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Vazamentos seletivos: o caso Master e o papel da Globo
Análise crítica das revelações sobre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, da atuação da Polícia Federal à cobertura da TV Globo, em meio a uma crise sem precedentes no STF
Analise
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■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

A divulgação de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, recolocou em evidência uma prática recorrente no jornalismo investigativo brasileiro: os vazamentos seletivos. O episódio, que ganhou contornos de guerra institucional, expõe não apenas supostas irregularidades envolvendo um dos ministros mais poderosos da Corte, mas também um projeto articulado de desgaste no qual a Globo e seus principais veículos desempenham papel central.

O relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça em 1º de setembro de 2026, revelou que Moraes teria recebido mensagens de Vorcaro sobre investigações sigilosas, discutido com o banqueiro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação que o teria como alvo e, mais grave, editado pessoalmente a minuta de um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, Viviane Barci. Para integrantes do STF, o material inaugura uma “crise sem precedentes” na Corte, com potencial para impulsionar pedidos de impeachment e fragilizar a instituição em pleno ano eleitoral.

O cientista político Beto Vasques, do Instituto Democracia em Xeque, classificou o momento como uma “guerra de vazamentos seletivos”, na qual cada “banda” do Supremo atua em favor de seus interesses. Segundo ele, a decisão de Mendonça de retirar o sigilo das mensagens e expô-las a 33 dias do primeiro turno “atropelou os regulamentos do Supremo e da magistratura”, adotando uma lógica em que “os fins justificam os meios”. A manobra, na avaliação de Vasques, tende a mobilizar a base bolsonarista e a prejudicar a imagem do presidente Lula, candidato à reeleição.

O colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo, reconheceu que Moraes “se encharcou de gasolina sozinho”, mas também apontou o dedo para Mendonça: “quem escolheu a hora de riscar o fósforo foi o ministro André Mendonça”, relator do caso Master. A comparação com a atuação do ex-juiz Sérgio Moro na Lava-Jato é inevitável — e proposital. O que está em jogo, no fundo, é o controle do futuro do STF e o uso do Judiciário como arena da disputa eleitoral.

Mas o protagonismo da Globo neste enredo merece um olhar igualmente crítico. A colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, tem sido a principal “esponja dos vazamentos” vindos da Polícia Federal e do próprio gabinete de Mendonça. Em artigo publicado pela Associação Brasileira dos Jornalistas, Moisés Mendes afirmou que “Malu foi escolhida pelos vazadores, porque se habilitou a atacar Alexandre de Moraes e o Supremo”, e que a repetição insistente da denúncia, com base em fontes discutíveis e espalhada por toda a organização, deixa de ser jornalismo para se tornar “conspiração”.

O próprio Daniel Vorcaro, por meio de seus advogados, já pediu ao STF a abertura de investigação sobre os vazamentos, alegando que as conversas estão sendo divulgadas “editadas e tiradas de contexto”. O banqueiro questiona a origem das informações e requer a identificação de todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo de seus celulares apreendidos. A defesa de Moraes, por sua vez, ancorou-se na tese de que o ministro é vítima de vazamento seletivo e que as suspeitas são artificiais.

Não se pode ignorar, ainda, o histórico de relações entre a Globo e o Banco Master. Reportagens apontaram que a instituição foi patrocinadora de um evento da Globo em Nova York, em maio de 2024, que custou R$ 10 milhões. Esse dado, embora não prove conluio, levanta perguntas incômodas sobre a independência editorial do grupo em relação a Vorcaro — o mesmo que agora é alvo e fonte de suas principais reportagens.

O editorial de O Globo, intitulado “STF deve cobrar explicações urgentes de Moraes”, defendeu que o ministro preste esclarecimentos “urgentes e convincentes” sobre sua relação com Vorcaro. O texto afirma que as mensagens revelam indícios de “proximidade incompatível com a isenção e a imparcialidade indispensáveis a qualquer magistrado”. Apesar da gravidade das acusações, a cobertura da Globo tem sido acusada de antecipar um julgamento sem que todas as provas estejam devidamente apuradas, repetindo o modus operandi da época da Lava-Jato.

Do ponto de vista político, a crise já produziu efeitos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, liderou pedidos de afastamento de Moraes. No outro lado, o líder do PT na Câmara classificou o caso como grave, mas cobrou investigação sobre as relações de Flávio com o Banco Master. A polarização, mais uma vez, atravessou as instituições e foi catalisada pelo ritmo eleitoral.

Em meio a esse turbilhão, o que fica é a percepção de que os vazamentos seletivos se tornaram a “droga” do jornalismo corporativo. A prática, que privilegia fontes anônimas e recortes convenientes, compromete a apuração rigorosa e submete a opinião pública a narrativas construídas sob medida para interesses escusos. O caso Moraes-Vorcaro é, antes de tudo, um teste para a integridade do STF, da PF e da própria imprensa. Até agora, todos falharam.

Com informações de Valor Econômico, O Globo, G1, Brasil 247, Jornal do Brasil, Associação Brasileira dos Jornalistas, Revista Fórum, Extra, Diário do Centro do Mundo, UOL Notícias, JB Online, O Povo, CNN Portugal, Operamundi, A Tarde, Band, Jota, Crusoé e ICL ■

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