Congresso em Foco, Veja, Gazeta do Povo, O Estado de S.Paulo, BandNews, A TARDE, GZH, Diário do Centro do Mundo, Brasil de Fato, Opera Mundi, Bahia Notícias, R7, Portal O Dia, Diário de Pernambuco, A Gazeta, JB Jurídico, CNN Brasil, UOL, ICL Notícias e CartaCapital ■

Mais Notícias