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A inocente mediocridade da “guerra ao terror”
A classificação de facções brasileiras como terroristas repete uma estratégia imperial testada na África, no Oriente Médio e na América Latina; ao mesmo tempo, Washington treinou e financiou grupos extremistas por décadas, enquanto a origem do Comando Vermelho na ditadura militar guarda um precedente igualmente sombrio
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■   Bernardo Cahue, 30/05/2026

A decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras escancara a mais antiga e gastada cartada da política externa americana: rotular um adversário como “terrorista” para, em seguida, justificar intervenções militares, instalação de bases, sanções financeiras e a erosão da soberania de países periféricos. O que se apresenta como uma medida de “segurança nacional” nada mais é do que a continuidade de uma doutrina que, sob o manto da “guerra ao terror”, já produziu mais de 8 trilhões de dólares em gastos militares, 929 mil mortes e a expansão de uma rede de ao menos 750 bases americanas espalhadas pelo mundo.

A hipocrisia fundadora: quando os EUA criaram e financiaram os “terroristas” que hoje combatem
A história do envolvimento americano com grupos extremistas é um longo atestado de cinismo. Durante a invasão soviética do Afeganistão (1979-1989), a CIA, por meio da Operação Ciclone, financiou, armou e treinou os mujahideen – os mesmos guerreiros islâmicos que, anos depois, dariam origem à Al-Qaeda, ao Talibã e ao Estado Islâmico. Segundo relatos, os EUA chegaram a financiar madraças com livros didáticos que ensinavam crianças a calcular a distância balística para “acertar a cabeça de um russo” – uma engenharia de extremismo que mais tarde se voltaria contra o próprio Ocidente.

Na América Latina, o padrão se repete com variações locais. Entre 1981 e 1991, os EUA forneceram armas, treinamento e amplo suporte financeiro e logístico aos rebeldes Contras na Nicarágua – um grupo que utilizou sistematicamente táticas de terror, incluindo assassinatos de civis, sequestros e destruição de infraestrutura, tudo para derrubar o governo sandinista. O financiamento chegou a ser aprovado por uma lei do Congresso americano em 1986, no auge do escândalo Irã-Contras. Ao mesmo tempo, a CIA apoiou abertamente esquadrões da morte em Honduras, como o temido Batalhão 316, que torturou e assassinou centenas de opositores políticos sob a orientação de agentes americanos. A agência também treinou e armou paramilitares na Colômbia, no Peru e em El Salvador – muitos dos quais, mais tarde, se associaram ao narcotráfico e a milícias de extrema-direita.

A ironia é brutal: os EUA passaram décadas financiando “seus” terroristas para desestabilizar governos de esquerda ou adversários geopolímicos; agora, sob a retórica da “guerra ao terror”, voltam-se contra os mesmos métodos quando estes já não lhes servem. Não se trata, portanto, de princípio, mas de oportunidade geopolítica.

O Brasil como alvo: a “guerra ao narcoterrorismo” como nova Doutrina Monroe
A classificação de PCC e CV como terroristas insere o Brasil em um rol que antes incluía cartéis mexicanos, as FARC colombianas, o Cartel de los Soles venezuelano e grupos do Oriente Médio. O objetivo declarado – cortar o financiamento do crime – esconde uma segunda agenda: permitir ações militares unilaterais dos EUA em território nacional, congelar ativos do sistema financeiro brasileiro e, em última instância, instalar bases americanas sob o pretexto do “combate ao narcoterrorismo”.

De fato, a nova doutrina do governo Trump já foi testada na região. Em janeiro de 2026, forças especiais americanas invadiram a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro, que foi levado para os EUA sob acusações de narcoterrorismo. No Caribe, embarcações venezuelanas e colombianas foram bombardeadas sem qualquer mandato da ONU, com a justificativa de interromper o tráfico. Agora, os olhos se voltam para o Brasil – o maior país da América do Sul, dono de 12% da água doce do planeta, de imensas reservas de terras raras, nióbio, ouro e da maior floresta tropical do mundo. Na mira de Washington, o Brasil não é apenas um problema de segurança pública: é um prêmio estratégico a ser controlado.

O precedente esquecido: lanchas de luxo na Ilha Grande, fuga em massa e a sombra da Falange Vermelha
Um dos aspectos menos comentados dessa equação é o elo histórico entre a política carcerária da ditadura militar e o surgimento da primeira grande facção brasileira – e a possibilidade, ainda que especulativa, de que os EUA tenham visto na criminalidade organizada um instrumento útil de desestabilização.

O Comando Vermelho nasceu no início da década de 1970 no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, onde o regime militar colocou presos políticos de esquerda na mesma ala que criminosos comuns – uma tática deliberada de despolitização e punição. Dessa convivência forçada, surgiu a “Falange Vermelha” (depois CV), que aprendeu com os guerrilheiros táticas de organização, assalto a bancos, sequestros e, crucialmente, planejamento de fugas em massa.

O que a imprensa da época noticiou, mas raramente se conecta, é que já na década de 1970 a Falange Vermelha utilizava lanchas de alto padrão – verdadeiros iates – para resgatar presos comuns da Ilha Grande em operações coordenadas. Essas embarcações não eram de fabricação caseira; eram lanchas rápidas, sofisticadas, que exigiam capital e logística bem acima do que pequenos assaltantes poderiam obter por conta própria. Em dezembro de 1985, José Carlos “Escadinha” Encina foi resgatado do mesmo presídio por um helicóptero – uma fuga que custou, à época, o equivalente a milhões de dólares.

A questão que ecoa, portanto, é: de onde vinha esse financiamento? Embora nenhum documento oficial comprove diretamente que a CIA ou o Departamento de Estado tenham bancado a Falange Vermelha, há evidências robustas de que, durante a Guerra Fria, os EUA apoiaram grupos paramilitares, golpistas e até mesmo facções criminosas sempre que isso servisse para desestabilizar governos de esquerda ou manter regimes aliados. No Brasil, a ditadura militar (1964-1985) foi ativamente financiada e treinada pelos EUA – incluindo o repasse de técnicas de tortura pela Escola das Américas. Nesse contexto, não seria surpreendente que agentes americanos, diretamente ou por interpostos, tivessem facilitado o acesso das nascentes facções a lanchas, armas e helicópteros, seja para enfraquecer o Estado brasileiro (visto como potencialmente “não alinhado”), seja para criar um ambiente de caos que justificasse, mais adiante, a presença militar americana.

Essa hipótese, embora permaneça no campo das investigações históricas, é fortalecida pelo fato de que a própria designação terrorista atual é explicitamente defendida pela família Bolsonaro – que tem ligações profundas com setores militares e paramilitares treinados pelos EUA. Ao pressionarem Washington para incluir PCC e CV na lista negra, Flávio Bolsonaro e seu entorno podem estar, sem saber, repetindo um movimento antigo: usar a criminalidade como bode expiatório para justificar uma interferência externa que enfraquece a soberania nacional e abre as portas para a militarização do país sob comando americano.

O jogo das aparências: quando o “combate ao terror” se torna arma de intervenção
A doutrina da “guerra ao terror” sempre foi marcada pela seletividade. Países aliados dos EUA – como Arábia Saudita, Paquistão e Israel – raramente são alvos de sanções antiterrorismo, mesmo quando seus governos patrocinam ou toleram grupos extremistas. Em contrapartida, nações que desafiam o dólar, como Irã, Cuba, Venezuela e Rússia, são rotuladas como “patrocinadoras do terrorismo” com base em evidências frágeis. O próprio Hamas e o Hezbollah, antes financiados indiretamente pelos EUA na Guerra Fria, hoje figuram nas listas negras.

O Brasil de Lula, que recentemente sediou a cúpula do BRICS e avança na agenda de desdolarização, tornou-se um incômodo para Washington. Ao classificar facções brasileiras como terroristas, os EUA não estão primariamente preocupados com o tráfico de cocaína (que, em grande medida, flui para a Europa, não para os EUA). Estão, sim, enviando um recado claro: qualquer país que ousar construir uma política externa soberana, que desafie o monopólio do dólar ou que se aproxime da China, pode esperar a mesma cartada – terrorismo ou narcoterrorismo – a qualquer momento.

Conclusão: uma guerra que não é contra o crime, mas pela hegemonia
A classificação de PCC e CV como terroristas é a face mais recente de um imperialismo que, há mais de um século, trata a América Latina como “quintal”. A decisão ignora a legislação brasileira, desrespeita o princípio da não intervenção e abre flanco para que militares americanos atuem em solo nacional sem controle do Congresso ou do STF. Ao mesmo tempo, os EUA mantêm silêncio sobre o fato de que muitas das armas usadas pelas facções brasileiras são fabricadas e traficadas a partir dos Estados Unidos, e que o próprio sistema financeiro americano lava bilhões de dólares do narcotráfico.

Enquanto Washington se arvora em juiz do terrorismo, o mundo não se esquece: os mesmos métodos – financiamento de paramilitares, apoio a ditaduras, treinamento de esquadrões da morte e uso de lanchas e helicópteros para fugas em massa – foram, por décadas, ferramentas da política externa americana. A diferença é que, antes, o objetivo era desestabilizar governos socialistas; hoje, o alvo é qualquer país que ameace a supremacia do dólar e a ordem unipolar. A inocente mediocridade da “guerra ao terror” revela-se, assim, como a mais cínica e perigosa das estratégias: uma guerra que não se ganha, mas que se prolonga indefinidamente para manter o status quo de poder.

Com informações de A Nova Democracia, BBC News Brasil, Brasil de Fato, CNN Brasil, DW Brasil, G1, Gazeta do Povo, Intercept Brasil, Jornal do Brasil, O Dia, O Globo, Portal Cinco, Revista Fórum, UOL, Acesse Política, M Tem Pauta, Rádio Itatiaia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Wikipedia (Estados Unidos e o terrorismo patrocinado pelo Estado, Contras, Operation Cyclone), Salon, Paradigm Shift, New Age, Xinhua, Harvard University David Rockefeller Center for Latin American Studies, Oxford University Press, Cambridge University Press,El País, Clarin, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, The Intercept, Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (Memórias Reveladas), Fundação Biblioteca Nacional ■

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