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O noticiário da TV Globo e de suas plataformas digitais oferece um capítulo estarrecedor sobre o que analistas já chamam de "critério seletivo de relevância". Enquanto o advogado Willer Tomaz de Souza – preso preventivamente desde 11 de agosto por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) – amarga uma cela no sistema penitenciário do Distrito Federal, a emissora preferiu não apenas esfriar a cobertura do caso, mas enterrá-lo de vez. A decisão editorial foi clara: "matar a pauta" e deslocar todo o foco para uma suposta fraude sofrida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O contraste é tão abrupto quanto revelador.
De um lado, a Polícia Federal desmonta uma organização criminosa que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS. O advogado Willer Tomaz é apontado pela corporação como o "hub financeiro, patrimonial e logístico" da estrutura, colocando à disposição dos beneficiários do esquema empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos. Em sua fase mais recente, a Operação Sem Desconto mirou o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado, sua esposa – que teria recebido mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz –, além de irmãs e filha do parlamentar.
Do outro lado, a Globo escalou o episódio da filiação de Flávio Bolsonaro ao Partido Missão como se fosse o grande escândalo do momento. A história é, no mínimo, peculiar: na véspera do prazo final para registro de candidaturas, o sistema do TSE passou a registrar o senador como filiado ao Missão – partido de Renan Santos, seu adversário na disputa presidencial. A campanha de Flávio alegou "invasão" ou "molecagem", mas o próprio TSE descartou a hipótese de ataque hacker. O que a Globo transformou em quase um dia inteiro de cobertura – com direito a chamadas de primeira página no G1, participação no Jornal Nacional e desdobramentos no GloboNews Em Pauta – é, na verdade, um imbróglio eleitoral que, embora relevante, não se compara à magnitude do esquema bilionário contra aposentados.
O silêncio sobre Willer Tomaz não é um caso isolado. Ele se insere em uma operação maior de vazamentos seletivos que têm atingido em cheio Alexandre de Moraes, poupado seletivamente André Mendonça, procurado culpar Lula, dosado Flávio Bolsonaro e fabricado uma crise institucional no STF e na Procuradoria-Geral da República (PGR) – tudo para alavancar o novo queridinho da Faria Lima, Augusto Cury (Avante).
O padrão é o mesmo da cobertura do caso Lulinha. Enquanto a PF aprofundava as investigações contra Willer Tomaz, a emissora dedicou horas de sua programação a um empréstimo pessoal de R$ 249 mil envolvendo uma amiga do filho de Lula. O Jornal Nacional e os telejornais da Globo dedicaram mais de dez minutos em bloco único ao caso – um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas atribuídas a Willer Tomaz, estimadas em R$ 45,5 milhões. A cobertura se estendeu por quase nove horas de programação.
O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, foi incisivo ao afirmar que a Globo "retoma velhos métodos da Lava Jato – um período tenebroso no país" e "usa a imagem do filho para desgastar o presidente Lula". Fontes da Polícia Federal atribuem os vazamentos sobre o caso Lulinha a integrantes "lavajatistas" da PGR, que teriam repassado mensagens de WhatsApp fora de contexto para jornalistas de confiança da mídia liberal. Em 21 de agosto, o ministro André Mendonça determinou que a PF investigasse esses vazamentos de informações sigilosas.
O que a Globo "esquece" de estampar em suas capas é um conjunto de escândalos que fazem o caso Luchsinger parecer uma coluna social:
É neste contexto que emerge a "Vaza-Gaspar" – operação de vazamentos orquestrada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que tem pautado a crise institucional. Em 1º de setembro, o G1 publicou matéria com as reações dos presidenciáveis às novas revelações do caso Master. O que chama a atenção é que todos os depoimentos opinativos sobre o suposto envolvimento de Alexandre de Moraes saíram exclusivamente dos cinco candidatos da direita à disputa da presidência:
A ausência de manifestações de Lula ou de outros nomes da esquerda na matéria não é acidental. Ela reflete a construção de uma narrativa uníssona contra Moraes, alimentada pela Globo, que serve a um duplo propósito: desgastar o ministro – desafeto do bolsonarismo e do mercado – e, ao mesmo tempo, criar um ambiente de "crise institucional" que favorece a ascensão de um nome "terceira via" como Augusto Cury.
O pouco que se vê sobre Flávio Bolsonaro nos vazamentos é cuidadosamente dosado. Enquanto a Globo dá espaço para que ele ataque Moraes, a emissora enterra a conexão do senador com Willer Tomaz – seu amigo pessoal. O advogado foi alvo de buscas da PF, que encontrou uma máquina de contar dinheiro, maços de reais escondidos em livros-cofre e apreendeu quatro aviões de empresas ligadas a ele. A cobertura desse fato foi relegada ao limbo.
Já André Mendonça é poupado seletivamente. O ministro, que determinou a prisão de Willer Tomaz e autorizou a Operação Sem Desconto, é tratado como um "herói de toga", enquanto a Globo evita escrutinar sua atuação e suas conexões. O colunista Carlos Andreazza chegou a questionar a permanência, no STF, de investigações que não envolvem pessoas com foro por prerrogativa de função – uma crítica que raramente é aplicada a Mendonça.
A fabricação de crise institucional é o motor dessa operação. Ao saturar o noticiário com ataques a Moraes, a Globo alimenta a narrativa de que o STF e a PGR estão em guerra, desacreditando as instituições e pavimentando o caminho para um candidato que se apresente como "renovador" e "moralizador". Esse papel, nos planos da Faria Lima, cabe a Augusto Cury.
O salto de Cury nas pesquisas – de 2% para 11% em uma semana, na pesquisa BTG/Nexus encomendada pelo BTG Pactual – não é coincidência. Ele ocorre exatamente quando a Globo ativa o modo "Vaza-Tudo" contra Moraes, enterra Willer Tomaz, dosa Flávio Bolsonaro e transforma Lulinha em fantasma. O escritor psiquiatra, que não tem trajetória política ou lastro institucional, é alçado à condição de "nova terceira via" com o apoio velado da maior emissora do país.
O que está em jogo não é apenas a credibilidade da Globo, mas a própria integridade do processo eleitoral. Quando uma emissora concessionária de serviço público decide, por conta própria, o que é ou não "interesse público"; quando vazamentos seletivos pautam a crise institucional; quando um esquema bilionário contra aposentados é enterrado em favor de um imbróglio eleitoral menor; quando todos os depoimentos contra um ministro do STF vêm apenas da direita – o jornalismo deixa de ser um termômetro da realidade para se tornar um termostato, ajustando a temperatura do debate conforme a conveniência de quem detém o poder editorial.
O silêncio da Globo sobre Willer Tomaz não é omissão. É escolha. E essa escolha fala mais alto do que qualquer manchete.
Com informações de Imprensa Ética, G1, O Globo, Revista Fórum, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Gazeta do Povo, Valor Econômico, SBT News, Estadão ■