Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Como nasceu o Pix
A verdadeira história do SIP, batizado posteriormente como Pix: um sistema de Estado forjado em governos anteriores e lançado sob Bolsonaro, que sequer sabia o que a sigla significava
Artigo
Foto: https://www.gov.br/pt-br/noticias/financas-impostos-e-gestao-publica/2020/11/pix-e-lancado-oficialmente-e-esta-disponivel-para-todos-os-clientes-das-734-instituicoes-cadastradas/pix_0411202553.jpg/@@images/ea3a1ed6-0514-4282-bc49-0d44b2207bfb.jpeg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 06/06/2026

Em meio à crescente polarização política e à guerra narrativa sobre a "paternidade" do sistema de pagamentos instantâneos que revolucionou o Brasil, um fato é incontornável: o Pix não foi uma criação pessoal de Jair Bolsonaro. Sua gênese é fruto de um longo, robusto e técnico processo de maturação institucional, que começou a ser discutido ainda no governo Dilma Rousseff, foi formalizado em lei durante o governo Michel Temer e apenas teve sua implementação finalizada na gestão de Bolsonaro. Longe de ser um inventor entusiasmado, o então presidente demonstrou publicamente desconhecer completamente a ferramenta.

Esta reportagem analítica desfaz a principal distorção política sobre o Pix e reconstrói, com base em documentos oficiais e na cronologia dos fatos, a verdadeira história da criação do maior sistema de pagamentos instantâneos do mundo.

A gênese sob Dilma Rousseff e a agenda de inclusão financeira

A semente do Pix foi plantada muito antes de 2020. O interesse do Banco Central (BC) por um sistema de pagamentos em tempo real aparece pela primeira vez em um documento público de 2014: o Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) referente ao ano de 2013. No texto, o BC, então presidido por Alexandre Tombini — indicado pela presidenta Dilma Rousseff —, já manifestava a busca por soluções que permitissem “pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos, sendo desejável que os recebedores pudessem ter os valores pagos disponibilizados imediatamente em sua conta”. Essa diretriz lançou as bases conceituais para o que viria a ser o Pix.

Contudo, o terreno fértil para o sucesso massivo do Pix foi construído por políticas de inclusão financeira e bancarização das camadas mais pobres da população, capitaneadas pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. A expansão do crédito, o fortalecimento do consumo popular e a criação de contas bancárias simplificadas formaram a base social e digital essencial para que uma ferramenta como o Pix pudesse, mais tarde, ser adotada por mais de 170 milhões de brasileiros. Sem essa base, o Pix poderia ter se tornado uma tecnologia restrita às elites financeiras.

A articulação internacional e o convite da China a Dilma para o BID

Ainda em 2016, a discussão sobre sistemas de pagamentos instantâneos ganhou contornos geopolíticos. O Comitê de Pagamentos e Infraestrutura de Mercado do Banco de Compensações Internacionais (BIS), uma espécie de "Banco Central dos Bancos Centrais", publicou um estudo sobre possíveis modelos para sistemas de pagamento instantâneos, com a participação ativa do Banco Central brasileiro. Nesse contexto, a China despontava como uma das principais interessadas em desenvolver um sistema próprio para fazer frente ao Swift — a rede internacional controlada pelos Estados Unidos —, com o objetivo de viabilizar transações financeiras livres de possíveis sanções norte-americanas. Aproveitando-se da experiência brasileira em tecnologia financeira e da liderança da ex-presidente Dilma Rousseff nessa agenda, o governo chinês a convidou para presidir o Banco de Desenvolvimento do Novo Banco de Desenvolvimento (BID) em Xangai, com a missão de abrir discussões sobre a criação de um sistema de pagamentos internacional autônomo.

A formalização da lei durante o governo Temer

Em paralelo, no plano doméstico, o processo avançou de forma decisiva. Embora na gestão de Michel Temer não tenha havido um projeto de lei específico de criação do Pix, o marco regulatório fundamental foi consolidado. A Lei nº 13.455, de 26 de junho de 2017, resultado do Projeto de Lei de Conversão (PLV) 4/2017, foi sancionada pelo presidente Michel Temer e publicada no Diário Oficial da União na data de sua aprovação. Essa lei tratou da renegociação de dívidas de estados e municípios, mas continha em seu bojo dispositivos que modernizaram e ampliaram os poderes do Banco Central para regular os meios de pagamento eletrônicos no país, criando o ambiente regulatório propício para o desenvolvimento do Pix. Além disso, em dezembro de 2016, o então presidente do BC, Ilan Goldfajn, havia lançado a "Agenda BC+", com o objetivo explícito de modernizar o sistema financeiro nacional e estimular a inclusão financeira, um dos pilares que sustentariam o novo sistema de pagamentos instantâneos.

A adequação e implementação no governo Bolsonaro

A partir de 2019, sob o comando do novo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, a máquina estatal começou a girar para dar corpo ao projeto que já estava em andamento. Em maio de 2018, ainda no governo Temer, o BC havia lançado o Laboratório de Inovações Financeiras (Lift), um ambiente de testes para novas tecnologias. As bases concretas do Pix foram estabelecidas pelo BC em 21 de dezembro de 2018, quando um grupo de trabalho concluiu os requisitos fundamentais do sistema. Em 2019, o BC anunciou oficialmente o "Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI)", que viria a ser batizado de Pix. O nome, que não é uma sigla, foi escolhido para remeter a conceitos de tecnologia, como "pixel" e "quick" (rápido). O lançamento oficial ocorreu em 16 de novembro de 2020, após um período de testes e cadastramento de chaves que se iniciou em outubro do mesmo ano. Portanto, cabe registrar: no governo Bolsonaro, ocorreram apenas a adequação e a implementação de uma lei e de um conceito que já haviam sido discutidos, estudados e, em grande medida, delineados nas administrações anteriores.

Bolsonaro e o "Pix": o desconhecimento e a confusão com a carteira de piloto

A mais clara evidência de que Jair Bolsonaro não foi o criador do Pix é a sua própria reação quando indagado sobre o tema. Em 5 de outubro de 2020, exatamente no dia em que as instituições financeiras começaram a cadastrar as chaves Pix, o então presidente foi abordado por um apoiador que o parabenizou pela "criação" do sistema. Visivelmente confuso, Bolsonaro associou a novidade a uma medida da aviação civil. Ao ser corrigido, ele admitiu publicamente que não tinha conhecimento do que se tratava e que iria "conversar com o Roberto Campos Neto" para entender do assunto.

Esse episódio gerou ampla repercussão e foi resgatado em redes sociais com frequência. A confusão de Bolsonaro foi tão emblemática que virou sinônimo de sua total falta de envolvimento na concepção do projeto: ele achou que se tratava de uma nova habilitação para pilotos de aeronaves, a famosa "carteira de piloto". Se o presidente sequer sabia da existência do sistema no momento de seu lançamento, é impossível que ele tenha sido seu mentor ou criador.

Desfazendo a mentira: o Pix é uma política de Estado, não uma obra de governo

A tentativa de atribuir a criação do Pix a Jair Bolsonaro é, portanto, uma distorção factual. O sistema de pagamentos instantâneos é o resultado de um esforço técnico e acumulado de servidores do Banco Central ao longo de vários anos, gestado no bojo de políticas públicas de inclusão financeira iniciadas nos governos do PT e formalizadas institucionalmente na gestão de Michel Temer. A implementação final ocorreu sob a presidência de Bolsonaro, mas sua genialidade e sucesso são fruto de um trabalho coletivo e de Estado, e não de um estalo individual de um governante que, por seus próprios atos, demonstrou desconhecer completamente a novidade.

  1. Discussão e concepção: Governo Dilma Rousseff (2014-2016).
  2. Publicação da lei e definição das bases: Governo Michel Temer (2017-2018).
  3. Desenvolvimento técnico: Banco Central (2018-2020).
  4. Implementação e lançamento: Governo Jair Bolsonaro (2020).

Com informações de Agência Brasil, Aos Fatos, BBC News Brasil, Fundação Perseu Abramo, Revista Fórum, UOL Economia, Wikipedia e X (antigo Twitter) ■

Mais Notícias