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A série de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 prometia ser um espaço qualificado para o confronto de ideias e propostas. No entanto, a condução da sabatina com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite desta quinta-feira (27), escancarou um desvio editorial preocupante: a transformação do jornalismo em um braço do sistema de justiça.
Ao longo dos aproximadamente 22 minutos de conversa, a dupla de âncoras concentrou boa parte das perguntas em temas investigativos e de supostos ilícitos, desviando o foco de questões essenciais para o futuro do país, como economia, desenvolvimento social, educação e meio ambiente. A insistência em tópicos relacionados à corrupção, com menções a membros da família do presidente, ex-ministros e senadores, fez com que a entrevista perdesse a oportunidade de se aprofundar no programa de governo do candidato à reeleição.
A postura adotada pelos jornalistas é mais própria de procuradores do Ministério Público, juízes ou delegados do que de comunicadores públicos. O tom de confronto, as interrupções constantes e a repetição de perguntas sobre os mesmos temas transformaram o estúdio em uma arena de acusações, na qual o entrevistado foi pressionado a atuar como instrutor de funções inerentes de cargos públicos da Justiça, em vez de apresentar suas propostas para os próximos quatro anos.
Em um dos momentos de maior tensão, o presidente perdeu a paciência e criticou a postura da imprensa, lembrando de um power point exibido pela emissora que o ligava a casos de corrupção sem provas concretas. O apresentador César Tralli, então, foi forçado a admitir que a Globo já havia se retratado publicamente sobre aquele material, encerrando o assunto de forma abrupta. Este episódio é emblemático: a emissora insiste em perguntas sobre temas sobre os quais já reconheceu publicamente ter cometido erros editoriais e, quando finalmente confrontada, força a mudança de assunto.
Ao optar por este viés baseado em ilações desencontradas, a Globo presta um desserviço ao eleitor. O papel da imprensa em um período eleitoral é esclarecer, informar e confrontar, mas com equilíbrio e responsabilidade. A sabatina deveria ser um momento para o cidadão conhecer as diretrizes do candidato, não para assistir a um interrogatório sobre fatos já amplamente discutidos na esfera judicial.
Esta escolha editorial não apenas reduz a qualidade do debate democrático, como também reforça uma narrativa de suspeição generalizada que desvia a atenção dos reais problemas nacionais. O jornalismo de qualidade deve perguntar tudo, mas sem perder de vista sua função primordial: servir à informação e à cidadania, e não substituir as instituições jurídicas.
A seguir, os principais pontos que caracterizaram a abordagem questionável da entrevista:
O papel da imprensa é fiscalizar, mas também é dar voz e espaço para que os candidatos apresentem suas visões de país. Ao transformar uma sabatina eleitoral em um tribunal midiático, Renata Vasconcellos e César Tralli, e a direção da TV Globo, falharam em seu compromisso com a democracia e com o direito do cidadão à informação qualificada.
Com informações de G1, Natelinha, Terra, O Globo ■