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A teia internacional de desinformação que ameaça a democracia brasileira
Preso na Bolívia por tentativa de feminicídio, o estrategista argentino é apontado como peça-chave de uma rede global de extrema direita que atua para desestabilizar eleições na América Latina, com ramificações que chegam ao Planalto
Analise
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■   Bernardo Cahue, 27/08/2026

A detenção de Fernando Cerimedo na Bolívia, em 18 de agosto de 2026, sob acusação de tentativa de homicídio contra sua ex-companheira, escancarou as engrenagens de uma operação política que transcende fronteiras. Mais do que um estrategista digital, Cerimedo consolidou-se como o elo operacional entre o bolsonarismo e uma rede internacional de extrema direita que atua para interferir em processos eleitorais em diversos países.

A ligação de Cerimedo com os irmãos Bolsonaro é profunda e documentada. Em 2022, dias após a derrota de Jair Bolsonaro, o argentino protagonizou uma live intitulada “O Brasil Foi Roubado”, que reuniu 400 mil pessoas e espalhou informações falsas sobre as urnas eletrônicas. O conteúdo, apresentado como um dossiê técnico, foi amplamente compartilhado por apoiadores do então presidente e serviu de combustível para os atos golpistas de 8 de janeiro. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a suspender as contas de Cerimedo e de seu portal La Derecha Diario por desinformação.

A proximidade, no entanto, não se restringiu ao patriarca. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, tornou-se um aliado declarado. Em julho de 2026, realizou uma live com Cerimedo para repetir as acusações infundadas contra o sistema eleitoral. Em evento público neste ano, Eduardo levou o argentino ao palco, elogiou sua “coragem” e defendeu o trabalho de desinformação de 2022. Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência em 2026, também está no centro dessa teia. Segundo relato de Nadia Beller, ex-companheira de Cerimedo e vítima do atentado, o consultor argentino afirmou que “lutaria” pela eleição de Flávio.

O alcance da atuação de Cerimedo, no entanto, vai muito além do Brasil. Ele construiu uma carreira como “guru” da ultradireita latino-americana, atuando em campanhas na Argentina, no Chile, na Bolívia e em Honduras. Na Argentina, foi responsável por parte da estratégia digital da campanha vitoriosa de Javier Milei em 2023. No Chile, assessorou a campanha contra a nova Constituição. Na Bolívia, prestava assessoria informal ao presidente Luis Arce quando foi preso.

O caso mais emblemático de interferência externa, porém, ocorreu em Honduras. Cerimedo atuou como consultor do candidato presidencial Nasry Asfura, do Partido Nacional, nas eleições de novembro de 2025. A vitória de Asfura foi denunciada como um “golpe eleitoral” pelo ex-ministro de Planificação de Honduras, Ricardo Arturo Salgado Bonilla. Segundo a denúncia, Cerimedo teria coordenado a inserção de votos em urnas previamente identificadas como favoráveis à oposição. Em áudio atribuído ao argentino, ele afirma: “nós já tínhamos identificado as urnas onde eles obtêm mais votos, e foi lá que inserimos os votos [contra eles]”.

Essa atuação em Honduras revela o modus operandi de Cerimedo e de sua rede: a exportação de estratégias de desinformação e manipulação eleitoral entre países. E essa rede tem conexões de alto nível. Investigações apontam que Cerimedo atuou em Honduras com o apoio de operadores ligados a Donald Trump, formando um eixo que atravessa Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, foi escolhido como interlocutor pelo ministro da Diáspora de Israel para divulgar informações do governo israelense no Brasil.

Diante desse cenário, o Palácio do Planalto acionou o alerta. A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação coordenada em diferentes eleições é vista como um dos principais riscos de ingerência externa na disputa presidencial brasileira de outubro. O deputado Rui Falcão (PT) chegou a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) que solicite colaboração da Bolívia para investigar Cerimedo por uma possível “fazenda de bots”. O argentino já havia sido indiciado pela Polícia Federal em 2024 na investigação sobre a tentativa de golpe, mas escapou da denúncia da Procuradoria-Geral da República.

A prisão de Cerimedo, portanto, não é um fato isolado. Ela expõe as entranhas de um projeto político que desrespeita a soberania popular e a integridade dos processos democráticos. A atuação do argentino, sempre em estreita colaboração com os irmãos Bolsonaro, revela a disposição do clã em utilizar recursos e aliados estrangeiros para subverter a vontade das urnas. A pergunta que fica é: até onde essa rede internacional de desinformação será capaz de chegar para interferir nas eleições brasileiras?

Com informações de Agência Pública, Brasil de Fato, CartaCapital, El Clip, Folha de S.Paulo, ICL Notícias, Intercept Brasil, Revista Fórum ■

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