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Venezuela em Estado de Guerra
Após captura de Maduro por forças dos EUA, país vive sob regime de exceção, com clima de tensão, espionagem e incertezas sobre seu futuro soberano
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 10/01/2026

Operação "Resolução Absoluta": O Ataque que Mudou a Venezuela

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, explosões sacudiram Caracas e regiões costeiras, marcando o início da Operação "Resolução Absoluta" (Operation Absolute Resolve) . A ação militar dos Estados Unidos, autorizada pelo presidente Donald Trump, tinha como alvos primários instalações militares e de comunicações venezuelanas, com o objetivo declarado de capturar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, sob acusações de narcoterrorismo . Horas após os bombardeios, Trump anunciou em suas redes sociais que as forças especiais americanas haviam capturado com sucesso o mandatário venezolano e o estavam transportando para fora do país . Maduro e Flores foram levados para Nova York, onde estão detidos e responderão a processos judiciais .

O saldo humano da operação foi severo. Iniciativas jornalísticas locais contabilizaram pelo menos 77 mortos até 6 de janeiro . Entre as vítimas estão:

  • 32 conselheiros militares e de segurança cubanos que atuavam na Venezuela, cujas mortes foram confirmadas e lamentadas pelo governo de Havana .
  • 42 militares venezuelanos, incluindo membros da guarda presidencial e alunos da academia militar .
  • Civis que nada tinham a ver com o conflito. Rosa González, de 79 anos, morreu quando um míssil atingiu seu apartamento em Catia La Mar. A colombiana Yohanna Rodríguez Sierra foi morta por estilhaços ao sair para observar as explosões em El Volcán .

Estado de Exceção e a Sombra da Espionagem Interna

A captura de Maduro não foi um golpe de sorte, mas o resultado de uma operação de inteligência prolongada e infiltrativa. Meses antes do ataque, a CIA já tinha agentes atuando clandestinamente no solo venezolano . O ponto crucial foi o recrutamento de uma fonte infiltrada no alto escalão do governo de Maduro, que forneceu informações precisas sobre seus padrões de vida e localização . Esta fonte foi decisiva para o sucesso da operação, sendo claramente beneficiada pela recompensa de US$ 50 milhões oferecida pelos EUA por informações que levassem à captura do presidente .

Este episódio aprofundou um clima generalizado de desconfiança e alarmismo dentro do aparelho de Estado e entre a população. A revelação de que houve um "traidor" no núcleo duro do chavismo alimenta narrativas de espionagem e traição à pátria, justificando, em tese, uma maior vigilância interna e repressão. A acusação de "traição à pátria" não é nova no léxico do regime venezuelano – foi usada, por exemplo, para prender a ativista Rocío San Miguel em 2024 – mas ganha um peso explosivo em um contexto de guerra real e intervenção estrangeira.

O governo interino de Delcy Rodríguez, instalado após a captura de Maduro, enfrenta o desafio de navegar este clima tenso enquanto tenta estabilizar o país sob a tutela americana. Um de seus primeiros atos foi anunciar a libertação de um "número significativo" de presos políticos, incluindo San Miguel e o ex-candidato Enrique Márquez, num gesto descrito como "unilateral" para a "convivência pacífica" . Analistas veem a medida como uma tentativa de acalmar os ânimos internos e atender a uma das fases do plano de transição desenhado pelos EUA .

Narcotráfico, Petróleo e o "Corolário Trump"

A justificativa pública dos Estados Unidos para a intervenção centrou-se no combate ao narcoterrorismo. A administração Trump designou organizações criminosas venezuelanas, como o Tren de Aragua e o Cártel de los Soles – este último alegadamente liderado pelo próprio Maduro – como organizações terroristas estrangeiras, o que forneceu o arcabouço legal para ações militares . No entanto, analistas e observadores internacionais veem motivações mais profundas e geopolíticas por trás da operação.

A mais explícita delas é o controle sobre as vastas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. Imediatamente após a captura de Maduro, Donald Trump afirmou que os Estados Unidos "irão governar a Venezuela" rumo a uma transição e que estarão "muito implicados" na exploração do petróleo venezolano . Ele chegou a declarar que o país "tomará controle" das reservas de petróleo e recrutará empresas americanas para investir bilhões na revitalização da deteriorada indústria petrolífera nacional . Esse interesse é estratégico, pois o petróleo pesado venezuelano é valioso para a produção de diesel e outros derivados específicos .

Especialistas em relações internacionais interpretam essa ação como a manifestação de um novo e alarmante padrão de intervencionismo na América Latina, que resgata e atualiza a Doutrina Monroe. Alguns o chamam de "Corolário Trump": uma combinação da antiga doutrina que via o hemisfério ocidental como esfera de influência dos EUA com a lógica do "policial regional" que intervém para proteger interesses nacionais, que agora incluem o combate a ameaças transnacionais como o narcotráfico e o controle de recursos estratégicos .

Um Futuro Incerto: Transição Tutelada e Fragmentação do Poder

Com Maduro preso em Nova York, a estrutura de poder na Venezuela entra em um período de reconfiguração profunda e incerta. A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu como presidente encarregada, com o aval do Tribunal Supremo de Justiça, que citou a "ausência forçosa" de Maduro . Seu mandato, nos termos constitucionais, pode durar até 90 dias, prorrogáveis por mais 90, até que a Assembleia Nacional decida se declara uma "falta absoluta" do presidente, o que desencadearia a convocação de novas eleições .

No entanto, essa transição ocorre sob uma tutela explícita dos Estados Unidos. O secretário de Estado Marco Rubio delineou um plano de três fases para o país: estabilização, recuperação (com anistias e reconstrução da sociedade civil) e, por fim, transição política . O próprio Trump afirmou que os EUA permanecerão como "tutores políticos na Venezuela por 'muito mais tempo'" . Esse cenário levanta questões fundamentais:

  • Coesão do Chavismo: O poder dentro do chavismo historicamente foi dividido entre várias figuras. Agora, o foco está em Delcy Rodríguez, seu irmão Jorge (presidente da Assembleia), o ministro da Defesa Vladimir Padrino e o poderoso ministro do Interior, Diosdado Cabello . A lealdade destes setores à nova liderança, e sua habilidade em controlar grupos armados pró-governo (os "coletivos"), será crucial para a estabilidade .
  • Legitimidade e Eleições: Analistas são céticos quanto à possibilidade de eleições livres e justas no curto prazo, dada a desestruturação dos partidos políticos, o exílio de muitos líderes e o trauma social . A transição parece ser um processo lento ("pétalo a pétalo"), gerenciado a partir das próprias estruturas do regime, e não uma ruptura brusca .
  • Soberania Violada: A ação militar é amplamente vista como uma violação flagrante do direito internacional e da Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial de um Estado . Isso estabelece um precedente perigoso para a região e deixa a Venezuela em uma posição de fragilidade soberana extrema.

A Venezuela acorda a cada dia em um estado de exceção que vai além da legalidade formal, permeado pelo trauma dos bombardeios, pela desconfiança alimentada pela espionagem interna bem-sucedida e pela sombra longa de uma potência estrangeira que agora decide, abertamente, os rumos do país. O caminho à frente é nebuloso, marcado pela dor das dezenas de famílias que perderam entes queridos em uma madrugada de janeiro e pela incerteza de uma nação cujo destino, por ora, parece ter sido sequestrado junto com seu presidente.

Com informações de Wikipedia, BBC News, O Globo/The New York Times, CNN, Agência Pública, e The Conversation.

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