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Laranjal: o esquema que movimenta
Por trás da fachada de postos de gasolina, gabinetes públicos, conglomerados financeiros, produções cinematográficas e concessões de radiodifusão, um mesmo método se repete: o uso de "laranjas" para ocultar a verdadeira origem do poder e do dinheiro; o fenômeno, outrora restrito ao submundo do crime organizado, tornou-se moeda corrente nas esferas mais altas da política, das finanças e da comunicação no Brasil
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■   Bernardo Cahue, 16/07/2026

O termo "laranja" incorporou-se ao vocabulário político e policial brasileiro como sinônimo de testa de ferro, pessoa física ou jurídica usada para ocultar a real propriedade de bens, empresas ou, em um sentido mais amplo, interesses. O que se vê hoje, no entanto, é a expansão desse conceito para além das tradicionais fraudes financeiras. O "laranjal" tornou-se um sistema que opera em várias camadas da sociedade, desde esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo policiais civis e suas esposas no Rio de Janeiro até a suspeita de contratação de funcionários fantasmas no gabinete de um senador da República, passando pela atuação da grande imprensa como o que se poderia chamar de "laranja ideológico" dos interesses do mercado financeiro. A essa lista somam-se agora o escândalo bilionário do Banco Master, a teia de suspeitas por trás do filme "Dark Horse" e o emaranhado de concessões de rádio e TV operadas por políticos através de parentes.

A "Unha e Carne" e as esposas-laranja

Em julho de 2026, a sexta fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, escancarou a sofisticação de um esquema que movimentou a cifra astronômica de R$ 7,6 bilhões em seis anos. Por trás da fachada de dezenas de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio, uma engenharia societária foi montada para blindar o patrimônio de agentes de segurança pública. No centro da trama, estavam Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira, esposas de inspetores da Polícia Civil. Elas atuavam como "laranjas", gerindo, no papel, um conglomerado de pelo menos 80 empresas.

Enquanto seus maridos, os inspetores Pablo Jukia Felix Ferreira e José Carlos Alves, recebiam salários públicos de cerca de R$ 9 mil, as mulheres comandavam uma rede de postos que movimentava bilhões. A estrutura contava ainda com a assessoria de um advogado, Renivaldo Vieira Granja Junior, apontado pela PF como o "cérebro administrativo" do núcleo familiar, oficializando-se como sócio-administrador das empresas para dar contornos legais à movimentação de dinheiro vivo. O caso é exemplar não apenas pelo volume de recursos desviados, mas por revelar como a instituição policial, cuja função precípua é combater o crime, foi cooptada por um esquema que utilizava os laços familiares mais íntimos como principal ferramenta de ocultação.

O "laranjal" de Flávio Bolsonaro na ALERJ

Se o esquema das esposas de policiais opera nas margens da lei, a suspeita de um "laranjal" no coração do poder legislativo fluminense revela a capilaridade da prática. O senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e seu ex-assessor Fabrício Queiroz são investigados desde 2018 por suspeita de "rachadinha" na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O esquema, segundo o Ministério Público, consistia em nomear assessores que eram orientados a devolver parte de seus salários para o grupo, operação que era gerida por Queiroz.

As investigações ganharam corpo após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontar uma "movimentação atípica" de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz, em 2016 e 2017. Os promotores levantaram indícios de um esquema criminoso de desvio e lavagem de dinheiro que envolvia a contratação de familiares e funcionários fantasmas. O próprio Flávio Bolsonaro teria recebido 48 depósitos no valor de R$ 2 mil, totalizando R$ 96 mil, que ele justificou como sendo relativos à venda de um apartamento.

Além da "rachadinha", a atuação dos assessores do então deputado estadual ia além do expediente parlamentar. Quatro assessores lotados em seu gabinete, que recebiam entre R$ 6,5 mil e R$ 21 mil, figuram em pelo menos 52 processos particulares da família Bolsonaro. Eles atuaram em causas que iam desde a contestação de uma multa de trânsito da mulher de Flávio até um processo de ameaça envolvendo a primeira-dama Michelle Bolsonaro. A atuação de servidores públicos em causas estritamente pessoais, utilizando o brasão e o timbre da Assembleia, gerou representação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) ao Ministério Público por possível improbidade administrativa. O episódio, ocorrido em 2012, é um precursor do que se tornaria um padrão: o uso da máquina pública e de seus funcionários para a blindagem pessoal e política do clã Bolsonaro.

O colosso em ruínas: o escândalo do Banco Master

Se os casos anteriores revelam a capilaridade do "laranjal" na política e na segurança pública, o escândalo do Banco Master expõe a dimensão sistêmica do problema no coração do sistema financeiro nacional. O Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, teve sua liquidação decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, com uma lista de credores envolvendo 800 mil investidores. A justiça congelou R$ 5,7 bilhões em bens de investigados por crimes como lavagem de dinheiro, manipulação de mercado e associação criminosa. Somente de recursos do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) serão repassados para ressarcimento aos clientes mais de R$ 40,6 bilhões em CDBs.

O esquema, segundo as investigações da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, era complexo e envolvia uma intrincada rede de "laranjas". O banco captava recursos no mercado por meio da emissão de CDBs e os direcionava a fundos de investimento (FIDCs) onde o próprio banco era o único cotista. Esses fundos, por sua vez, compravam Notas Comerciais de empresas de fachada ligadas aos sócios do banco. Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio dessas triangulações. O banco emprestava recursos a empresas supostamente laranja que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos.

Um dos exemplos mais escandalosos desse mecanismo é o da Clínica Mais Médicos S.A., em Minas Gerais. De acordo com ação judicial que autorizou a prisão de Vorcaro, o Banco Master utilizou a clínica, em nome de uma "laranja", para inflar artificialmente seu patrimônio e mascarar a real situação financeira da instituição. A clínica, com capital social de apenas R$ 700 mil, emitiu 13 notas comerciais entre 2021 e abril de 2025 que totalizaram R$ 361 milhões. A presidente da companhia foi identificada como beneficiária de auxílio emergencial durante a pandemia e, de acordo com a PF, figurava como interposta pessoa - uma "laranja". Para o juiz, a dona da clínica "atuaria como laranja no esquema", "para artificialmente inflar o patrimônio do Banco Master".

A PGR afirmou ao STF que há indícios consistentes de que o Banco Master teria utilizado "vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização" para desviar bilhões de reais em benefício de seus controladores. A investigação também menciona operações envolvendo outras empresas e fundos ligados ao grupo, como Reag DTVM e Astralo 95, que teriam sido utilizados para transferir valores do Banco Master para estruturas controladas por familiares de seus dirigentes. O caso se tornou uma das maiores crises financeiras da última década, com investigações apontando para fraudes que ultrapassam R$ 12 bilhões, e gerou pressão no Congresso para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

"Dark Horse": o cinema como laranjal político

O escândalo do Banco Master, no entanto, não se restringe ao universo financeiro. Ele se entrelaça com o mundo da política e da comunicação por meio do filme "Dark Horse", uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O filme, dirigido por Cyrus Nowrasteh e estrelado por Jim Caviezel, recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As mensagens reveladas mostram que Flávio Bolsonaro pediu o dinheiro a Vorcaro para financiar a produção.

O que surgiu como uma cinebiografia se transformou em uma teia de suspeitas envolvendo políticos da extrema direita, empresários, uma produtora sem trajetória compatível com uma superprodução internacional, entidades beneficiadas por dinheiro público e uma rota financeira que atravessa os Estados Unidos. O deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, aparece como uma figura-chave, ligado à origem criativa da obra e à articulação com a produtora.

A investigação revelou que a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme, não existe no endereço indicado nos EUA, e sua proprietária, Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior. Há indícios de que Karina Gama seja "laranja" de Mário Frias. Além disso, a produtora é também presidente do Instituto Conhecer Brasil, ONG que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda.

O núcleo financeiro do filme também levanta suspeitas. A Entre Investimentos e Participações, que financiou o filme, fez 14 transferências para a ACX ITC Tecnologia, empresa investigada por lavar dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital). Os repasses somaram R$ 28 milhões em nove meses. A ACX ITC está registrada em nome de um "laranja" que relatou aos investigadores ter recebido a proposta de R$ 5 mil para ceder o CPF e assumir a firma. A Polícia Federal afirma que Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre no papel, era usado por Vorcaro como "laranja" para realizar pagamentos e ocultar patrimônio. A trama se completa com a revelação de que a empresa ligada ao PCC movimentou R$ 918,3 milhões e repassou recursos para empresas vinculadas a ministros do Superior Tribunal Militar e do Superior Tribunal de Justiça.

O "laranja ideológico" e a subserviência da imprensa à Faria Lima

Há, contudo, uma terceira dimensão do fenômeno "laranja" que é menos discutida, mas igualmente perniciosa: a atuação da grande imprensa como "laranja ideológico" dos interesses do capital financeiro. Se os "laranjas" tradicionais ocultam a propriedade de bens, os "laranjas ideológicos" da mídia ocultam a agenda e os interesses por trás de seus discursos, apresentando-os como verdades isentas e universais.

A crítica ao alinhamento da grande imprensa brasileira com os interesses do mercado não é nova. Estudos apontam que os grandes veículos de comunicação do país têm um perfil predominantemente liberal-conservador. Esse viés se manifesta na cobertura econômica, na qual as pautas da Faria Lima – como o ajuste fiscal, a austeridade e a desregulamentação – são frequentemente apresentadas como única alternativa possível, enquanto vozes dissonantes são marginalizadas ou desqualificadas. Os telejornais, em especial, convertem-se em palcos onde a agenda do capital é repetida como um mantra, transformando âncoras e repórteres em verdadeiros "laranjas" de um discurso que não lhes pertence, mas que reproduzem com a convicção de quem professa uma fé inquestionável.

Essa dinâmica não é fruto de uma conspiração explícita, mas de uma confluência de fatores: a concentração da propriedade dos meios de comunicação em poucas famílias, a dependência financeira da publicidade estatal e privada, e a formação de uma elite jornalística que compartilha dos mesmos valores e círculos sociais do poder econômico. O resultado é um jornalismo que, sob a aparência de imparcialidade, atua como um poderoso agente de reprodução ideológica, naturalizando as desigualdades e deslegitimando políticas públicas que contrariem os interesses do mercado.

Concessões de TV e rádio: o laranjal familiar

Há ainda um quarto vetor do "laranjal" brasileiro, que opera na interface entre política e comunicação: o uso de parentes para manter o controle sobre concessões de rádio e televisão. A Constituição brasileira proíbe que deputados e senadores sejam concessionários de serviços públicos. A legislação, no entanto, não veda que familiares diretos de políticos sejam titulares dessas concessões – o que, na prática, transforma filhos, irmãos, pais e cônjuges em "laranjas" de primeira grandeza.

Um levantamento da Agência Pública mostrou que uma em cada cinco retransmissoras de TV da região da Amazônia Legal pertence a algum político. Dos 1.737 canais de retransmissão legalmente aptos a produzir conteúdo local, 373, ou 21,5% do total, estão em nome de políticos ou de parentes próximos. O grupo inclui sete senadores. O Maranhão é o extremo desse fenômeno: das 276 retransmissoras de TV maranhenses, 159, ou 58%, estão registradas em nome de empresas de políticos.

A família Sarney é um exemplo paradigmático. A TV Mirante, afiliada da Globo, pertence aos três filhos do ex-presidente José Sarney: Roseana Sarney (ex-governadora, ex-senadora e ex-deputada), José Sarney Filho (deputado federal) e o empresário Fernando Sarney, que dirige o grupo. A Mirante tem 20 retransmissoras no estado. A família Lobão controla a rede mais extensa do estado: 79 retransmissoras de televisão em nome da Rádio e TV Difusora, afiliada do SBT, comandada por Edison Lobão Filho.

O repasse de cotas a parentes tornou-se um expediente comum para burlar a restrição constitucional. O senador José Agripino Maia (DEM-RN) vendeu a dois irmãos e à mãe cotas de uma rede de televisão e de emissoras de rádio no Rio Grande do Norte. O senador Jader Barbalho (PMDB-PA) deu lugar à filha Giovana Barbalho na sociedade da Rádio Clube do Pará. O senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE) e os deputados Beto Mansur (PRB-SP) e Domingos Neto (PSD-CE) também repassaram as ações de emissoras de rádio e TV para parentes. Em muitos casos, a transferência ocorreu após a instauração de inquéritos e ações civis públicas movidas pelo Ministério Público Federal, num claro movimento de "escanteio" que mantém o controle político sobre o espectro radioelétrico sem ferir a letra da lei – ainda que sua essência seja violentada.

Conclusão: a teia do laranjal

Os casos aqui descritos – as esposas-laranja da Polícia Civil, os funcionários fantasmas do gabinete de Flávio Bolsonaro, as empresas de fachada do Banco Master, a teia de suspeitas do filme "Dark Horse", as concessões de TV operadas por parentes de políticos e a subserviência ideológica da imprensa – são faces de um mesmo fenômeno. Em todos eles, há uma tentativa de ocultar a verdadeira origem do poder, seja ele econômico, político ou simbólico. O "laranjal" é, portanto, mais do que um esquema de corrupção; é um sintoma de uma crise mais profunda da democracia brasileira, na qual as instituições são capturadas por interesses privados e o debate público é moldado por uma mídia que se recusa a exercer seu papel de contrapoder.

Enquanto as investigações da Operação Unha e Carne, do caso Queiroz, da Operação Compliance Zero (sobre o Banco Master) e da Operação Saturno (sobre o PCC e o filme Dark Horse) avançam, revelando a podridão do subsolo político, policial e financeiro, a imprensa segue seu curso, muitas vezes ignorando seu próprio papel na perpetuação do sistema que denuncia. O "laranjal" não é um desvio, mas a regra. E enquanto não houver uma reforma profunda que atinja não apenas as leis, mas também a estrutura de propriedade e a cultura dos meios de comunicação, o Brasil continuará a ser um grande pomar de laranjas, onde a fruta mais abundante é a falsificação.

Com informações de O Globo, UOL, Congresso em Foco, Observatório da Imprensa, Tribuna do Norte, Correio do Povo, Metro1, Agência Brasil, CNN Brasil, Estadão, Diário do Centro do Mundo, JB, ABI, Agência Pública ■

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