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O debate sobre a liberdade de imprensa no Brasil quase sempre se concentra em ameaças externas: censura estatal, pressões políticas, decisões judiciais. Há, porém, uma forma de cerceamento que opera de maneira mais silenciosa e, por isso mesmo, mais perigosa: a censura interna, imposta pelos próprios donos dos meios de comunicação. Como bem sintetizou o Observatório da Imprensa, "a censura existe, sim, mas é uma censura motivada por interesses econômicos". São os donos do dinheiro que determinam as pautas, o conteúdo das matérias e, portanto, o que chega ao conhecimento do público.
O caso Willer Tomaz é o mais recente e contundente exemplo dessa dinâmica. O advogado, apontado pela Polícia Federal como "hub financeiro, patrimonial e logístico" de um esquema que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS, foi preso preventivamente em 11 de agosto de 2026 por decisão do ministro André Mendonça, do STF. A PF apreendeu uma máquina de contar dinheiro em seu escritório, R$ 345 mil em espécie, quatro aviões, e bloqueou R$ 20,9 milhões de uma empresa ligada a ele. O advogado é amigo pessoal do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e sua relação com o clã Bolsonaro é pública e documentada.
Apesar da gravidade dos fatos, a TV Globo — que detém cerca de 40% da audiência nacional e opera sobre uma concessão pública — simplesmente enterrou a pauta após a prisão preventiva. Em seu lugar, a emissora dedicou mais de dez minutos em bloco único e quase nove horas de programação a um empréstimo pessoal de R$ 249 mil feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-chefe de gabinete da Presidência. Um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas atribuídas a Willer Tomaz, estimadas em R$ 45,5 milhões.
Essa seletividade não é fruto do acaso. Ela é a expressão de um modelo estrutural: a concentração da mídia. Segundo o Media Ownership Monitor (MOM), projeto da Repórteres sem Fronteiras em parceria com o Intervozes, o sistema de mídia brasileiro apresenta "alta concentração de audiência e de propriedade, alta concentração geográfica, falta de transparência, além de interferências econômicas, políticas e religiosas". Dos 50 veículos analisados em quatro segmentos (TV, rádio, mídia impressa e online), todos pertencem a apenas 26 grupos de comunicação.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 220, § 5º, é clara: "Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio". No entanto, mais de 38 anos depois, o Congresso Nacional ainda não regulamentou esse dispositivo. A ausência de uma lei que defina o que é monopólio e que estabeleça limites à concentração permite que um único grupo controle a maior fatia da audiência e, com isso, determine o que o país vê — e o que não vê.
O silêncio sobre Willer Tomaz não é um episódio isolado. Ele se inscreve em uma tradição de censura interna que remonta à própria história da TV Globo. Durante a ditadura militar, o próprio Roberto Marinho, fundador da emissora, censurou pessoalmente matérias jornalísticas que apontavam problemas no governo federal. Como registrou o Observatório da Imprensa, "as empresas de comunicação devem deixar de omitir o desserviço que prestaram à sociedade brasileira não apenas no golpe, mas sobretudo na censura interna que resultava na passividade e oficialidade do jornalismo imposto nas redações".
Essa lógica de "censura interna" persiste até hoje, ainda que sob novas roupagens. Como observou o Observatório da Imprensa em agosto de 2026, "a imposição agora é mais implícita, sob um controle direto da mão invisível do mercado ou em favor de políticos que representam elites e que se utilizam da máquina pública financiando veículos de comunicação e determinando a linha editorial". O que manda nas redações é a audiência — aquela que, como diz Noam Chomsky, deve ser o produto a ser vendido aos patrocinadores e anunciantes.
A autocensura, nesse contexto, deixou de ser exceção e passou a integrar, de forma difusa, as rotinas do jornalismo. Como apontou o Observatório da Imprensa em julho de 2026, "o que não é investigado muitas vezes sequer chega a se constituir como pauta". "O repórter antecipa o perigo, ajusta perguntas e recua antes do confronto. Trata-se do chamado chilling effect, conceito que descreve situações em que o receio de custos, processos ou violência produz autocontenção mesmo na ausência de proibição formal".
O resultado é uma "contração gradual do campo investigativo". "A aparência de normalidade se preserva nas manchetes diárias, enquanto o espectro do que poderia ser investigado se reduz silenciosamente. Quando o recuo se torna rotina, o silêncio deixa de ser ausência e passa a operar como método".
O caso Willer Tomaz expõe, em sua crueza, quem são os verdadeiros censores da imprensa brasileira:
O Intervozes, em artigo publicado na CartaCapital, já alertava: "No Brasil, a concentração é tão absurda e oferece tanto poder à dita 'grande mídia', que boa parte da população é levada a acreditar que regulação é sinônimo de censura. Mas, na verdade, é a regulação que garante mais diversidade e pluralidade de ideias nos canais, fortalece a democracia, a diversidade de vozes e ajuda a combater a censura".
As emissoras de TV e rádio, vale lembrar, "não são donas dos canais hospedados nesse espectro". Elas têm uma concessão pública para utilizar o serviço por um tempo determinado e segundo condições estabelecidas. "As empresas de TV e rádio, assim como as concessionárias de transporte público na sua cidade, prestam um serviço à população, com regras, normas e obrigações. Ou pelo menos deveriam. Na prática, infelizmente, elas usam um bem público para defender interesses privados".
Quando uma concessionária de serviço público enterra um escândalo bilionário que envolve o melhor amigo de um pré-candidato à Presidência, e amplifica, por dias seguidos, suspeitas periféricas contra o filho do presidente, ela não está exercendo liberdade de imprensa. Está praticando censura — a mais perversa de todas, porque vem travestida de critério editorial e protegida pela falta de regulação.
O silêncio da Globo sobre Willer Tomaz não é omissão. É escolha. E essa escolha revela que os principais censores da liberdade de imprensa no Brasil não estão no governo, não estão no Judiciário, não estão no Legislativo. Estão nas salas da cúpula das emissoras, decidindo, com base em interesses econômicos e políticos, o que o país deve ou não saber.
Com informações de Observatório da Imprensa, Imprensa Ética, Intervozes, Media Ownership Monitor (MOM-Brasil), CartaCapital, O Globo, G1, Valor Econômico, UOL, Congresso em Foco, Brasil 247, Revista Fórum e Metrópoles ■