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A série de sabatinas do Jornal Nacional com os candidatos à Presidência em 2026 expôs uma disparidade editorial que compromete a credibilidade do jornalismo da emissora. Em dois dias consecutivos – quinta (27) com Lula (PT) e sexta (28) com Flávio Bolsonaro (PL) –, Renata Vasconcellos e César Tralli aplicaram critérios tão distintos que seria difícil acreditar que se tratava do mesmo programa.
Com Lula, a dupla dedicou 22 minutos a perguntas típicas de interrogatório judicial: supostos ilícitos envolvendo familiares, ex-ministros e aliados. O presidente foi pressionado sobre mensagens de lobista, o caso Master, o INSS e a relação com Carlos Lupi – temas que, embora relevantes, ocuparam quase todo o tempo disponível. Sobraram apenas 2 minutos para Lula apresentar uma pequena parte de seu programa de governo e os resultados de sua gestão, segundo análise da cobertura. E, ao final, Tralli o interrompeu imediatamente quando o tempo das considerações finais se esgotou.
Já na entrevista com Flávio Bolsonaro, o tom foi outro. O senador teve 40 minutos de conversa – praticamente o dobro – e pôde discorrer por 10 minutos sobre seu programa de governo, enquanto Lula tivera apenas 2. Mais grave: Flávio não foi cortado por Tralli ao ultrapassar o tempo das considerações finais, diferentemente do que ocorrera com o presidente petista. A disparidade no tratamento é um fato consumado.
O problema, porém, não é apenas de tempo. É de conteúdo e de postura. Durante os 40 minutos, Flávio Bolsonaro repetiu ao menos quatro afirmações que a própria checagem de fatos da Globo já desmentira em ocasiões anteriores:
Mais ainda: Flávio disse que “a vida do brasileiro piorou após Lula”, comparando o atual momento ao caos da “fila do osso” durante o Governo Bolsonaro – uma afirmação que ignora os indicadores de recuperação econômica e social do período, e que foi aceita sem contraponto pelos âncoras.
A diferença de tratamento é flagrante. Enquanto Lula foi submetido a um interrogatório cerrado sobre ilações – muitas delas alimentadas pela própria Globo em coberturas anteriores, como a emissora já reconheceu publicamente –, Flávio Bolsonaro teve espaço para repetir falsificações históricas sem ser interrompido ou devidamente contestado. Os apresentadores, que com Lula atuaram como procuradores, com Flávio se comportaram como meros espectadores.
Esta escolha editorial não é um acaso. É um padrão que revela o peso desproporcional da suspeição quando o entrevistado é do campo progressista e a condescendência acrítica quando o candidato é da direita bolsonarista. O jornalismo perde sua função de mediação democrática e se transforma em tribunal seletivo, onde o réu e o absolvido são definidos antecipadamente pela pauta da redação.
Ao final, o saldo é preocupante: o eleitor saiu menos informado sobre o que Lula propõe para o futuro e mais intoxicado por informações falsas repetidas por Flávio sem o devido contraditório. A TV Globo, que se orgulha de seu compromisso com a verdade, precisa responder por que tratou dois candidatos com pesos e medidas tão distintos.
Com informações de G1, O Globo, Poder360, BBC Brasil, Folha de S.Paulo ■