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A dois dias do apito inicial da Copa do Mundo de 2026, o torneio que deveria celebrar a união entre três países – Canadá, Estados Unidos e México – tornou-se palco de uma controvérsia diplomática e humanitária. O governo de Donald Trump, que há meses endurece o controle migratório, agora é acusado de usar o maior evento esportivo do planeta para impor uma agenda de exclusão nacionalista. A negação de entrada ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan – eleito o melhor árbitro africano de 2025 – somada ao cancelamento sumário da cota de ingressos destinada a torcedores iranianos escancara um padrão de obstrução que atinge, de forma desproporcional, cidadãos de países africanos e do Oriente Médio. A seguir, os detalhes da reportagem.
O árbitro africano barrado após voo de 11 horas
O somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional de Miami no sábado (6) com um visto válido emitido na Turquia e a expectativa de integrar o seleto grupo de 52 árbitros da Fifa na Copa. Histórico: ele seria o primeiro somali a apitar uma partida de Copa do Mundo. Em vez do acolhimento, foi submetido a uma inspeção adicional de 11 horas pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) e, ao final, declarado “inadmissível” devido a “preocupações de verificação” – sem que qualquer detalhe fosse revelado.
“Negar a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de trabalhar prejudica não apenas ele pessoalmente, mas também mina o compromisso do futebol com a equidade, o mérito e o espírito do fair play”, afirmou Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália e ex-capitão da seleção nacional. A Fifa, por sua vez, limitou-se a declarar que não se envolve em processos migratórios e que “o governo anfitrião determina, em última análise, quem recebe o visto e quem tem a entrada permitida”.
A sombra da proibição de viagens e da deportação coletiva
O impedimento a Artan não é um episódio isolado. A Somália está na lista de 39 países que, desde novembro de 2025, foram alvo das medidas restritivas impostas por Trump – uma verdadeira proibição de viagens que a administração republicana vinha ampliando continuamente. Em dezembro de 2025, Trump classificou o país africano como um “país podre” e manifestou publicamente a intenção de acabar com proteções que dificultavam a deportação de somalis. No início de 2026, o governo americano encerrou o Status de Proteção Temporária (TPS) para cerca de quatro mil somalis, forçando-os a deixar o país.
A política de deportações em massa – que inclui a ameaça de usar a Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798, a mesma que internou japoneses em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial – afeta diretamente o Mundial. Estima-se que quase 11,7 milhões de pessoas vivam hoje em situação irregular nos Estados Unidos, e a meta de Trump é deportar ao menos três milhões. “O governo federal não pode eliminar caminhos de imigração legais ou discriminar pessoas com base em seu país de origem”, criticou Skye Perryman, presidente da organização Democracy Forward, que representa vítimas das políticas restritivas em ações judiciais.
Torcedores iranianos no limbo: ingressos cancelados e hospedagem no México
Paralelamente, a federação iraniana denunciou na terça-feira (9) que o governo Trump revogou a cota de 8% dos ingressos destinada aos seus torcedores – o equivalente a milhares de entradas. A decisão, tomada sem aviso prévio, inviabiliza a presença de fãs que já haviam feito planos de viagem. “Este incidente levanta sérias questões sobre a influência de considerações não esportivas e políticas na organização do maior evento de futebol do mundo”, afirmou a Federação Iraniana de Futebol (FFIRI).
O cerco aos iranianos, no entanto, começou bem antes. Além da suspensão dos ingressos, a delegação da seleção do Irã recebeu vistos de um dia, sem direito a pernoite em território americano, sendo obrigada a se alojar em Tijuana, no México, e cruzar a fronteira a cada jogo. A situação ocorre em meio a um agravamento das hostilidades entre os dois países, que inclui ataques militares dos EUA contra o Irã em fevereiro de 2026. Ainda que Donald Trump tenha declarado recentemente estar “próximo de um acordo final com o Irã”, as medidas na prática isolam ainda mais o país.
Lista crescente de excluídos e o silêncio ensurdecedor da Fifa
O caso de Omar Artan e dos torcedores iranianos não é uma exceção, mas parte de uma lista crescente de vítimas das barreiras migratórias dos EUA. Conforme apurou a reportagem, jogadores e dirigentes de outras nacionalidades também têm sido alvo de dificuldades:
Em todos os casos, a Fifa adotou uma postura de distanciamento, repetindo o argumento de que “as autoridades dos países-sede têm a última palavra sobre a concessão de vistos”. A entidade, que em 2022 criticou duramente a exclusão de torcedores e jornalistas na Copa do Catar, agora se cala diante das barreiras impostas por Washington – silêncio que contrasta com os milhões de dólares que arrecada com os direitos de transmissão nos Estados Unidos.
A judicialização do preconceito e a reação mundial
As medidas da administração Trump, no entanto, não têm passado incólumes ao Judiciário americano. Na última sexta-feira (5), um juiz federal de Rhode Island suspendeu restrições que impediam cidadãos de 39 países de obter respostas sobre pedidos de asilo, autorizações de trabalho, green cards e naturalização. O magistrado afirmou que as políticas usavam a segurança nacional como pretexto para preconceito.
Internacionalmente, a reação não foi diferente. Organizações de direitos humanos apontam que a suspensão da cota iraniana e a deportação de Artan são violações do espírito olímpico e dos princípios fundamentais do esporte. A revista britânica The New Republic classificou a medida como um reflexo de “políticas agressivas anti-imigração que arriscam ofuscar completamente o evento”. No Brasil, o jornal Correio Braziliense destacou que “a ação dos norte-americanos prejudicará principalmente iranianos que já tinham planos para a viagem”.
Esperança perdida e o risco à credibilidade do esporte
Para Omar Abdulkadir Artan, o sonho de apitar uma Copa do Mundo desmoronou em uma sala de interrogatório em Miami. “Estou muito, muito decepcionado. Eu sou apenas um árbitro tentando realizar meu sonho – o maior sonho da minha vida”, declarou ao The New York Times, após retornar a Istambul. O episódio não apenas frustra uma carreira brilhante, mas também envia uma mensagem clara a atletas e oficiais de todo o mundo: no território governado por Donald Trump, o mérito profissional pode ser suplantado pela origem do passaporte.
Às vésperas da abertura da Copa, o que deveria ser um festival de integração transforma-se em um divisor de águas. Resta saber se a comunidade internacional, as federações e os patrocinadores do evento aceitarão silenciosos essa transformação do esporte em palco de exclusão política.
Com informações de Agence France-Presse (AFP), Associated Press (AP), BBC News Brasil, Reuters, Folha de S.Paulo, UOL, The New Republic, Global News, Yahoo Sports UK, The Conversation, Jovem Pan News, Correio Braziliense, Revista Fórum, IHU Unisinos, Democracy Forward, Bloomberg Law, Daily Mail, The Mirror, Hindustan Times, BBC News Mundo, The Guardian, CNN Brasil, RFI, Opera Mundi, A Pública, Brasil de Fato, Rede PT, NBC Bay Area, France 24, RTHK, Daily Trust, Hindustan Times, Herald Scotland, Foot Africa, Press TV, 112.ua, DW, Euronews, Poder360■