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Trump faz pronunciamento com acusações infundadas sobre interferência chinesa nas eleições
Presidente dos EUA deve apresentar supostas evidências de que Pequim teria acesso a dados de eleitores; relatórios de inteligência de 2021 já descartaram qualquer interferência no resultado das urnas
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 16/07/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará um pronunciamento em rede nacional na noite desta quinta-feira (16) para apresentar acusações sobre uma suposta interferência da China nas eleições americanas, segundo fontes ouvidas pela CBS News e pela agência Reuters. O discurso, transmitido em horário nobre pela televisão, deve abordar informações de inteligência recém-desclassificadas relacionadas à eleição de 2020 e a vulnerabilidades em urnas eletrônicas que, segundo a Casa Branca, poderiam permitir ataques cibernéticos de governos estrangeiros.

De acordo com relatos da imprensa internacional, o pronunciamento incluirá alegações de que o governo chinês obteve acesso a dados de eleitores dos EUA e de que a CIA teria conhecimento do caso, mas não teria informado Trump durante seu primeiro mandato. A fala deve reunir integrantes do alto escalão do governo, incluindo chefes da CIA, do FBI, do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI), do Departamento de Segurança Interna (DHS) e outras autoridades da administração.

Questionada sobre o conteúdo do discurso, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, evitou confirmar as informações. “Como de costume, fontes anônimas estão especulando sobre o que o presidente Trump dirá em seu discurso na noite de quinta-feira. A verdade é que ninguém sabe ainda o que o presidente Trump dirá ao final, e é por isso que todos deveriam assistir”, afirmou.

O que dizem os relatórios da inteligência americana

A hipótese de envolvimento chinês nas eleições de 2020 já foi amplamente analisada pela comunidade de inteligência dos Estados Unidos. Uma avaliação publicada em 2021 pelo Conselho Nacional de Inteligência concluiu, com “alto grau de confiança”, que a China não tentou influenciar o resultado da eleição presidencial. Segundo o documento, Pequim avaliou que nem uma vitória de Joe Biden nem uma reeleição de Trump justificariam o risco de ser flagrada interferindo no processo.

O relatório também afirma que não houve tentativa chinesa de atacar a infraestrutura eleitoral, como sistemas de votação ou de apuração dos votos. A avaliação de 2021 da comunidade de inteligência americana não encontrou indicações de que qualquer ator estrangeiro tenha tentado ou conseguido alterar “qualquer aspecto técnico” da eleição presidencial de 2020, incluindo registros de eleitores, cédulas, apurações ou resultados.

O documento, porém, registra uma posição minoritária de um alto funcionário da área de ciberinteligência, Christopher Porter, que avaliou, com confiança moderada, que a China teria tentado prejudicar a campanha de reeleição de Trump principalmente por meio de redes sociais e declarações oficiais. Dois anos depois, em 2023, Porter escreveu um artigo altamente classificado expandindo seu argumento original, mas fontes ouvidas pela Reuters afirmaram que o documento se baseava em um pequeno subconjunto de inteligência bruta e não representava necessariamente o ponto de vista oficial de Pequim. Ainda assim, essa análise minoritária também concluiu que não houve interferência direta no processo eleitoral.

Dados de eleitores e a controvérsia dos documentos

Outro relatório, elaborado em abril de 2020 e tornado público em 2022 com diversas partes ainda censuradas, aponta que a inteligência chinesa analisou dados de registros eleitorais de vários estados americanos. Segundo o documento, o objetivo seria realizar estudos sobre a opinião pública antes da eleição presidencial daquele ano. O texto não explica como esses dados foram obtidos nem afirma que houve manipulação dos registros eleitorais. Em muitos estados americanos, parte das informações cadastrais dos eleitores é pública, enquanto outros dados permanecem protegidos por sigilo.

Fontes ouvidas pela Reuters afirmam que a inteligência em questão é classificada e está relacionada a se a China tinha intenção ou capacidade de interferir nas eleições americanas de 2020. As mesmas fontes, que falaram sob condição de anonimato para discutir material classificado, disseram que a inteligência não mostrou que Pequim manipulou ou alterou votos.

Preocupações dentro do próprio governo

De acordo com quatro pessoas com conhecimento das deliberações, a Casa Branca está considerando divulgar inteligência sensível relacionada à China e à sua capacidade de interferir nas eleições dos EUA, mas alguns funcionários do governo Trump temem que esses materiais possam ser enganosos. As fontes expressaram preocupação de que a administração Trump possa exagerar o significado da posição minoritária de Porter e usá-la para argumentar que a China exerceu influência sobre o resultado da votação de 2020.

Ex-funcionários do governo americano repetidamente afirmaram que não há evidências que sugiram que a China ou qualquer outro adversário estrangeiro tenha manipulado votos em 2020. A alegação de fraude generalizada na eleição de 2020 já foi rejeitada por tribunais, auditorias eleitorais e pelo Departamento de Justiça durante o primeiro mandato de Trump, que não encontraram evidências de fraude, incluindo qualquer manipulação de urnas eletrônicas. Na época, a agência federal de segurança cibernética classificou a votação como “a mais segura da história dos Estados Unidos”.

Contexto político e repercussões

Trump anunciou o pronunciamento no início da semana e deu poucas pistas sobre o conteúdo, limitando-se a sugerir que o foco seria a integridade das eleições americanas. Desde que deixou a Casa Branca, o presidente mantém a alegação de que houve fraude generalizada na eleição de 2020, vencida por Joe Biden, embora essa tese tenha sido rejeitada por tribunais, autoridades eleitorais e sucessivas investigações.

O esforço faz parte de uma campanha mais ampla para exercer controle federal sobre a administração das eleições nos EUA — uma função que, de acordo com a Constituição americana, cabe exclusivamente aos estados. Especialistas em direito eleitoral afirmam que essas iniciativas retirariam poderes dos Estados, o que poderia violar a Constituição americana.

Às vésperas das eleições legislativas de novembro, que definirão o controle do Congresso, democratas e especialistas em segurança eleitoral dizem temer que o governo tente interferir no processo. Para analistas citados pela Reuters, insistir na ilegitimidade de 2020 pode preparar o terreno para contestar eventuais derrotas republicanas e enfraquecer os democratas caso retomem a maioria.

O discurso de Trump nesta quinta-feira ocorre em meio a um crescente debate sobre a segurança das urnas eletrônicas. Uma análise forense apresentada no ano passado pela Mojave Research, contratada pela então diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, apontou falhas em urnas apreendidas em Porto Rico, mas não encontrou sinais de invasão cibernética. A Casa Branca, porém, teria atrasado a divulgação desse documento, enquanto Trump segue tentando sustentar que sua derrota em 2020 ocorreu por fraude.

A comunidade de inteligência americana, em sua avaliação de 2021, já havia concluído que não havia evidências de que qualquer ator estrangeiro tenha tentado ou conseguido alterar aspectos técnicos da eleição de 2020. O pronunciamento de Trump, portanto, reaviva alegações já desmentidas e promete ampliar a tensão já existente nas relações entre Estados Unidos e China, além de acirrar o debate doméstico sobre a integridade do sistema eleitoral americano a poucos meses das eleições legislativas.

Com informações de Reuters, CBS News, Diário do Centro do Mundo, G1, UOL, Central News Agency (CNA), The Jerusalem Post, U.S. News & World Report ■

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