Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
Há uma linha tênue entre o jornalismo e a militância. Nas últimas semanas, a Rede Globo parece ter atravessado essa fronteira com passos firmes e coreografados. Depois que a pesquisa BTG/Nexus — encomendada e paga pelo banco BTG Pactual, com DNA da Faria Lima estampado em sua estrutura societária — jogou Augusto Cury (Avante) dos 2% para os 11% das intenções de voto em apenas uma semana, a emissora carioca não apenas repercutiu o feito como passou a atuar em perfeita sintonia com o roteiro desenhado pelo mercado financeiro. O “recado” da Nexus e da Faria Lima foi ouvido com clareza: a terceira via agora tem nome, sobrenome e um almoço marcado com André Esteves, do BTG.
O movimento mais evidente dessa guinada editorial é o que se poderia chamar de ativação do modo “Vaza-Tudo” — uma operação de vazamentos seletivos que, até então, vinha sendo usada para desgastar o governo Lula por meio de informações sobre Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha). Agora, o alvo mudou. A Globo passou a liberar, ainda que de forma tímida e dosada, informações e documentos envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) no escândalo do filme “Dark Horse” e sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A mudança de rota não é casual: ocorre exatamente quando a pesquisa BTG/Nexus mostra Flávio em queda — de 37% para 33% — e Cury em disparada. A coreografia é perfeita: desgasta-se o bolsonarista para abrir espaço ao novo favorito da Faria Lima.
O episódio que expôs a estratégia de forma mais crua foi a discussão ao vivo na GloboNews, no dia 26 de agosto, entre os comentaristas Valdo Cruz e Merval Pereira. Valdo afirmou, sem rodeios, que “jornalistas já têm documentos e informações relacionados a Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o escândalo do filme picareta ‘Dark Horse’, mas estão esperando o momento para divulgar”. A declaração é um atestado de que a pauta jornalística não obedece mais ao critério da notícia em si, mas sim ao “momento mais adequado” — ou seja, à conveniência política e eleitoral. Merval, em um raro momento de lucidez, rebateu o colega: “O jornalista que tem documento, que tem informação e que guarda para um momento oportuno não é um jornalista profissional”. A tréplica, no entanto, parece ter caído no vazio. A Globo, como instituição, segue o roteiro inverso: guarda, dosa e solta conforme o ponteiro da Faria Lima aponta.
O timing da mudança é revelador. Na terça-feira (1º de setembro), o ministro André Mendonça, do STF, removeu o sigilo de um relatório da Polícia Federal que expõe mensagens entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. A Globo cobriu o caso com manchetes estampadas, alimentando a narrativa de que Moraes teria atuado como “advogado de Vorcaro” — exatamente a tese defendida por Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a emissora deu espaço mínimo às conexões de Flávio com o mesmo Vorcaro, que pediu R$ 134 milhões para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O tratamento desigual é a marca registrada do “Vaza-Tudo” seletivo: contra Moraes, tudo é notícia; contra Flávio, quase nada.
O cientista político Beto Vasques, da Fundação Escola de Sociologia e Política, resumiu o fenômeno: “Estamos diante de uma guerra de vazamentos seletivos, onde tem uma ‘banda’ do Supremo de cada lado”. A frase poderia ser estendida à imprensa. A Globo, nessa guerra, escolheu seu lado — e não é o lado da isenção. Ao vestir a camisa da vingança contra Alexandre de Moraes — um desafeto declarado do bolsonarismo e do mercado —, a emissora alinha seu noticiário não apenas aos interesses do PL, mas sobretudo aos interesses da Faria Lima, que vê em Augusto Cury um projeto mais palatável do que o radicalismo de Flávio Bolsonaro ou o fisiologismo de Ronaldo Caiado.
Os sinais desse alinhamento são múltiplos:
A Faria Lima, por sua vez, já sinalizou seu entusiasmo com o novo queridinho. Além do almoço com André Esteves, o Banco Genial convidou Cury para uma conversa com investidores na próxima semana. “Já já vêm os convites para jantares”, antecipou o colunista Lauro Jardim. O mercado não esconde sua preferência: quer um nome que dialogue com o liberalismo econômico, que não assuste os investidores e que, ao mesmo tempo, tenha apelo popular suficiente para furar a bolha da polarização Lula-Flávio. Cury, com seu discurso de autoajuda e sua imagem de “desbravador da selva política”, é o produto ideal.
O problema, do ponto de vista jornalístico, é que a Globo deixou de ser mera espectadora desse jogo para se tornar uma das jogadoras. Ao ativar o modo “Vaza-Tudo” contra Moraes e ao dosar os vazamentos contra Flávio Bolsonaro, a emissora não apenas validou a coreografia da Faria Lima — ela passou a ensaiá-la junto com o BTG e a Nexus. O jornalismo, nesse cenário, vira acessório da estratégia de mercado. A notícia deixa de ser um fim para ser um instrumento.
O que está em jogo não é apenas a credibilidade da Globo, mas a própria integridade do processo eleitoral. Quando uma pesquisa feita por um instituto vinculado a um banco — e que inclui candidatos inelegíveis como se fossem opções válidas — dita a pauta de um dos maiores veículos de comunicação do país, o risco de manipulação da opinião pública é imenso. E quando esse mesmo veículo admite, por meio de seus próprios comentaristas, que há documentos guardados para serem soltos no “momento mais adequado”, a linha entre o jornalismo e a militância se dissolve por completo.
O “recado” da Nexus e da Faria Lima foi ouvido. A Globo entendeu e vestiu a camisa. Resta saber se o eleitor, ao final dessa dança das cadeiras, perceberá que o espetáculo foi ensaiado nos escritórios da Faria Lima — e não nas ruas, onde o voto de verdade se decide.
Com informações de O Globo, GloboNews, G1, CBN, Valor Econômico, Diário do Centro do Mundo, CartaCapital, Revista Fórum, Imprensa Ética, Veja, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo ■