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"Vaza-Malu": o padrão seletivo que blindou Mendonça e incendiou Moraes
Enquanto JN dedicou 12 vezes mais tempo a ataques contra Moraes, colunista do Globo foi a principal receptora de vazamentos contra o ministro; André Mendonça, alvo de denúncias tão graves, apareceu como mero fiador de transparência
Analise
Foto: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/24895764-0c1-18e/FT1086A/malu-gaspar.jpg
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■   Bernardo Cahue, 02/09/2026

A cobertura do Jornal Nacional e da colunista Malu Gaspar sobre o Caso Master expôs, com clareza cirúrgica, o que críticos do jornalismo corporativo chamam de "Vaza-Malu": um padrão de vazamentos seletivos em que a principal repórter do Grupo Globo se tornou a “esponja” oficial de informações contra Alexandre de Moraes, enquanto André Mendonça — igualmente implicado em reuniões secretas com o banqueiro Daniel Vorcaro — foi tratado com luvas de pelica, ora como relator zeloso, ora como vítima da mesma crise.

O levantamento do portal NaTelinha é devastador: na edição de 1º de setembro de 2026, o JN dedicou 12 vezes mais tempo à cobertura contra Alexandre de Moraes do que à cobertura contra o candidato Flávio Bolsonaro (PL), também citado em pagamentos de R$ 73 milhões do Banco Master. Foram seis reportagens com denúncias contra Moraes, totalizando cerca de 30 minutos — incluindo uma de 9 minutos e meio sobre o contrato de R$ 130 milhões do escritório de sua esposa e outra de 13 minutos com prints das mensagens. Contra Flávio Bolsonaro, uma única matéria de 2 minutos e meio15 vezes menos. A disparidade é tão escandalosa que dispensa comentários: o JN escolheu seu alvo, e o alvo não era o banqueiro, nem o sistema, nem a crise institucional — era Alexandre de Moraes.

O papel de Malu Gaspar nessa engrenagem é ainda mais revelador. A colunista de O Globo, segundo a Associação Brasileira dos Jornalistas, “foi escolhida pelos vazadores, porque se habilitou a atacar Alexandre de Moraes e o Supremo”. Ela é descrita como “a guerreira a serviço dos ataques ao ministro” e “a esponja de quase todos os vazamentos” que saem da Polícia Federal e do STF. Em suas participações na GloboNews, Malu Gaspar classificou a tensão entre Mendonça e Moraes como “petardo atômico, guerra nuclear” e afirmou, sem hesitação: “Quem parece ter defendido os interesses de Vorcaro é o ministro Moraes”. A frase, proferida como um veredito, antecipou qualquer investigação e consolidou uma narrativa de culpa antes mesmo de Moraes ser ouvido.

O que o JN e Malu Gaspar não disseram com a mesma ênfase, no entanto, é igualmente grave. No mesmo dia 1º de setembro, a newsletter Noites Húngaras revelou que André Mendonça — o relator do caso Master — teve um encontro secreto de duas horas com Daniel Vorcaro em 14 de março de 2025, no Instituto ITER, fundado pelo próprio Mendonça. O encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares, que enviou a Vorcaro um áudio dizendo: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você!”. O advogado ainda afirmou que Mendonça já sabia dos problemas do banco no Banco Central antes da reunião. Uma reunião entre um ministro relator e o alvo da investigação que ele próprio comanda — em um instituto privado, sem registro oficial, com conhecimento prévio dos problemas do banco — é, no mínimo, tão explosiva quanto as mensagens de Moraes. Mas a cobertura da Globo sobre esse episódio foi marginal, tímida e desprovida do tom de caça às bruxas reservado a Moraes.

A diferença de tratamento não é acidental. Enquanto Moraes era retratado como cúmplice de um banqueiro, Mendonça aparecia como o relator corajoso que “derrubou o sigilo” e “expôs a verdade”. O editorial de O Globo, no mesmo dia, defendeu que o STF cobrasse “explicações urgentes de Moraes”, mas mencionou as medidas de Mendonça — que pediu manifestação da PGR, levantou o sigilo e solicitou sessão pública — como atos de transparência, não como possíveis movimentos políticos em ano eleitoral. A narrativa foi construída para que Mendonça fosse o herói da imparcialidade, e Moraes, o vilão das relações espúrias.

Há, ainda, um detalhe técnico que expõe a fragilidade das acusações veiculadas com estardalhaço. A notícia de que Moraes “editou” o contrato de R$ 130 milhões foi desmentida por especialistas: o simples ato de abrir um documento no sistema Office para leitura já registra “edição” nos metadados. O escritório de Viviane Barci esclareceu que Moraes foi consultado apenas para verificar se havia impedimento legal para a assinatura, uma vez que o banco poderia ter ações no STF; o ministro respondeu que não julgaria esses processos. Não há ilegalidade nisso — mas a manchete de “Moraes editou contrato” já cumpriu seu papel antes que qualquer esclarecimento pudesse ser feito.

O mesmo vale para as mensagens temporárias. Malu Gaspar revelou que Moraes alterou a configuração do WhatsApp para 24 horas dois meses antes da prisão de Vorcaro. A insinuação é clara: o ministro queria esconder algo. Mas a reportagem não menciona que a configuração de mensagens temporárias é um recurso padrão do aplicativo, usado por milhões de usuários, e que não há prova de que Moraes tenha apagado mensagens relevantes para a investigação. A construção da suspeita — baseada em um recurso técnico banal — é um exemplo clássico de jornalismo de insinuação, em que o fato é menos importante do que a narrativa que ele pode gerar.

O que está em jogo, no fundo, é a repetição do modus operandi da Lava-Jato: vazamentos seletivos, julgamento em praça pública, destruição de reputações antes de qualquer condenação. Como escreveu Moisés Mendes, na Associação Brasileira dos Jornalistas, “os viciados em informações vazadas de forma seletiva desafiam André Mendonça e as instituições que deveriam contê-los”. Mas Mendonça, em vez de conter os vazamentos, alimentou o esquema ao tornar públicos os relatórios da PF em plena campanha eleitoral — e a Globo, em vez de investigar os dois lados da crise, escolheu um para destruir.

O silêncio sobre os encontros de Mendonça com Vorcaro, a ênfase desproporcional nas mensagens de Moraes e a transformação de Malu Gaspar em “porta-voz dos vazadores” revelam uma pauta que não é jornalística, mas política. A pergunta que fica é: quem se beneficia com a destruição de Alexandre de Moraes? A resposta, neste momento, aponta para o campo bolsonarista — e para um STF que, cada vez mais, se parece com uma arena de gladiadores onde a verdade é a primeira vítima.

Com informações de NaTelinha, Crente News, Associação Brasileira dos Jornalistas, Jornal do Brasil, O Globo, Diário do Centro do Mundo, Revista Fórum, ICL Notícias, UOL Notícias, Band, Jota, Crusoé e BBC News Brasil ■

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