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A expressão "o dinheiro do tráfico está em solo americano" ganhou um significado explosivo nos últimos dias. A Polícia Federal (PF) do Brasil, em investigações que combinam a Operação Compliance Zero e análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obteve provas robustas de que parte dos R$ 61 milhões enviados pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, têm origem em esquemas de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). A teia financeira, composta por quatro camadas — REAG, Gold Style, Entre Investimentos e finalmente Havengate —, demonstra que o dinheiro do narcotráfico alimentou não apenas a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (Dark Horse), mas também, segundo a PF, o autoexílio luxuoso do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A gravidade da situação para as autoridades americanas é inédita e alarmante. No dia 5 de junho de 2026, entrou em vigor a decisão do Departamento de Estado dos EUA, sob a gestão do secretário Marco Rubio, de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês), em atendimento a meses de lobby do senador Flávio Bolsonaro junto ao ex-presidente Donald Trump. Agora, o FBI foi oficialmente comunicado pela Polícia Federal de que nada menos que US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) de dinheiro possivelmente vinculado a essa organização terrorista encontram-se dentro do sistema financeiro norte-americano, sob a custódia de um fundo administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, e por Altieris Santana, indicado por Eduardo. O FBI, portanto, se vê diante de um cenário explosivo: dinheiro de uma facção criminosa classificada como terrorista está dentro do país, e há fortes indícios de que esse montante tenha bancado despesas de um ex-parlamentar estrangeiro que agora reside no Texas.
A situação jurídica de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos é potencialmente catastrófica. Vejamos as possíveis acusações e as respectivas penas previstas na legislação americana:
A combinação dessas acusações poderia levar a uma pena superior a 30 anos de reclusão, calculada pelo acúmulo de ofensas (por exemplo, 20 anos pelo suporte material + 20 anos pela lavagem de dinheiro, a serem cumpridos consecutivamente). O cálculo das penas segue as diretrizes federais de sentenciamento dos EUA, que preveem aumentos significativos quando crimes de colarinho branco são praticados com o propósito de financiar o terrorismo, podendo elevar a pena-base para até 20 anos adicionais. Em casos de terrorismo, as cortes americanas têm aplicado as penas máximas previstas em lei.
E o que ocorreria se Eduardo Bolsonaro, como é previsível, recusasse a extradição para o Brasil e decidisse responder pelos crimes em solo americano? A situação se tornaria ainda mais grave. Uma vez nos EUA, ele estaria sujeito às leis americanas de terrorismo, que, como vimos, podem levar a penas de décadas. No entanto, há um fator agravante crucial: a ausência de um tratado de extradição entre Brasil e EUA que impeça a extradição de brasileiros natos (a Constituição brasileira veda a extradição de brasileiros natos). Nesse caso, os EUA não poderiam extraditá-lo para o Brasil, mas poderiam processá-lo internamente por crimes contra a lei americana. E, se condenado por terrorismo em solo americano, a situação piora exponencialmente. A lei 18 U.S.C. § 2339B prevê a prisão perpétua se a conduta resultar na morte de qualquer pessoa, o que não parece ser o caso. Contudo, o Departamento de Justiça americano, em casos de alto perfil envolvendo terrorismo e lavagem de dinheiro, tem recorrido à aplicação de penas de prisão perpétua como forma de desestimular a conduta, independentemente da morte de alguém. Isso ocorre porque a combinação das ofensas — fornecer suporte material a uma FTO, conspiração e lavagem de dinheiro —, quando julgadas sob as diretrizes federais de sentenciamento, pode resultar em uma sentença de "life imprisonment" (prisão perpétua). Especialistas consultados pela imprensa indicam que, mesmo que a extradição seja recusada, Eduardo Bolsonaro não escaparia de uma condenação severa nos EUA, com penas que podem variar de 30 anos a prisão perpétua, dependendo da interpretação judicial sobre a gravidade da conduta e o montante envolvido.
A ironia é avassaladora. Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir a Trump e Rubio que classificassem o PCC e o CV como terroristas, numa tentativa de angariar capital político para sua campanha presidencial e de pressionar o governo Lula. O feitiço virou contra o feiticeiro. Agora, a PF, ao comunicar formalmente o FBI sobre a teia financeira, entregou às autoridades americanas um prato cheio: dinheiro de uma organização terrorista dentro dos EUA, lavado e usado para financiar a vida de um ex-parlamentar brasileiro no Texas. O "pedido" dos irmãos Bolsonaro pela classificação terrorista pode ter sido, na prática, um pedido para que decretassem as próprias prisões. O FBI, por sua vez, tem sob sua jurisdição um caso de terrorismo em solo nacional — e a pressão sobre a Casa Branca para que o governo Trump demonstre seriedade no combate ao terrorismo pode resultar em uma ação drástica contra Eduardo Bolsonaro. As próximas semanas serão decisivas para desvendar se o dinheiro do PCC que financia o Dark Horse levará seu principal beneficiário a passar uma longa temporada em um presídio federal americano, tornando real a espetacular e cruel ironia de que a luta contra o terrorismo pode começar em casa.
Com informações de: BBC News Brasil, G1, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, Brasil de Fato, Intercept Brasil, UOL, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, A Pública, Metrópoles, O Povo, Poder360, Terra, Extra, TV Pampa, Primeiro Jornal, CBN, O Estado de S. Paulo, O Globo, Bahia Notícias, Hora do Povo, Gazeta do Povo, InfoMoney, O Mossoroense, Mais Goiás, A Tarde, Planta Brasil, Conjur, Juri News, Meio News, Antagonista, Veja ■