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A concessão do green card ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) pelo governo de Donald Trump, em 20 de julho de 2026, expõe uma das mais flagrantes contradições da política migratória e diplomática dos Estados Unidos. O documento, que garante ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro o direito de viver, trabalhar e estudar em território norte-americano por tempo indeterminado, foi emitido poucas semanas após o Supremo Tribunal Federal (STF) condená-lo a quatro anos e dois meses de reclusão pelo crime de coação no curso do processo.
O contraste com o tratamento dispensado a imigrantes comuns — muitos dos quais construíram suas vidas nos Estados Unidos por mais de duas décadas — não poderia ser mais gritante. Enquanto Eduardo Bolsonaro comemora o que chama de “segurança maior”, milhares de salvadorenhos e outros latino-americanos são algemados, acorrentados e enviados em voos da ICE (Imigração e Controle de Aduanas dos EUA) para as megaprisões de El Salvador, onde desaparecem no sistema judiciário e ficam incomunicáveis por meses ou anos.
Eduardo Bolsonaro obteve a residência permanente na categoria EB-1A, destinada a pessoas com “habilidades extraordinárias” em áreas como ciência, artes, negócios e esportes. O processo, segundo ele, foi iniciado há cerca de um ano e tramitou inteiramente no Texas, sem passar por Washington. O ex-deputado nega qualquer motivação política: “Não vejo como um processo político. Foi um processo burocrático”.
A cronologia, no entanto, levanta suspeitas. Em 16 de junho de 2026, a Primeira Turma do STF, por unanimidade, condenou Eduardo Bolsonaro por tentativa de obstrução da Justiça e coação, relacionados ao processo da trama golpista liderada por seu pai. A pena inclui quatro anos e dois meses de reclusão em regime semiaberto, inelegibilidade por oito anos e perda do cargo de escrivão da Polícia Federal.
Menos de um mês depois, o green card é aprovado. A coincidência temporal, somada ao alinhamento político de Eduardo com a administração Trump e às reiteradas críticas do presidente americano ao governo brasileiro e ao ministro Alexandre de Moraes, alimenta a percepção de que o documento funciona como uma blindagem diplomática para um aliado político condenado.
O próprio Eduardo admite que o green card o protege de situações como a do ex-deputado Alexandre Ramagem, detido em Orlando pelo ICE e liberado dois dias depois. “Isso me dá uma segurança maior. O que aconteceu com o Ramagem fica totalmente afastado de acontecer comigo”. Ele também declarou que só voltará ao Brasil se receber anistia.
Enquanto um político brasileiro condenado ganha passe livre nos Estados Unidos, a máquina de deportação do governo Trump opera em ritmo acelerado. Desde janeiro de 2025, mais de 9.000 salvadorenhos foram deportados dos EUA para El Salvador. Muitos deles são enviados diretamente ao Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), a megaprisão de segurança máxima, sem acesso a advogados ou à família.
As condições de transporte e detenção são descritas por organizações de direitos humanos como degradantes e desumanas. Deportados são algemados com as mãos e os pés acorrentados durante os voos, e ao desembarcar em El Salvador, são submetidos a revistas humilhantes e interrogatórios sobre tatuagens que possam sugerir vínculo com gangues.
A Human Rights Watch documentou que, entre os salvadorenhos deportados desde o início de 2025, apenas 10,5% tinham condenação nos EUA por crime violento ou potencialmente violento. A maioria é detida arbitrariamente, sem qualquer evidência de envolvimento com atividades criminosas. Parentes não conseguem localizar seus entes queridos, e muitos deportados permanecem incomunicáveis por meses.
Casos como o de Kilmar Ábrego García — deportado por engano pelo ICE em 2025 e que a própria administração Trump admitiu não poder trazer de volta — escancaram o caráter arbitrário e muitas vezes irreversível dessas deportações.
A comparação entre o tratamento dado a Eduardo Bolsonaro e o dado a imigrantes comuns revela um critério seletivo que tem menos a ver com a lei e mais com alinhamento político. Enquanto o ex-deputado é agraciado com um green card mesmo após condenação judicial no Brasil, imigrantes que viveram nos EUA por mais de 20 anos são arrancados de suas famílias e enviados para prisões estrangeiras.
O governo Trump impôs, na mesma semana, uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida foi acompanhada por críticas do secretário de Estado Marco Rubio ao presidente Lula. Esse contexto de tensão diplomática torna ainda mais simbólica a concessão do green card a Eduardo, que foi condenado exatamente por articular, junto a autoridades americanas, sanções contra o Judiciário brasileiro.
O comentarista Claudio Humberto, da Band, avaliou que a decisão da administração Trump é um “reconhecimento tácito de perseguição política” e uma “derrota constrangedora” para o governo e o Judiciário brasileiros. Para críticos, trata-se de um escárnio à soberania brasileira: um condenado por coação contra o STF é recompensado com residência permanente nos EUA, enquanto trabalhadores anônimos são tratados como criminosos e deportados em condições desumanas.
Eduardo Bolsonaro afirmou que “os abusos do Alexandre (de Moraes) não valem de nada” nos EUA. A frase resume o paradoxo: a justiça brasileira é desautorizada por um governo estrangeiro que acolhe como residente permanente um de seus condenados, ao mesmo tempo que expulsa milhares de imigrantes em situação vulnerável.
Por trás dos números e das decisões diplomáticas, há histórias de vidas destruídas. A deportação em massa para El Salvador, viabilizada por um acordo entre Trump e o presidente salvadorenho Nayib Bukele, transformou o país centro-americano em uma extensão do sistema prisional americano. As famílias dos deportados vivem na angústia, sem saber se seus parentes estão vivos ou mortos.
Relatos colhidos pela NPR e pela Human Rights Watch descrevem cenas de terror: deportados que são despidos e revistados no aeroporto, ameaçados de envio imediato ao CECOT caso suas tatuagens sejam interpretadas como símbolos de gangues. Mulheres transgênero, como a entrevistada identificada como “T”, são submetidas a humilhações adicionais e vivem com medo constante de serem detidas novamente.
Organizações de direitos humanos denunciam que El Salvador está praticando “desaparecimentos forçados” de deportados, ao mantê-los incomunicáveis e sem acesso a juízes. A Suprema Corte dos EUA, por sua vez, autorizou o governo Trump a continuar deportando supostos membros de gangues para a megaprisão salvadorenha, criando um precedente perigoso para a erosão do devido processo legal.
A concessão do green card a Eduardo Bolsonaro, em meio à escalada das deportações em massa, expõe a seletividade e a instrumentalização política da política migratória americana. Não se trata de uma questão burocrática, como tenta fazer crer o ex-deputado. Trata-se de um gesto político que premia aliados e pune os vulneráveis, em uma lógica que subverte os princípios mais elementares de justiça e direitos humanos.
Enquanto Eduardo Bolsonaro celebra sua “liberdade” nos Estados Unidos, milhares de imigrantes — muitos dos quais contribuíram por décadas com a economia e a sociedade americanas — são algemados, acorrentados e enviados para o inferno das prisões salvadorenhas. Esse contraste não é um acaso. É a face mais crua de um governo que faz da migração uma arma política e do direito internacional uma moeda de troca.
Com informações de Reuters, CBN, O Globo, Gazeta SP, Opera Mundi, Band, Human Rights Watch, NPR, Folha de S. Paulo, UOL, Estadão, CNN Brasil, Revista Fórum, Diário do Centro do Mundo, Poder360, Gazeta do Povo, Bahia Notícias, O Povo, Correio do Povo e Diário do Nordeste ■