Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Kassio Nunes suspende divulgação de pesquisa da AtlasIntel
Medida, motivada por ação movida pelo PL ao TSE, é encarada como censura por especialistas
Politica
Foto: https://www.brasildefato.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Nunes-Marques_20.06.2024-Andressa-Anholete-1-scaled-1.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 09/06/2026

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou nesta segunda-feira (8 de junho) a suspensão imediata da divulgação da pesquisa do Instituto AtlasIntel que registrou uma queda significativa nas intenções de voto do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A decisão liminar, que na prática censurou o levantamento, foi tomada em atendimento a um pedido do próprio Partido Liberal (PL) e será submetida a referendo do plenário do TSE, com previsão de julgamento já nesta terça-feira (9).

A pesquisa, divulgada em 19 de maio sob o registro BR-06939/2026, foi a primeira sondagem realizada após a divulgação de áudios em que Flávio Bolsonaro cobra pagamentos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O levantamento apontou um impacto eleitoral imediato e negativo:

  • Queda de 6 pontos percentuais de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passou a liderar com 48,9% das intenções de voto contra 41,8% do senador.
  • No primeiro turno, Lula aparecia com 47% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro registrava 34,3%.
  • A rejeição ao senador atingiu 52%, o maior índice entre os pré-candidatos, superando numericamente a rejeição a Lula, que ficou em 50,6%.

Na decisão que determinou a retirada da pesquisa do ar, Nunes Marques argumentou que há "suspeitas de indução ao eleitor" nas perguntas formuladas pelo instituto. O ministro acolheu as alegações do PL, que sustentava que o questionário foi "estruturado de forma a induzir gravemente uma percepção negativa" sobre Flávio. De acordo com o partido, das 49 perguntas aplicadas, oito tratavam diretamente do Banco Master e do caso Vorcaro, apresentadas de forma sequencial para criar uma narrativa capaz de influenciar a percepção dos participantes antes das questões sobre intenção de voto.

Nunes Marques citou ainda uma entrevista concedida pelo CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, à CNN Brasil no dia da divulgação da pesquisa, na qual ele afirma que o áudio de Flávio seria "muito problemático para a imagem" do pré-candidato e revelaria "fatos extremamente graves", capazes de comprometer a viabilidade de sua candidatura. Para o magistrado, o executivo teria reconhecido o "viés político do conteúdo submetido aos entrevistados".

A suspensão da pesquisa gerou forte reação da comunidade acadêmica e de especialistas no setor. João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública (COP) da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), classificou a medida como um "ato de censura" e "inconstitucional". Com 40 anos de experiência no setor, Meira afirmou:

  • "Não há previsão constitucional para suspender a publicação de uma pesquisa. Isso é inconstitucional e fere a liberdade de divulgação de pesquisas."
  • "E além de lamentável do ponto de vista ético e normativo, a decisão é inútil do ponto de vista prático, já que a pesquisa já é de domínio público."

O próprio Instituto AtlasIntel reagiu à decisão. Em nota, a empresa informou que respeita a determinação judicial, mas destacou que a situação será devidamente esclarecida a partir da análise técnica dos fatos e da metodologia empregada. O CEO Andrei Roman foi mais incisivo em publicação na rede social X: "Vamos recorrer sim. A nota para imprensa afirma que respeitamos a decisão. Isso é muito diferente de concordar com a decisão ou não recorrer dela. Vamos recorrer e confiamos no plenário do TSE para fazer uma justa aplicação da lei".

A AtlasIntel também esclareceu aspectos de sua metodologia, afirmando que o áudio envolvendo Flávio Bolsonaro não foi reproduzido durante a aplicação do questionário principal. Segundo o instituto, somente após o encerramento definitivo das perguntas e sem qualquer possibilidade de retornar às perguntas anteriores ou alterar as respostas já registradas é que os participantes eram redirecionados para uma página separada, onde podiam registrar suas reações enquanto ouviam o material.

Além da controvérsia metodológica, a decisão de Nunes Marques levantou questionamentos sobre possível conflito de interesse. Reportagens apontaram que o ministro alterou as regras internas do TSE para assumir a relatoria do processo movido por Flávio Bolsonaro contra a AtlasIntel. Três dias após a ação ser protocolada, Nunes Marques editou uma resolução que dividiu a relatoria de casos de propaganda eleitoral, até então concentrada na ministra Estela Aranha, também incluindo o presidente da Corte e o vice-presidente André Mendonça. Com a mudança, um novo sorteio foi realizado e o processo caiu nas mãos de Nunes Marques.

O caso representa um teste importante para a atuação do TSE no processo eleitoral de 2026, especialmente em um contexto de tensão entre a liberdade de imprensa, o direito à informação do eleitor e os limites da regulação das pesquisas eleitorais. A decisão do plenário do Tribunal Superior Eleitoral, que será tomada nos próximos dias, poderá definir um precedente relevante para a conduta da Corte durante toda a campanha presidencial.

Com informações de O Dia, Diário do Centro do Mundo, Veja, Revista Fórum, CNN Brasil, O Globo, CBN, Estadao, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, InfoMoney e Poder360 ■

Mais Notícias