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O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) determinou a adoção de um material didático de viés exclusivamente pró-Israel em todas as escolas da rede pública estadual de São Paulo, sob o argumento de combater o antissemitismo. A decisão, que não passou por qualquer debate com a comunidade escolar, vem sendo alvo de duras críticas de educadores, especialistas e entidades que apontam um caráter autoritário e ideológico na medida, que transformaria a educação pública em instrumento de propaganda do governo israelense.
O material, denominado “Circuito Educacional: Antissemitismo, Passado, Presente e Futuro”, foi produzido pela organização StandWithUs Brasil – uma ONG internacional identificada como parte do “lobby educacional sionista” – e encaminhado oficialmente às unidades escolares por meio de ofício da Secretaria da Educação. De acordo com a circular obtida com exclusividade pelo portal Diário do Centro do Mundo, a orientação é que o conteúdo seja inserido no cotidiano escolar, com apresentações em PowerPoint, debates e a produção de minidocumentários pelos alunos do ensino médio.
O ponto central da controvérsia está na ausência total de referências à invasão dos territórios palestinos, à expansão dos assentamentos israelenses, às reiteradas violações de direitos humanos apontadas por organismos internacionais e a qualquer interpretação palestina sobre a origem e a continuidade do conflito.
“Tentativa de lavar a imagem de Israel”
O professor da Faculdade de Educação da USP, Daniel Cara, foi enfático ao criticar a iniciativa: “É claro que nós somos contra toda forma de xenofobia ou racismo, é claro que não somos antissemitas, mas isso é uma tentativa de lavar a imagem do Estado de Israel e da violência do sionismo através do governo paulista”. Para ele, ao invés de promover a pluralidade de ideias, o governo investe em uma narrativa única e alinhada aos interesses de um governo estrangeiro.
Lideranças de professores da rede pública também denunciaram o que classificam como uma imposição autoritária. Em relatos publicados pelo site Esquerda Diário e repercutidos por outros veículos, os educadores afirmam que a cartilha foi introduzida sem qualquer debate com a comunidade escolar e que seu conteúdo busca “infiltrar narrativas pró-Israel, deslegitimar denúncias e intimidar qualquer posicionamento crítico” sobre as ações do governo israelense.
ONG alinhada ao governo de extrema-direita de Israel
A StandWithUs é uma organização fundada nos Estados Unidos e que atua globalmente na promoção de uma imagem positiva do Estado de Israel. No Brasil, é presidida pelo cientista político André Lajst, figura frequente na mídia para defender as posições do governo israelense. A própria entidade assume sua missão de “disseminar informação de qualidade a respeito do país e do conflito israelo-palestino, a fim de combater o preconceito, a desinformação e o antissionismo” – equiparando, portanto, a crítica ao Estado de Israel ao antissemitismo.
O material didático utiliza como principal referência o livro “Cartas ao meu vizinho palestino”, do israelense-americano Yossi Halevi, que foi soldado das Forças de Defesa de Israel e já declarou, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que “não é hora de falar de paz, precisamos defender o Estado de Israel”. A iniciativa também ignora completamente as resoluções da ONU e os relatórios de entidades como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que já classificaram as políticas israelenses como “apartheid”.
Histórico de aproximação com Israel
A adoção da cartilha se insere em um contexto mais amplo de alinhamento do governador Tarcísio de Freitas com o governo de extrema-direita de Benjamin Netanyahu. O governador já esteve em Israel ao lado de Netanyahu, participou de uma marcha religiosa carregando a bandeira israelense e enviou uma comitiva de servidores ao país em missão oficial para se contrapor à posição do governo Lula. O próprio Tarcísio já declarou publicamente estar “orando por Israel” e assinou a adesão do estado de São Paulo à definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA), alvo de críticas por equiparar antissionismo ao antissemitismo.
Reações contrárias se multiplicam
Além das denúncias de professores, a decisão também foi alvo de críticas durante atos pró-Palestina realizados em São Paulo. Em manifestação ocorrida em agosto de 2025, a presidente estadual da Unidade Popular (UP), Vivian Mendes, afirmou que “o governo Tarcísio tem uma cartilha educacional que reproduz a propaganda sionista e esteve apertando as mãos de genocidas sionistas”. O mesmo ato denunciou a influência do lobby sionista sobre a política educacional paulista.
A Confederação Israelita do Brasil (Conib), por sua vez, saiu em defesa da iniciativa, ressaltando sua importância para o combate ao antissemitismo e aos extremismos. A entidade destacou ainda que o circuito educacional já havia sido implantado em caráter piloto em 2023, envolvendo mais de 100 escolas, e que a meta é expandi-lo para toda a rede.
Críticas também à falta de pluralidade e ao método de imposição
Para os opositores da medida, o cerne da questão não está no combate ao antissemitismo – prática que todos repudiam –, mas na forma enviesada e unilateral como o tema é tratado. Além disso, a imposição vertical do material, sem consulta a professores, estudantes ou à comunidade escolar, fere princípios básicos da gestão democrática do ensino e reduz a complexidade do conflito no Oriente Médio a uma visão propagandística.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo não se manifestou oficialmente sobre as denúncias até o fechamento desta edição. A pasta reitera, em comunicados anteriores, que o projeto tem caráter exclusivamente educacional e visa oferecer ferramentas para a construção de um ambiente escolar mais acolhedor e livre de preconceitos.
Conclusão: quando o combate ao preconceito vira propaganda de guerra
A iniciativa do governo Tarcísio escancara os limites entre o legítimo combate ao antissemitismo e a utilização da máquina pública para difundir uma agenda política alinhada aos interesses do governo de extrema-direita de Israel. Ao suprimir a visão palestina e ignorar décadas de violações de direitos humanos, o governo paulista transforma a escola em trincheira ideológica e instrumentaliza o sofrimento histórico do povo judeu para justificar um projeto de colonização, racismo e guerra.
Riscos para a liberdade de ensinar e a formação crítica dos alunos
A imposição de uma cartilha que apresenta um dos lados do conflito como o único correto, ao mesmo tempo que silencia todas as críticas ao Estado de Israel, fere a liberdade de ensino e a pluralidade de ideias. Em vez de preparar os jovens para o exercício da cidadania e do pensamento crítico, a medida os expõe a uma narrativa manipulada e comprometida com interesses geopolíticos alheios aos do povo brasileiro.
O silêncio da grande imprensa e a urgência do debate público
Apesar da gravidade das denúncias e do potencial impacto sobre mais de 3 milhões de alunos da rede estadual, a cobertura da grande imprensa sobre o caso foi, até o momento, limitada. A exceção fica por conta da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, que noticiou o projeto em setembro de 2023, antes mesmo da escalada do atual conflito em Gaza. Desde então, o silêncio dos principais veículos sobre a imposição da cartilha contrasta com a repercussão internacional que o caso merece e com a urgência de se debater os rumos da educação pública no país.
Enquanto isso, o governo Tarcísio segue sua escalada autoritária na educação, apostando na desmobilização do pensamento crítico e na transformação das escolas em aparelhos de propaganda de um governo estrangeiro. Cabe à sociedade civil, aos educadores e à imprensa livre denunciar essa investida e cobrar do poder público o respeito à pluralidade de ideias e à democracia dentro das salas de aula.
Com informações de Folha de S.Paulo, UOL, O Estado de S.Paulo, Confederação Israelita do Brasil (Conib), Diário do Centro do Mundo, Esquerda Diário, Opera Mundi, Poder360 e Brasil de Fato ■