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Kassio Nunes ativa o modo protecionista
Da mudança casuística de regras à censura de pesquisa sobre Flávio Bolsonaro, ministro indicado por Jair Bolsonaro retribui com medidas que unem proteção política e ataque à liberdade de informação
Analise
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■   Bernardo Cahue, 11/06/2026

Menos de um mês após assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Kassio Nunes Marques acionou o que analistas chamam de “modo protecionista” em favor do clã Bolsonaro. A decisão liminar que suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel, que apontava queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de áudios em que ele cobra R$ 134 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, expõe um padrão de conduta que mescla agradecimento político ao seu nomeante — o ex-presidente Jair Bolsonaro — e intervencionismo judicial que preocupa especialistas e setores democráticos.

1. A nomeação e o “preço” da cadeira no STF
Indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro em outubro de 2020, Nunes Marques nunca escondeu sua dívida de gratidão com o ex-presidente. Ao longo de sua trajetória na Corte, o ministro tem atuado como um contraponto à ala mais progressista do tribunal, alinhando-se a pautas caras ao bolsonarismo. Agora, no comando do TSE, a oportunidade de retribuir o “favor” se apresenta de forma inequívoca.

No dia 14 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro protocolou no TSE uma ação para suspender a pesquisa da AtlasIntel. Naquele momento, o processo — que tratava de propaganda eleitoral — caiu automaticamente com a ministra Estela Aranha, conforme regra estabelecida pela ex-presidente da Corte, Cármen Lúcia. Três dias depois, no entanto, Nunes Marques editou uma resolução alterando a distribuição dos casos, dividindo a relatoria de ações de propaganda eleitoral entre ele, a ministra Estela Aranha e o vice?presidente André Mendonça. Com a nova regra, um novo sorteio foi realizado e o processo sobre a pesquisa caiu nas mãos do próprio presidente do TSE. A manobra, descrita por juristas como casuística, foi confirmada em nota pela própria Corte e revela um protagonismo interveniente que lembra os métodos do antecessor, Alexandre de Moraes, mas agora em favor de outro espectro político.

2. O modo protecionista em ação
No dia 8 de junho, Nunes Marques acolheu os argumentos do PL e determinou a suspensão da pesquisa. Na decisão, o ministro alegou que o questionário da AtlasIntel teria “indícios de indução ao eleitor”, citando a reprodução do áudio da conversa de Flávio com Vorcaro. O magistrado também mencionou uma entrevista do CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, à CNN Brasil, na qual o executivo analisava o impacto político dos áudios — um movimento interpretado por especialistas como tentativa de inibir análises de conjuntura por parte de especialistas e institutos.

A proteção, porém, revela-se seletiva: o mesmo método de apresentar fatos polêmicos antes da aferição da intenção de voto é utilizado há décadas pelo IBOPE e pelo Instituto Quaest, sem qualquer punição. A Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) reagiu com contundência. O presidente do Conselho de Opinião Pública da entidade, João Francisco Meira, classificou a decisão como “ato de censura” e “inconstitucional”, lembrando que “não há previsão constitucional para suspender a publicação de uma pesquisa” e que a medida “é inútil do ponto de vista prático, já que a pesquisa já é de domínio público”. “É lamentável que um juiz jovem, recém-ingressado na mais alta magistratura, desconheça as decisões do próprio tribunal a respeito desse assunto”, acrescentou Meira ao Valor Econômico.

3. As marcas do “agradecimento”
A proximidade entre Nunes Marques e o clã Bolsonaro vai além da nomeação. Em maio de 2026, o ministro convidou Jair Bolsonaro para sua posse na presidência do TSE — um gesto interpretado como aceno político. Agora, ao suspender a pesquisa que escancarava o prejuízo eleitoral de Flávio, Nunes Marques não apenas protege o pré-candidato, mas também reforça a tese bolsonarista de que as pesquisas eleitorais são “enviesadas” e “manipuladas”. Como observou o colunista do Estadão, a decisão do presidente da Corte “embasa a retórica bolsonarista de que os levantamentos possuem viés prejudicial ao grupo”, alimentando as desconfianças da direita sobre as amostragens — apenas quando os números se mostram desfavoráveis.

No plenário do TSE, o cenário não foi diferente. Na sessão de 9 de junho, Nunes Marques foi o primeiro a votar, defendendo a manutenção da suspensão e classificando uma das perguntas da pesquisa como “capciosa”, por supostamente “tomar como fato” a existência do esquema do Banco Master. A ministra Estela Aranha, no entanto, pediu vista — o que interrompeu o julgamento e manteve a liminar em vigor. Integrantes do Ministério Público Eleitoral já manifestaram preocupação com um possível “efeito cascata” em tribunais regionais, caso o plenário referende a decisão.

4. O lado oculto da decisão: o que ela protege
Além do candidato Flávio, a suspensão da pesquisa também protege outros interesses. A pesquisa da AtlasIntel indicava que 51,7% dos entrevistados que tinham conhecimento do áudio viam indícios de envolvimento direto do senador no escândalo do Banco Master. O mesmo escândalo envolve investigações da Polícia Federal sobre fraudes bilionárias que teriam desviado recursos de fundos de pensão. Ao barrar a divulgação do levantamento, Nunes Marques também inibe a circulação de informações incômodas não apenas para Flávio Bolsonaro, mas para todo o ecossistema político que orbita o escândalo — incluindo figuras como o ministro Dias Toffoli, mencionado no caso Master e alvo de pedidos de impeachment.

5. Conclusão: um precedente para 2026
A atuação de Nunes Marques à frente do TSE estabelece um padrão preocupante para as eleições de 2026. Ao unir proteção política (ao clã Bolsonaro) e agradecimento pessoal (ao ex-presidente que o nomeou), o ministro transforma a Justiça Eleitoral em trincheira partidária. A decisão sobre a pesquisa AtlasIntel ainda será analisada pelo plenário, mas o precedente já está posto: sempre que um dado desfavorável emergir, a estratégia será judicializar a metodologia, não o conteúdo. Para a democracia brasileira, o “modo protecionista” de Nunes Marques soa como um alarme.


Com informações de Brasil de Fato, UOL, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Diário do Centro do Mundo, Poder360, A Crítica, IstoÉ, CNN Brasil, Estadão, Conjur e Revista Fórum■

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