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Em um movimento que desafia as sanções impostas pelos Estados Unidos, um navio petroleiro russo, identificado como Anatoly Kolodkin, atracou em Cuba no final de março de 2026, transportando entre 650 mil e 730 mil barris de petróleo bruto. A chegada do navio, que faz parte da chamada "frota sombra" russa, representa um alívio emergencial para o sistema elétrico cubano, que enfrenta uma grave crise de combustível há meses. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, havia declarado que a ilha não recebia importações de petróleo havia três meses, período em que a população sofreu com apagões diários e um severo racionamento de gasolina.
A permissão para a passagem do navio russo ocorreu em meio a uma reviravolta na política externa norte-americana. O presidente Donald Trump, que anteriormente ameaçou impor tarifas a qualquer país que fornecesse petróleo a Cuba, sinalizou que não bloquearia a remessa. "Se um país quer enviar petróleo para Cuba agora, não tenho problema com isso, seja a Rússia ou não", declarou Trump a bordo do Air Force One, citando preocupações com as necessidades básicas do povo cubano, como aquecimento e refrigeração. A decisão ocorre após os EUA cortarem o fornecimento de petróleo venezuelano à ilha, após a deposição do presidente Nicolás Maduro, e o México ter interrompido seus envios sob pressão de Washington.
A crise humanitária nos hospitais
Embora a chegada do combustível russo ofereça uma perspectiva de alívio para a geração de eletricidade, os efeitos devastadores da crise energética já deixaram marcas profundas no sistema de saúde cubano. A escassez de combustível e os constantes apagões têm colocado em risco a vida de pacientes que dependem de equipamentos eletromédicos.
Relatos de familiares e denúncias de veículos independentes indicam que a interrupção no fornecimento de energia elétrica em unidades hospitalares já resultou em mortes evitáveis. De acordo com informações coletadas pela imprensa independente, a falta de energia ou a falha de geradores em hospitais agravou a situação de pacientes em estado crítico. Em um dos casos mais emblemáticos, uma menina de apenas um ano e meio, diagnosticada com Atrofia Muscular Espinhal Tipo 1, permaneceu internada por nove meses após receber alta médica porque sua família não podia garantir o funcionamento ininterrupto do respirador mecânico em casa devido aos apagões constantes.
Dados não oficiais, provenientes de fontes médicas e veículos de imprensa independente, apontam que pelo menos 12 pacientes que dependiam de ventiladores mecânicos em um hospital da ilha vieram a óbito devido às complicações diretas causadas pela instabilidade energética. Embora o governo cubano não divulgue números oficiais sobre mortes relacionadas diretamente aos apagões dentro das unidades de saúde, a correlação entre a falta de energia e o aumento do risco de morte já é reconhecida por especialistas. A própria mídia estatal já noticiou incidentes graves, como o ocorrido em um hospital de Camagüey, onde uma falha elétrica forçou a transferência de pacientes críticos, evidenciando a "vulnerabilidade dos centros de saúde".
O colapso do sistema elétrico e os apagões nacionais
A situação energética em Cuba atingiu níveis críticos em 2026. O país sofreu múltiplos colapsos totais do Sistema Elétrico Nacional (SEN) em um curto período, incluindo dois apagões nacionais em uma única semana em março. As termelétricas, muitas delas com décadas de operação e manutenção precária, operam muito abaixo de sua capacidade. A falta de combustível para as usas e a deterioração das infraestruturas são apontadas como as principais causas dos colapsos.
Em um desses incidentes, ocorrido em setembro de 2025, um trabalhador de 33 anos morreu após um acidente na termelétrica Antonio Maceo, em Santiago de Cuba, após um vazamento de vapor. Na ocasião, circulou a informação não confirmada de que, durante o tratamento do trabalhador no hospital, ocorreram duas interrupções no fornecimento elétrico, forçando o acionamento de geradores de emergência, o que gerou suspeitas sobre a qualidade do atendimento em meio à crise.
Dados de importação mostram a magnitude do desabastecimento: entre janeiro e outubro de 2025, as importações de petróleo e combustível por Cuba caíram 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. As remessas do México despencaram 73%, enquanto as da Venezuela, principal aliado político, caíram quase 15%.
O contexto geopolítico e os próximos passos
Especialistas apontam que a carga trazida pelo navio russo Anatoly Kolodkin pode garantir cerca de um mês de operação para a ilha, considerando o atual regime de racionamento. A Rússia, que já havia descrito a situação energética de Havana como "verdadeiramente crítica", prometeu manter os envios, solidificando seu papel como aliado crucial em meio ao isolamento econômico imposto pelos EUA.
Enquanto isso, a população cubana continua a sofrer com os efeitos colaterais da crise. As autoridades locais têm tomado medidas drásticas para economizar combustível, incluindo a redução da semana de trabalho em empresas estatais para quatro dias e o fechamento de instalações turísticas. Para os pacientes dependentes de tecnologia médica e suas famílias, a esperança é que a retomada dos envios de petróleo se traduza em estabilidade elétrica e, finalmente, na possibilidade de um tratamento seguro e, em casos extremos, a chance de voltar para casa.
Com informações de RNZ (Reuters), CNBC, CiberCuba, ADN Cuba, Boston Globe, Center for Economic and Policy Research (CEPR) ■