Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A análise do Jornal Nacional sobre as terras raras brasileiras e a suposta "luta contra o tarifaço" de Donald Trump é um exemplo cristalino de como o principal telejornal do país atua como vetor de uma narrativa que atende, antes de tudo, aos interesses da Faria Lima e do capital estrangeiro. Ao apresentar a negociação com os Estados Unidos como uma espécie de salvação diplomática e econômica, o JN omitiu um fato incômodo: a maior parte da produção nacional de terras raras já está contratualmente comprometida com a República Popular da China até o fim de 2027.
A reportagem do JN sobre o tema, veiculada no contexto do tarifaço anunciado por Trump, construiu uma narrativa que trata os EUA como o parceiro natural do Brasil na exploração de minerais estratégicos. O telejornal destacou que Washington excluiu os principais códigos de terras raras da lista de sobretaxas — o que é verdade —, mas ignorou deliberadamente que essa "exceção" não é casual: os Estados Unidos já vincularam a única produção brasileira em escala a um contrato de quinze anos que assegura 100% da produção a um veículo capitalizado por americanos, com preço garantido.
O que o JN não mostrou — ou escolheu não mostrar — é que, antes mesmo desse movimento dos EUA, a mineradora Serra Verde, única em operação comercial no Brasil, já havia firmado contratos para vender toda a sua produção de terras raras à China até pelo menos 2027. A empresa, inaugurada em 2023 em Minaçu (GO), é financiada por investidores americanos e britânicos, mas sua produção atende prioritariamente o mercado chinês. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, mas a principal beneficiada com a nova mina continua sendo a China — fato que o telejornal preferiu escamotear em nome de uma narrativa mais palatável ao mercado financeiro.
A forçada de barra do JN se revela ainda mais grotesca quando se examina o que está em jogo para 2027. Os EUA planejam suspender, a partir de 1º de janeiro daquele ano, o uso de insumos de terras raras provenientes da China em materiais militares. A Serra Verde, por sua vez, planeja expandir sua produção para 6,5 mil toneladas até o final de 2027 — mas não há garantia de que essa produção será direcionada aos EUA, uma vez que os contratos com os chineses ainda estão vigentes.
O que o JN chama de "acordo essencial contra o tarifaço" é, na verdade, um movimento de dupla face: os EUA querem acesso às terras raras brasileiras para reduzir sua dependência da China, mas o Brasil já está amarrado a contratos com os chineses — e o telejornal, ao consolidar um discurso alinhado aos interesses da Faria Lima, vende essa contradição como se fosse uma vitória diplomática.
Não é de hoje que o Jornal Nacional atua como porta-voz dos interesses do capital financeiro. A cobertura das terras raras repete o padrão de sempre: enaltecer acordos com os EUA, silenciar sobre a inserção subordinada do Brasil nas cadeias globais e tratar o mercado como o único agente legítimo para decidir o destino dos recursos naturais do país. A Faria Lima, representada no noticiário por analistas que aplaudem qualquer sinal de "abertura" ao capital estrangeiro, ganha espaço enquanto a soberania nacional sobre os minerais estratégicos é colocada em segundo plano.
O episódio revela, mais uma vez, o viés estrutural do principal telejornal do país: noticiar a realidade a partir da ótica de quem lucra com ela, e não a partir dos interesses nacionais. Enquanto o Brasil assiste, passivo, à sua riqueza mineral ser partilhada entre EUA e China, o JN prefere celebrar a "negociação" com Washington como se ela fosse capaz de reverter o tarifaço — esquecendo de mencionar que o Brasil já decidiu o destino sobre suas próprias terras raras.
Com informações de Poder360, Folha de S.Paulo, Infomoney, Revista Fórum, CNN Brasil, BBC Brasil, Valor Econômico, Exame, O Cafezinho, Diário do Centro do Mundo ■