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A produtora Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment — empresa responsável pela produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) —, tem sido aconselhada a firmar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). A informação foi revelada pela coluna do jornalista Igor Gadelha, no portal Metrópoles, e confirmada por outros veículos de imprensa. Karina, no entanto, resiste à possibilidade e tem afirmado a interlocutores que não teria o que delatar, uma vez que sustenta não ter cometido irregularidades.
Segundo a apuração, entre as pessoas que procuraram a produtora para sugerir a colaboração premiada estão lideranças religiosas, inclusive de matriz evangélica. As abordagens teriam ocorrido enquanto avançavam as investigações sobre o financiamento da produção. A quem a procurou sugerindo o acordo, Karina argumentou que “não teria o que delatar”, sob a justificativa de que “não teria feito nada de errado”.
A pressão para que a produtora colabore com as autoridades ocorre no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, que cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. A ação, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem como alvos o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a própria Karina Gama, além de outras 20 pessoas. Entre os investigados estão também o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidades presididas por Karina.
Entenda o caso
A investigação apura o repasse de R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas por Mario Frias, em 2024, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB). Segundo a PF, os recursos teriam sido direcionados à organização da sociedade civil e, posteriormente, repassados a empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou indícios de irregularidade na aplicação da emenda, incluindo despesas sem comprovação documental.
De acordo com a Polícia Federal, as apurações apontam para a existência de uma organização criminosa formada por agentes públicos e privados. Levantamentos financeiros identificaram movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado. Os investigadores também identificaram indícios de elaboração posterior e retrodatação de contratos, orçamentos e notas fiscais, com o objetivo de conferir aparência de legalidade às operações perante a CGU. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendido até julho deste ano.
São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
A delação de “Mineiro” e os repasses milionários
A pressão sobre Karina Gama ocorre um dia após o ministro André Mendonça, do STF, homologar a delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações. O acordo foi firmado com a PGR em 8 de agosto e homologado em 9 de setembro.
Segundo o relato do empresário, sua empresa foi utilizada para realizar repasses de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para a produção de “Dark Horse”. Freixo afirmou ter realizado sete transferências a título de “subscrições de cotas” para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos. As transações ocorreram entre janeiro e setembro de 2025 e somaram US$ 12,3 milhões, valor que equivalia a cerca de R$ 62,8 milhões à época.
Conforme a investigação, o fundo Havengate era administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL). O sistema operava como gestor dos recursos destinados à produção do filme e encaminhava o dinheiro à Go Up Entertainment, produtora responsável direta pelo projeto.
Na colaboração, “Mineiro” também afirmou que era responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe de Vorcaro. Segundo o empresário, o dinheiro era entregue em malas e seria usado para pagamentos de propina. A delação passou a integrar os desdobramentos ligados ao financiamento do longa.
Contexto político e desdobramentos
O caso “Dark Horse” surgiu em maio de 2026, após o portal The Intercept Brasil revelar gravações nas quais o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conversava com Vorcaro sobre aportes financeiros de até R$ 134 milhões para a cinebiografia do pai. O senador confirmou a solicitação de apoio financeiro, mas negou irregularidades. Pelo menos R$ 61 milhões teriam sido repassados para a produção.
Uma das linhas de investigação da PF apura a suspeita de que parte dos recursos destinados ao filme tenha sido usada para bancar a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-deputado se mudou para o país em 2025 alegando perseguição política.
A produção do filme também é alvo de um segundo inquérito no STF, relatado pelo ministro André Mendonça, que investiga especificamente os repasses do Banco Master. Esse dinheiro, no entanto, não é o foco da Operação Make Up, que investiga as emendas parlamentares indicadas por Mario Frias.
Em manifestação enviada ao STF, Frias negou que os recursos das emendas tenham sido usados no longa e afirmou que as emendas foram destinadas a projetos de inclusão digital, empreendedorismo e esportes. O deputado está proibido de deixar o país por ordem judicial, e seu celular foi apreendido durante a operação.
Até o momento, Karina Gama não anunciou qualquer acordo com as autoridades e mantém a posição de que não praticou atos ilegais relacionados à produção ou às entidades sob sua responsabilidade. A defesa da produtora não se manifestou publicamente sobre as sugestões de delação. O espaço segue aberto para manifestações.
Com informações de Metrópoles, Diário do Centro do Mundo, BNews, AC24Horas, Brasil 247, ND Mais, Gazeta do Povo, G1, CNN Brasil, UOL, Correio do Povo, Agência Brasil e Exame. ■