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Vorcaro repassou US$ 1,6 milhão ao Dark Horse em setembro de 2025
Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras desmente declaração do senador e candidato à Presidência, que afirmara que os pagamentos do banqueiro ao filme sobre Jair Bolsonaro haviam terminado em maio daquele ano
Politica
Foto: https://images.redetv.uol.com.br/public/jornalismo/redetvinoticias/20260901172406yUx5IJUPQy.jpg
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■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou um repasse adicional de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,5 milhões) feito pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao fundo americano que administrava os recursos do filme “Dark Horse” — a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O pagamento ocorreu em 16 de setembro de 2025 e não havia sido citado publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.

A informação, revelada pela revista piauí e confirmada pela TV Globo e pela CNN com fontes das investigações, contradiz frontalmente a versão apresentada por Flávio Bolsonaro em maio de 2026, quando o portal Intercept Brasil expôs o financiamento da produção pelo dono do Banco Master. Na ocasião, em entrevista à GloboNews, o senador afirmou que a última parcela paga por Vorcaro havia sido em maio de 2025. “Olha só. O último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025”, declarou Flávio.

O relatório do Coaf, porém, registra uma operação posterior — quatro meses depois da data indicada pelo senador. O documento mostra que a transferência de US$ 1,66 milhão foi destinada ao Havengate Development Fund, um fundo sediado no Texas (EUA) e administrado por Paulo Calixto, advogado amigo de Eduardo Bolsonaro, que também reside no estado americano.

Com esse novo aporte, o total reconhecido de valores repassados por Vorcaro ao fundo chegou a US$ 12,3 milhões (equivalentes a mais de R$ 65 milhões na cotação da época), ante os US$ 10,6 milhões identificados anteriormente.

O pagamento de setembro ocorreu oito dias após Flávio Bolsonaro cobrar Daniel Vorcaro por mais repasses para o filme. Em uma mensagem de áudio enviada ao banqueiro, o senador diz: “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”.

Além do relatório do Coaf que atesta o pagamento extra, a reportagem da piauí teve acesso a mensagens que indicam a possibilidade de mais uma parcela ter sido paga em outubro de 2025. Nos diálogos, o publicitário Thiago Miranda, que ajudou a captar dinheiro para a produção, pergunta a Vorcaro: “Consegue liberar as parcelas do filme?”. O banqueiro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”. A troca de mensagens não especifica o valor do repasse. Miranda, então, diz: “Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar”.

Procurado por jornalistas no Senado nesta terça-feira (1º de setembro) sobre a revelação, Flávio Bolsonaro se recusou a dar esclarecimentos. O presidenciável do PL disse que quem deve responder sobre o fato é a produtora do filme, a GoUP. “Essas informações eu não tenho como saber porque eu não trato disso, gente. Tem que perguntar para a produtora. Desculpa. Eu sabia que ele (Vorcaro) é investidor, mas não tinha como falar (sobre o valor efetivamente pago pelo ex-banqueiro). Nesse assunto eu não tenho como aprofundar. Pergunte para a produtora que parcela essa”, afirmou. O senador disse não ver “fato novo nenhum” na revelação.

O senador, o banqueiro e a produtora do filme foram procurados pela reportagem da piauí, mas não responderam. Em nota, o Coaf informou que “não se manifesta sobre casos concretos” e que os relatórios são elaborados em “caráter sigiloso”, sendo encaminhados às autoridades competentes quando solicitados e quando o órgão “identifica movimentações relevantes no âmbito da prevenção à lavagem de dinheiro”.

As revelações geraram reações políticas imediatas. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou uma petição ao Supremo Tribunal Federal pedindo que a Procuradoria-Geral da República examine o afastamento de Flávio Bolsonaro do exercício do mandato de senador. Na justificativa, o parlamentar cita os dados do Coaf que indicam que Vorcaro continuou a financiar o filme após a data em que Flávio afirmou que os pagamentos haviam terminado. “O novo registro contradiz a versão pública do senador de que os pagamentos teriam terminado em maio. Com essa parcela, os repasses identificados chegam a cerca de 65 milhões de reais, mas mensagens de outubro de 2025 indicam a liberação de ao menos mais um aporte, o que pode elevar o total para aproximadamente 72 milhões de reais”, diz a petição.

O documento aponta possíveis crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, participação em organização criminosa e embaraço à investigação. Além disso, pede acesso integral ao relatório do Coaf, cooperação jurídica com os Estados Unidos e compartilhamento de provas da Operação Compliance Zero.

As investigações do caso “Dark Horse” apuram se houve irregularidades no financiamento do filme e se todo o dinheiro repassado por Vorcaro foi direcionado para a produção. Há dois inquéritos no STF sobre o caso: um relatado pelo ministro André Mendonça, que apura possíveis irregularidades no financiamento; outro com relatoria do ministro Flávio Dino, que analisa o suposto uso de recursos de emendas parlamentares para bancar a produção.

Conforme divulgado até o momento, Vorcaro havia prometido a Flávio Bolsonaro o total de US$ 24 milhões para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O montante total efetivamente repassado, no entanto, pode ser ainda maior do que o atualmente conhecido, diante dos indícios de novos pagamentos não contabilizados.

Com informações de: InfoMoney, Correio do Povo, CartaCapital, Exame, Revista Fórum, G1, O Globo, CNN Brasil, UOL ■

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