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O que restou do debate presidencial na televisão brasileira? A resposta, depois da noite do último domingo (23), é desoladora. O primeiro encontro entre os candidatos ao Planalto, promovido pela Band, não foi um exercício de democracia, nem um confronto de ideias, nem um momento de esclarecimento do eleitor. Foi, isso sim, um espetáculo vazio, um “debate-mico” — como definiu a Folha de S.Paulo — no qual três candidatos de baixa intenção de voto se digladiaram em meio a púlpitos vazios, enquanto os dois líderes das pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), preferiram se ausentar. O resultado prático: o interesse do público, que já não era grande, despencou. Enquanto a entrevista de Lula na Record marcava 4,28 pontos de audiência na Grande São Paulo, o debate da Band amargava apenas 2,06 pontos — menos da metade.
Mas esse fiasco numérico é apenas a ponta do iceberg de uma crise muito mais profunda. A pergunta que ecoa nos bastidores da comunicação política não é mais sobre quem ganhou ou perdeu o debate, mas sobre se os debates ainda fazem sentido. A resposta, para uma parcela crescente da crítica especializada, é negativa. O que se vê nos estúdios das emissoras não é mais um fórum de propostas, mas uma extensão degradada de programas como “Programa do Ratinho” (SBT), “Casos de Família” (SBT) e “Programa do Leão” — atrações conhecidas pelo sensacionalismo, pelo apelo ao conflito pessoal e pela plateia que vibra com cada insulto.
Não por acaso, o próprio candidato Ronaldo Caiado (PSD) já havia comparado, em julho, a dinâmica da política nacional a um “episódio do Casos de Família”. A profecia se cumpriu no palco da Band. O que se viu foi um festival de ataques pessoais, xingamentos e frases de efeito, com raríssimas incursões pelo terreno das políticas públicas. Renan Santos (Missão) chamou Lula e Flávio Bolsonaro de “canalhas e criminosos”, classificou o governo de “porcaria” e, num momento de transfobia explícita, atacou a deputada Erika Hilton e a primeira-dama Janja. O mesmo candidato prometeu um “banho de sangue” na segurança pública e disse que rejeitava votos de eleitores que considerava “canalhas”. Augusto Cury (Avante), por sua vez, transformou o debate num palco para frases de autoajuda e merchandising de seus livros, dizendo que professores são “cozinheiros do conhecimento” e que “a vida é bela e breve como gota de orvalho”. Caiado, o único com algum lastro político, limitou-se a repetir sua receita goiana — “Goiás, Goiás e mais Goiás” — sem avançar uma vírgula sobre o que faria para o país.
O resultado é um formato que serve mais à indústria do entretenimento do que à democracia. Os debates, que deveriam ser o momento de o eleitor confrontar promessas e comparar projetos, tornaram-se máquinas de produzir “cortes” virais para as redes sociais — trechos avulsos, muitas vezes tirados de contexto, que geram mais visualizações no TikTok e no YouTube do que o programa inteiro na TV. Como observou a coluna Painel do Leitor da Folha, os debates atualmente têm servido “para produzir cortes para as redes sociais e não para permitir que os cidadãos conheçam melhor o candidato”. É a lógica do “Programa do Ratinho” levada ao extremo: o que importa não é o conteúdo, mas a cena polêmica, o barraco, a fala que vai viralizar.
Essa transformação não é casual. Ela atende a interesses muito concretos das próprias emissoras. Num ambiente de fragmentação de audiência e concorrência feroz com as plataformas digitais, a TV aberta vê nos debates uma oportunidade — cada vez mais desesperada — de reter telespectadores. O problema é que, para isso, o formato é progressivamente esvaziado de substância e preenchido com conflito. O diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre, lamentou o esvaziamento, mas a própria emissora, ao manter os púlpitos vazios e explorar o drama das ausências, alimentou a narrativa do confronto em vez do debate de ideias. A audiência, no fim das contas, é o que move a engrenagem — e, ironicamente, nem isso os debates de 2026 conseguiram entregar.
O histórico recente é elucidativo. Em 2022, o primeiro debate da Band ainda alcançava médias de 13,7 pontos. Em 2026, com os principais candidatos ausentes, o índice despencou para 2 pontos. A curva é descendente e acentuada. E não é apenas uma questão de ausência de nomes; é a percepção generalizada de que o debate se tornou um espaço de baixa qualidade, onde o que prevalece é a troca de acusações acaloradas, o “quebra-pau” verbal e a encenação — tudo muito distante do que seria uma discussão séria sobre o futuro do país.
O cientista político Fernando Schüler, em análise para a Band, resumiu o diagnóstico: “É uma democracia onde todo mundo fala, mas pouca gente escuta. Todo mundo tem milhões de pessoas que têm rede social, que são influenciadores, tribos, mas ninguém quer ouvir um argumento. Então, a lógica do debate perde espaço na democracia”. Perde espaço, mas ganha espaço na grade de programação como um produto de auditório — um híbrido mal resolvido entre jornalismo e entretenimento, que agrada a poucos e esclarece a menos ainda.
Diante desse cenário, a pergunta que fica é: a quem interessa, realmente, a realização dos debates? A resposta, cada vez mais evidente, é: às emissoras. Aos candidatos, interessa evitar o risco controlado do confronto; ao eleitor, interessa cada vez menos assistir a um espetáculo que não lhe oferece informação útil. O debate, na forma como é conduzido hoje, tornou-se um produto que só serve à lógica de audiência da TV — e, mesmo assim, com resultados pífios. É o retrato de uma democracia que se desgasta na mesma medida em que sua comunicação política se banaliza.
Com informações de Brasil 247, Revista Fórum, Band.com.br, Notícias da TV UOL, BBC News Brasil, Diário do Centro do Mundo, O Povo, R7.com, Poder360, Terra, Folha de S.Paulo, Jovem Pan, UOL e G1 ■