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O Brasil assistiu, nos últimos dias, a dois episódios brutais que escancaram a vulnerabilidade extrema da população neurodivergente. Em Santos, no litoral paulista, Douglas Pagliuca, de 40 anos, morreu asfixiado após ser imobilizado por três homens durante um surto psicótico. No Rio de Janeiro, Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte em Copacabana após ser confundido com um ladrão. As duas tragédias, ocorridas com menos de uma semana de intervalo, não são casos isolados: são sintomas de uma estrutura social que falha sistematicamente em proteger os mais vulneráveis.
A morte em Santos: o surto como sentença
O caso de Douglas Pagliuca, registrado no dia 30 de julho, ganhou novos contornos com a divulgação de um vídeo que mostra o momento em que ele é imobilizado e amarrado. Segundo a polícia, Douglas entrou em surto psicótico após descobrir a morte do pai. As imagens o mostram em estado de inquietação, arrastando um vaso de plantas e tentando entrar em um prédio com grades. Em seguida, três homens se aproximam, aplicam um golpe conhecido como mata-leão e amarram suas pernas. Uma quinta pessoa assiste à cena. O laudo necroscópico apontou a asfixia como causa da morte. Há divergências nos relatos das testemunhas: em um, ele teria batido a cabeça em um carro; em outro, na parede.
Copacabana: o linchamento como espetáculo
Em Copacabana, o cenário não poderia ser mais chocante. Cláudio Rafael Landeiro foi abordado após pedir um cigarro em uma loja. Ele andava com uma bicicleta que pertencia a sua irmã, mas foi acusado injustamente de roubo. Por nove minutos, ele foi espancado por dois seguranças e dois entregadores de aplicativo. Em seis minutos, o quarteto desferiu 57 pauladas, chutes, pisões e socos contra um homem neurodivergente. Cláudio permaneceu em agonia na calçada por meia hora até ser resgatado. Morreu horas depois no hospital. Um dos seguranças, Davi Santos Machado, chegou a filmar o local do crime horas depois, afirmando que as câmeras não registraram a sessão de espancamento. Em depoimento, ele chamou as pauladas de "ato insano".
Paralelos e contrastes: o mesmo destino, diferentes circunstâncias
Os dois casos guardam semelhanças estarrecedoras. Em ambos, as vítimas eram neurodivergentes em situação de vulnerabilidade. Em ambos, a violência foi desproporcional ao suposto "motivo": um surto psicótico e uma bicicleta que não era roubada. Em ambos, houve testemunhas que nada fizeram para impedir as agressões. E em ambos, o Estado chegou tarde — ou nunca chegou.
Há, porém, diferenças fundamentais. Em Santos, a violência veio de civis que agiram sob o pretexto de "conter" um homem em surto. Não há indícios de motivação criminosa, mas sim de despreparo, negligência e uma abordagem que trata o sofrimento psíquico como ameaça a ser neutralizada. Em Copacabana, a violência foi premeditada, cruel e executada por pessoas que exerciam funções de "segurança" — dois deles seguranças privados. O crime foi classificado pelo delegado como homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, cometido com crueldade e sem chance de defesa.
A falência do cuidado e da justiça
Os dois casos revelam uma mesma raiz: a ausência de políticas públicas eficazes para a população neurodivergente. Em Santos, um jovem de 23 anos com autismo nível 3 ficou desassistido após a morte do pai, seu único cuidador. A rede socioassistencial municipal foi acusada de "jogo de empurra" entre secretarias. O mesmo município que agora investiga a morte de Douglas Pagliuca já havia falhado em proteger outro jovem autista. Em Copacabana, Cláudio Rafael foi morto porque sua condição cognitiva o impedia de se comunicar e se defender. Sua morte não é apenas um crime, mas o sintoma de uma sociedade que trata corpos neurodivergentes como descartáveis.
A comoção pública em torno dos casos tem sido grande, mas a pergunta que fica é: quantas outras mortes serão necessárias para que o Estado brasileiro assuma sua responsabilidade? Enquanto não houver capacitação de profissionais de segurança, ampliação da rede de saúde mental e fiscalização efetiva das instituições, novas tragédias como as de Santos e Copacabana continuarão a se repetir.
A barbárie não é exceção. É a regra.
O que aconteceu em Santos e Copacabana não são "acidentes" ou "excessos isolados". São atos de violência estrutural contra uma população que o Estado insiste em ignorar. A morte de Douglas Pagliuca é o resultado de uma sociedade que não sabe acolher o sofrimento psíquico. A morte de Cláudio Rafael Landeiro é o resultado de uma sociedade que julga, condena e executa com base em aparências. Ambas são faces da mesma barbárie. E ambas exigem justiça, memória e mudança.
Com informações de Notícias ao Minuto, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, Geledés, G1, Folha PE, Metrópoles, Banda B ■