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O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, reacendeu as tensões no país nesta semana ao denunciar publicamente a existência de um suposto plano coordenado pelo Poder Executivo para efetuar sua "detenção ilegal" e subsequente extradição aos Estados Unidos. A acusação, que ecoa na imprensa sul-americana e global, não é um fato novo no conturbado cenário político boliviano, mas surge revestida de detalhes operacionais e com um prazo limite: até 13 de junho, conforme supostas ordens do ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, que teria dito em reuniões de gabinete: “Comigo Evo até 13 de junho, detido ou morto”.
Morales, que permanece resguardado por seguidores na região cocalera do Trópico de Cochabamba, afirmou que a operação, batizada de Delta Ñ, envolveria o coronel Edson Rojas e o major Ayala, com apoio de agências norte-americanas. O suposto esquema incluiria rotas de transferência a partir do aeroporto de Viru Viru, com escalas em Buenos Aires ou Lima, e destino final em Washington, o que configuraria, em sua visão, uma extradição forçada contra o primeiro presidente indígena do país.
A denúncia de Morales não ocorre no vazio. O ex-mandatário vinculou o plano de captura a uma ofensiva mais ampla do governo de Rodrigo Paz contra a mobilização social. A alvo central das críticas é a nova Lei de Regulação dos Estados de Exceção, que Morales classificou como uma “licença para matar abertamente”, substituindo a Lei 1341, que, segundo ele, garantia direitos fundamentais. O país vive uma escalada de protestos, com 74 pontos de bloqueio de estradas em cinco departamentos, paralisando vias cruciais em Cochabamba e La Paz.
As organizações camponesas e movimentos sociais que apoiam Morales complementaram a denúncia, afirmando que o verdadeiro objetivo da perseguição não é apenas neutralizar a liderança do ex-presidente, mas sim desarticular a resistência das comunidades para facilitar o controle externo dos recursos naturais da Bolívia, em especial o lítio. Essa narrativa insere a crise interna em uma disputa geopolítica maior, explorando o temor histórico da ingerência estrangeira na região.
Do lado do governo, a resposta tem sido tão enérgica quanto as acusações. O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, acusou Morales e seus aliados de estarem “vinculados ao narcotráfico” para financiar a onda de protestos que visa desestabilizar o governo de Rodrigo Paz. O presidente Paz endureceu o discurso, afirmando que aqueles que tentam “destruir a democracia” irão para a prisão.
O governo boliviano já havia sinalizado sua intenção de buscar informações nos Estados Unidos sobre um suposto nexo de Evo Morales com redes de narcotráfico. O viceministro de Régimen Interior, Hernán Paredes, declarou que seriam solicitados dados sobre ex-chefes antidrogas do governo Morales que já foram extraditados e processados nos EUA. Este movimento reforça a disposição de La Paz em aprofundar a cooperação com Washington, um contraste radical com a gestão de Morales, que expulsou a DEA e a USAID do país.
Nesse contexto, o retorno da cooperação em inteligência entre os EUA e a Bolívia para o combate ao narcotráfico, retomada sob a gestão de Paz Zamora, serve como pano de fundo para as acusações de Morales. A reaproximação com a agência antidrogas norte-americana, vista com desconfiança pelos setores de esquerda, alimenta a tese de que Washington teria interesse direto na eliminação da principal liderança indígena do país.
A denúncia de Evo Morales, independentemente da veracidade de todos os seus detalhes operacionais, é um movimento eficaz em vários aspectos. Primeiro, internacionaliza o conflito, colocando a administração de Rodrigo Paz sob escrutínio global e atraindo a solidariedade de movimentos de esquerda. Segundo, ao se apresentar como vítima de uma trama estrangeira, fortalece sua própria base de apoio no país, que já se mantém mobilizada há semanas.
Por outro lado, o governo de Rodrigo Paz capitaliza a seu favor o desgaste judicial de Morales, que já responde a processos por supostos crimes graves, como o aliciamento de menores. A estratégia governamental de associar a liderança do MAS ao narcotráfico visa esvaziar sua legitimidade política e justificar uma linha dura de segurança pública.
O que se desenha na Bolívia é um impasse perigoso. As denúncias servem como combustível para uma polarização que se expressa nas ruas por meio de bloqueios e pode, em breve, transbordar para uma crise institucional irreversível, caso a promessa de captura do ex-presidente se confronte com a resistência armada de seus seguidores.
Com informações de> Brasil 247, teleSUR, Tercera Información, Correio de Corumbá e Pantanal, ANF - Agência de Notícias Fides, Prensa Latina, Notibrasil, The Seattle Times, KSL News ■