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EUA definem facções brasileiras como terroristas globais
Designação anunciada por Marco Rubio é criticada por democratas e pelo governo Lula, que vê risco de escalada militar dos EUA na região e interferência nas eleições de outubro
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 28/05/2026

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou nesta quinta-feira (28) que o governo americano classificará oficialmente duas das maiores organizações criminosas do Brasil como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). A medida, que entra em vigor no dia 5 de junho, foi anunciada por Rubio em sua conta na plataforma X e motivou uma série de reações no Brasil e nos Estados Unidos.

Segundo o comunicado do Departamento de Estado, as duas facções – que optamos por não nomear, atendendo à recomendação editorial – “são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil” e sua “influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e para dentro do nosso país”. O texto do governo americano afirma que os grupos “comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros”.

Consequências práticas e arsenal legal

A inclusão na lista de organizações terroristas estrangeiras aciona um conjunto rigoroso de sanções previstas na legislação americana, que incluem:

  • Congelamento de ativos: quaisquer bens ou recursos financeiros das facções sob jurisdição americana podem ser imediatamente bloqueados;
  • Proibição de transações comerciais: cidadãos e empresas dos EUA ficam impedidos de realizar negócios com as organizações listadas;
  • Sanções criminais: o fornecimento de “apoio material” – como armas, dinheiro, treinamento ou assistência logística – a grupos designados como FTOs torna-se crime federal, com penas severas;
  • Restrições migratórias: membros e associados podem ter vistos negados ou ser deportados.

A medida também abre caminho para ações de inteligência e cooperação internacional mais agressivas, incluindo a possibilidade de operações militares unilaterais – uma das principais fontes de tensão diplomática entre os dois países.

Risco de intervenção militar e temor de precedente

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com apreensão à decisão americana. A principal preocupação da diplomacia brasileira é que a classificação sirva de justificativa para operações militares dos Estados Unidos em território brasileiro ou em áreas de fronteira, como já ocorreu com a Venezuela.

Em julho de 2025, após a designação do Cartel de los Soles como organização terrorista, os EUA iniciaram uma campanha de ataques navais contra embarcações venezuelanas acusadas de narcotráfico no Mar do Caribe. Em janeiro de 2026, forças especiais americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro, que havia sido indiciado por narcoterrorismo. O temor do Itamaraty é que esse “roteiro de designação-ação” seja replicado no Brasil.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já havia telefonado a Marco Rubio no último mês para tentar barrar a decisão. Segundo fontes do governo, Vieira argumentou que a designação poderia abrir precedentes perigosos de interferência externa e que o caminho para o combate ao crime organizado deve ser a cooperação policial, não a rotulagem terrorista. O governo brasileiro também reforça que, pela Lei Antiterrorismo brasileira (Lei 13.260/2016), as facções não se enquadram na definição legal de terrorismo, que no Brasil exige comprovação de motivação política, ideológica, religiosa ou de xenofobia – características que não estão associadas aos grupos criminosos.

Reação de democratas nos EUA: carta de alerta e críticas

A decisão também provocou reações no próprio cenário político americano. Um grupo de sete deputados democratas enviou uma carta a Marco Rubio alertando que a classificação poderia ser “contraproducente e prejudicial às relações entre os EUA e o Brasil”. No documento, os parlamentares afirmam temer que a medida seja utilizada para influenciar indevidamente as eleições presidenciais brasileiras, marcadas para outubro.

“Essa preocupação é amplificada pelo longo e problemático histórico de intervenção dos EUA no Brasil, incluindo o apoio documentado à ditadura militar após o golpe de 1964”, escreveram os democratas. Os deputados sugeriram que o governo americano utilize canais diplomáticos e policiais já estabelecidos em vez de recorrer à designação terrorista, que consideram “instrumentalização excessiva da lei antiterrorismo”.

Lobby bolsonarista e interferência eleitoral

Relatos da imprensa internacional apontam que a decisão de Rubio foi influenciada por um lobby direto dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro – que cumpre prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, teria se reunido com Marco Rubio e com o vice-presidente JD Vance em Washington na véspera do anúncio. Segundo fontes do governo brasileiro, o Planalto enxerga a medida como parte de uma estratégia para desgastar Lula em ano eleitoral, associando-o a uma suposta “brandura no combate ao crime”.

O presidente Lula, por sua vez, telefonou nos últimos dias para a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e para o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ambos líderes de países que tiveram seus cartéis classificados como terroristas por Washington. A intenção era articular uma resposta conjunta da esquerda latino-americana à ofensiva americana.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, embora o governo Trump tenha classificado mais de uma dúzia de cartéis e grupos criminosos latino-americanos desde o início do mandato, a inclusão das facções brasileiras é particularmente delicada. “As facções brasileiras não desempenham um papel relevante no tráfico de drogas para os Estados Unidos – seus fluxos de cocaína se destinam prioritariamente à Europa”. A motivação real para a designação, portanto, estaria menos ligada à segurança nacional americana e mais à geopolítica e às alianças domésticas do governo Trump.

Entenda o que muda: terrorismo x crime organizado

A distinção entre “organização criminosa” e “organização terrorista” não é meramente simbólica. Ela carrega consequências jurídicas e políticas profundas. O professor de relações internacionais Maurício Santoro, citado pelo The Rio Times, alerta que a classificação terrorista pode permitir que agentes do FBI prendam operadores de facções brasileiras em qualquer lugar do mundo, congelem ativos de empresas de fachada e compartilhem dados sigilosos de inteligência do Estado brasileiro com agências estrangeiras.

Além disso, a designação pode criminalizar ONGs, advogados e até familiares que prestem assistência jurídica ou humanitária a membros das facções, uma vez que a lei americana pune qualquer forma de “apoio material” a organizações terroristas, independentemente da finalidade. O governo brasileiro rejeita essa equiparação e insiste que o combate ao crime organizado transnacional deve ser feito por meio de cooperação policial e jurídica, não pelo enquadramento terrorista.

Com informações de Associated Press, BNO News, CNN Brasil, CNN Portugal, Correio Braziliense, Diário de Pernambuco, G1, Jovem Pan, The New York Times, The Rio Times, Reuters e Spokesman.com ■

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