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Em um movimento que eleva as tensões no Oriente Médio a um novo patamar, os houthis, grupo armado do Iêmen e aliado do Irã, declararam nesta segunda-feira (20) um bloqueio naval contra a Arábia Saudita no Estreito de Bab el-Mandeb, a porta de entrada sul do Mar Vermelho. A medida, anunciada com efeito imediato, representa uma escalada significativa no conflito que opõe os Estados Unidos e Israel ao Irã e amplia a ameaça ao abastecimento global de energia e ao comércio internacional.
Em comunicado oficial, as forças armadas houthis declararam “um embargo marítimo contra o inimigo saudita criminoso, baseado na lógica de ‘olho por olho’, com efeito imediato”. O porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, justificou a decisão como uma resposta ao que classificaram como um “cerco injusto e opressor” imposto ao Iêmen pelos sauditas ao longo dos últimos anos. O vice-chefe do escritório de mídia houthi, Nasruddin Amer, reforçou a mensagem em sua conta na rede social X, afirmando que o Estreito de Bab el-Mandeb será fechado para “navios inimigos sauditas”.
A declaração ocorre em um momento de extrema fragilidade na região. O estreito de Bab el-Mandeb, uma via navegável de apenas 32 quilômetros de largura localizada entre o sudoeste do Iêmen e o Chifre da África, conecta o Golfo de Aden ao Mar Vermelho, que por sua vez se liga ao Mar Mediterrâneo através do Canal de Suez. Cerca de 12% do comércio mundial e um quarto do comércio global de contêineres transitam por esse corredor estratégico. Além disso, cerca de 7% do petróleo mundial passa pelo estreito.
O fechamento total do Estreito de Bab el-Mandeb teria consequências devastadoras para a economia global. Segundo análises, a medida reduziria a oferta global de petróleo em 7%, impedindo o escoamento da maior parte das exportações de petróleo da Arábia Saudita para fora da região. Essa interrupção se somaria à drástica redução nos fluxos globais de petróleo causada pela guerra no Golfo, que já diminuiu os embarques em 10% da oferta mundial. Com o Estreito de Hormuz já efetivamente fechado desde o início do conflito entre EUA, Israel e Irã em fevereiro, a Arábia Saudita vinha utilizando o Estreito de Bab el-Mandeb como rota alternativa para exportar cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, principalmente para a Ásia.
A medida dos houthis não ocorre por acaso. Fontes ouvidas pela agência Reuters revelaram que o Irã vinha pressionando o grupo a fechar o Estreito de Bab el-Mandeb caso os Estados Unidos continuassem a atacar a infraestrutura energética iraniana. Uma fonte próxima aos houthis afirmou que o grupo já concluiu os preparativos para atacar a navegação, com a implantação de mísseis e drones nas proximidades do estreito, nas terras altas do Iêmen que dominam Hodeidah e o Golfo de Aden, aguardando apenas a ordem para iniciar as operações. Representantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), que já estão no Iêmen, controlarão a decisão sobre quando fechar o estreito, de acordo com a mesma fonte.
O anúncio do bloqueio ocorreu após uma semana de intensa escalada no conflito entre houthis e Arábia Saudita, que havia permanecido em uma trégua informal desde 2022. Os houthis acusaram a Arábia Saudita de realizar ataques aéreos contra o Aeroporto Internacional de Sanaa, capital do Iêmen, com o objetivo de impedir o pouso de uma aeronave iraniana que transportava líderes do grupo. Em retaliação, os houthis lançaram mísseis contra o Aeroporto Internacional de Abha, no sudoeste da Arábia Saudita. O governo iemenita, apoiado pela Arábia Saudita, reivindicou a autoria dos ataques aéreos, afirmando que buscava impedir um pouso não autorizado.
A comunidade internacional reagiu com preocupação. As Nações Unidas fizeram um apelo contra a escalada no conflito. O porta-voz da entidade, Stéphane Dujarric, pediu a retomada das negociações diplomáticas e enfatizou que ataques à população e à infraestrutura civil desrespeitam o direito internacional. Em meio à crise, os preços do petróleo chegaram a superar brevemente os 90 dólares por barril nesta segunda-feira, após novas interrupções na navegação pelo Estreito de Hormuz.
Paralelamente, surgiram sinais de que tanto o Irã quanto os Estados Unidos demonstram interesse em retomar esforços diplomáticos para encerrar a escalada de ataques. Uma autoridade iraniana de alto escalão afirmou à Reuters que Teerã recebeu uma proposta de mediadores para um cessar-fogo de dez dias, numa tentativa de salvar o frágil acordo provisório assinado no mês passado. O objetivo seria abrir caminho para um acordo duradouro que encerre a guerra iniciada em 28 de fevereiro com ataques dos EUA e de Israel contra o Irã.
Ainda não houve resposta imediata por parte da Arábia Saudita. No entanto, a medida dos houthis representa uma ameaça direta à estratégia do reino de contornar o bloqueio em Hormuz, forçando a Arábia Saudita a depender cada vez mais do Oleoduto Leste-Oeste para escoar sua produção. O conflito no Iêmen, que já devastou o país desde 2014 e deixou mais de 150 mil mortos, segundo estimativas da ONU, agora ameaça se transformar em um confronto direto com implicações globais.
Com informações de Agência Brasil, BBC, CNN Brasil, Euronews, Reuters, RTP e UPI ■