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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), repete à exaustão um roteiro que já foi encenado antes no teatro judiciário brasileiro. Aos poucos, o magistrado indicado por Jair Bolsonaro vai trilhando os mesmos passos do ex-juiz Sérgio Moro: conduz investigações com assimetria de ritmo, promove vazamentos seletivos em período eleitoral e atua como acusador, investigador e juiz ao mesmo tempo. O alvo, desta vez, não é o PT, mas o ministro Alexandre de Moraes — seu colega na Corte e, não por acaso, o homem que conduziu o processo que resultou na condenação do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 2025. A "vingança" contra Moraes, como já rotulam nos bastidores de Brasília, está sendo executada com precisão cirúrgica e no momento politicamente mais sensível: a seis semanas do primeiro turno das eleições presidenciais.
A confissão veio na manhã desta quarta-feira (2 de setembro de 2026), depois que o jornalista Paulo Motoryn revelou, em sua newsletter "Noites Húngaras", mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Mendonça admitiu que se encontrou com o dono do Banco Master em março de 2025, em São Paulo, na sede de um instituto fundado pelo próprio magistrado. Segundo a nota enviada à imprensa, o encontro ocorreu "uma única vez", a pedido do banqueiro, e o ministro teria se "limitado a ouvi-lo". O assunto, segundo Mendonça, foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
O conteúdo dos áudios vazados, no entanto, revela uma articulação bem mais complexa. As mensagens mostram que a reunião foi organizada durante semanas pelo então advogado do Master, Ciro Soares, e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Em um dos áudios, Ciro diz a Vorcaro: "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno". A informalidade e a promiscuidade entre o magistrado e o investigado expõem uma relação que, no mínimo, fere o decoro e a isenção que se espera de um ministro do Supremo — especialmente daquele que, meses depois, tornar-se-ia relator das investigações sobre o Banco Master.
A cronologia é implacável: Mendonça se encontra com Vorcaro em março de 2025, antes de se tornar relator do caso. Em fevereiro de 2026, torna-se o magistrado responsável por investigar as fraudes do banco. Em agosto de 2026, determina que a Polícia Federal identifique os interlocutores das mensagens extraídas do celular de Vorcaro. O retorno veio em 72 horas. No relatório, a PF aponta que Vorcaro trocava mensagens com um contato salvo como "Alexandre de Moraes". As conversas indicam que o banqueiro discutia com o ministro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação que o teria como alvo. A PF também detalhou contratos mantidos por Vorcaro com o escritório de advocacia da mulher de Moraes, no valor de R$ 129 milhões.
Mendonça não deu ciência à Procuradoria-Geral da República sobre o relatório. Procurou o presidente do STF, Edson Fachin, no fim de semana, e relatou o conteúdo "bombástico". Fachin, segundo relatos, não escondeu o temor pelo desgaste que o Supremo poderia amargar com a crise em plena campanha eleitoral. Na segunda-feira (31), o ministro Alexandre de Moraes tomou conhecimento do relatório. Segundo aliados, Moraes buscou Mendonça e o bate-boca começou. Acusou o colega de investigar outros ministros da Corte. Mendonça rebateu dizendo que fez o pedido sem saber quem era o interlocutor. Foi só depois do confronto que Mendonça decidiu encaminhar o documento à PGR.
Na terça-feira (1º), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório. Em parecer contundente, Gonet sustentou que Mendonça não tem competência para determinar o aprofundamento de investigação pré-processual contra outro integrante da Corte, violando o artigo 3º-A do Código de Processo Penal, que impede o juiz de assumir funções de investigação. "Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais", afirmou Gonet. O procurador-geral apontou o que chamou de "dupla nulidade": a iniciativa exclusiva de Mendonça, sem provocação do Ministério Público, e a violação do princípio do juiz natural e do foro privilegiado.
Mesmo após o pedido de arquivamento da PGR, Mendonça não recuou. O ministro encaminhou o caso para análise institucional do STF e colocou nas mãos do presidente da Corte, Edson Fachin, a definição sobre os próximos passos. A principal dúvida que resta em Brasília é: afinal, Moraes será investigado? Mendonça deve insistir que o plenário do STF analise as informações trazidas pela PF. O ministro já pediu uma sessão "pública, transparente, presencial" para o julgamento.
O paralelo com Sérgio Moro é inevitável e já vem sendo feito por colunistas, ministros e analistas. O jornalista Bernardo Mello Franco, em coluna no Globo, comparou a atuação de Mendonça à de Moro durante a eleição de 2018. "Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno", escreveu. A referência a 2018 é direta: "Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo".
Dentro do STF, a comparação também ecoa. Uma ala da Corte acusa Mendonça de definir alvos e transmitir ordens indevidas à Polícia Federal, em uma atuação que comparam à do ex-juiz da Lava Jato. O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, já havia criticado a investigação durante um julgamento na Segunda Turma, afirmando ver "triste reminiscências dos métodos e expedientes" da força-tarefa de Curitiba. Mendes citou decisões da Lava Jato que acabaram revistas pelo Supremo, entre elas a que reconheceu a suspeição de Moro. O procurador-geral Paulo Gonet, ao pedir a nulidade, usou o mesmo argumento que anulou processos de Moro: a violação do sistema acusatório.
O timing eleitoral é o que torna o episódio ainda mais explosivo. A seis semanas do primeiro turno, os vazamentos sobre o caso Master pautam o noticiário e têm potencial de desequilibrar a disputa presidencial. O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à reeleição e citado nas mensagens de Vorcaro, já declarou considerar seu envolvimento no caso uma "página virada". Enquanto isso, as investigações sobre o caso Lulinha — que podem atingir o presidente da República — não produzem fatos novos desde maio. A assimetria é tão gritante que já levanta suspeitas sobre a seletividade do relator.
Mendonça, que raramente dá entrevistas, tem seu gabinete "falando pelos cotovelos", na expressão de Mello Franco. Informações são atribuídas a "interlocutores" do ministro — método de divulgação judicial que, segundo o colunista, "fez escola na Lava-Jato". A estratégia de comunicação é idêntica à usada por Moro em 2018: vazamentos graduais, construção de narrativa nos bastidores e exposição pública de investigados em momento crítico.
O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que "os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional". Disse que examinará a atuação processual de Mendonça e anunciará uma decisão "nos próximos dias". Enquanto isso, Moraes e seus aliados preparam uma disputa no plenário e calculam ter maioria para anular os atos de Mendonça. Ministros próximos a Moraes avaliam que uma sessão presencial, televisionada e de forte repercussão pública pode aumentar a pressão sobre os colegas mais sensíveis à opinião pública.
O que está em jogo, no fundo, é mais do que o destino de Alexandre de Moraes ou a sobrevivência política de André Mendonça. O que se desenha nos corredores do STF é um teste de fogo para o próprio modelo acusatório e para os limites da atuação judicial no Brasil. Se Mendonça conseguir levar adiante sua investigação, estará consolidado um precedente perigoso: o de que um ministro do Supremo pode, de ofício, investigar outro ministro, produzir relatórios sigilosos, promover vazamentos seletivos e expor colegas publicamente — tudo sem a participação do Ministério Público e sem o crivo do plenário. Se for derrubado, será mais um capítulo na longa lista de tentativas frustradas de usar o Judiciário como arma política.
O fantasma de Sérgio Moro ronda o Supremo. E André Mendonça parece disposto a seguir seus passos — com a mesma caneta, os mesmos métodos e, quem sabe, o mesmo destino. Resta saber se a Corte, desta vez, terá a coragem de interromper o espetáculo antes do fim.
Com informações de BBC News Brasil, Agência Brasil, O Globo, Extra, Valor Econômico, G1, Revista Fórum, Congresso em Foco, Veja, Gazeta do Povo, O Estado de S.Paulo, BandNews, A TARDE, GZH, Diário do Centro do Mundo, Brasil de Fato, Opera Mundi, Bahia Notícias, R7, Portal O Dia, Diário de Pernambuco, A Gazeta, JB Jurídico, CNN Brasil, UOL, ICL Notícias e CartaCapital ■