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A confluência de escândalos que envolvem desde aportes bilionários da Rioprevidência no Banco Master até depósitos no fundo Havengate, passando por uma offshore em Delaware e a compra de uma mansão no Texas, pode não ser uma sucessão de coincidências, mas sim a cartografia de um plano ambicioso. A análise desses fatos sugere uma tentativa de construir um crime (quase) perfeito: usar dinheiro público — de aposentados e pensionistas — para financiar uma operação de propaganda no exterior (o filme Dark Horse), blindar o patrimônio em paraísos fiscais americanos e, finalmente, utilizar a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas pelos EUA como uma cortina de fumaça para desviar o foco das eleições presidenciais de 2026.
A estratégia norte-americana, ao classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras e terroristas globais especialmente designados, não parece ser movida apenas pelo combate ao crime. A decisão, anunciada em 28 de maio de 2026 pelo secretário de Estado Marco Rubio, ocorreu apenas 24 horas após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o próprio Rubio, e na mesma semana em que pediu a classificação. A imprensa internacional, como o The New York Times, destacou que a medida veio “após meses de lobby agressivo dos filhos do ex-presidente preso”.
A conjuntura poderia, em um cenário ideal, servir para uma única ação: que os EUA finalmente levassem em consideração os mecanismos da Interpol para prender e julgar em seu solo os agentes do crime organizado transnacional. No entanto, como a história e a geopolítica demonstram, a estratégia dos EUA não é a do combate ao crime pelo estado de direito, mas a do controle de regimes alinhados aos seus interesses — e para isso, não hesitam em financiar ou instrumentalizar grupos terroristas para implantar o caos e justificar a expansão de suas bases militares, consolidando seu projeto de colonizador moderno.
Em meio a esse cenário, a Justiça da Flórida deu um passo crucial para desmontar a engenharia financeira do grupo. Em 8 de janeiro de 2026, o juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconheceu a liquidação extrajudicial do Banco Master e determinou o bloqueio de todos os ativos do grupo nos EUA. A decisão, que atendeu a um pedido da liquidante nomeada pelo Banco Central do Brasil, foi tomada porque as investigações apontaram que o banco operava com dinheiro público brasileiro, especialmente da Rioprevidência, e tentava realizar lavagem de dinheiro utilizando fundos no exterior.
O nó central dessa trama é o Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. Documentos e mensagens divulgadas pelo The Intercept Brasil comprovam que o ex-deputado cassado atuou como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, tendo poder sobre a gestão financeira do projeto. Mensagens de Eduardo orientavam o envio do “máximo possível” de recursos para os EUA. Posteriormente, Eduardo afirmou, ao ser questionado sobre a mansão de R$ 6 milhões em Southlake (Texas) onde reside, que “o dinheiro é meu” e que mora de aluguel. Essa declaração contrasta com a realidade de que ele teve seus bens bloqueados pela Justiça brasileira e não apresenta renda compatível com o alto padrão de vida, mesmo se contabilizados os salários como deputado federal e como escrivão da Polícia Federal com as mesadas recebidas por PIX de Jair Bolsonaro.
O contraste com o bordão do ex-prefeito Paulo Maluf — “esse dinheiro não é meu” — é inevitável. Se Maluf negava a propriedade, Eduardo agora reivindica o controle sobre um patrimônio que, pelas evidências, foi abastecido por:
Portanto, o dinheiro não é de Eduardo Bolsonaro, mas ele exerceu controle efetivo sobre ele, seja como produtor-executivo, seja como orientador dos depósitos, configurando uma clássica estrutura de lavagem de dinheiro e apropriação indébita de recursos públicos.
Facções terroristas e o elo da família Bolsonaro com o crime organizado
A decisão de classificação de facções brasileiras de narcotráfico no mesmo patamar de cartéis mexicanos foi tomada, coincidentemente ou não, logo após pressão declarada de Flávio Bolsonaro e em um momento em que o senador é pré-candidato à Presidência.
A ligação do clã Bolsonaro com o crime organizado, no entanto, não se restringe a lobby. O senador Flávio Bolsonaro tem como aliado político o ex-deputado estadual do Rio de Janeiro Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias. Ele foi preso em setembro de 2025 sob suspeita de negociar com a facção carioca, e mensagens da Polícia Federal mostram trocas de favores entre traficantes e seu ex-assessor. TH Jóias foi indicado para uma secretaria do governo do estado por influência de Flávio Bolsonaro. A superposição dessas conexões — o lobby para classificar facções como terroristas e a simultânea proximidade política com líderes e assessores dessas mesmas facções — revela uma contradição grave, que alimenta a tese de um uso instrumental do discurso de segurança.
Além desse indício, mensagens interceptadas pela Polícia Federal escancaram a ligação da família com a facção ao mostrarem uma troca de favores entre o traficante Índio do Lixão (chefe do Comando Vermelho) e Gutemberg Fonseca, que foi indicado para o cargo de secretário de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro pelo senador Flávio Bolsonaro. As conversas tratam de encontros e resolução de problemas com a facção, provando a estreita ligação da família Bolsonaro com a facção carioca, agora classificada como terrorista pelos EUA.
A cortina de fumaça de Hollywood: irregularidades trabalhistas, fiscais e o assalto aos cofres públicos
O filme “Dark Horse”, anunciado para estrear em setembro, às vésperas das eleições presidenciais, é o coração da estratégia de desvio. A produção foi filmada no Brasil pela produtora Go Up Entertainment sem o menor cumprimento das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE). A empresa não registrou a produção, não apresentou contratos, não comprovou vistos de trabalho para a equipe estrangeira e, ainda segundo relatos, não pagou direitos trabalhistas a parte da equipe brasileira, com relatos de condições degradantes no set. Somente a investigação da ANCINE e a possibilidade de multa de até R$ 100 mil seriam suficientes para inviabilizar por completo o lançamento do longa — e nem seria necessária a intervenção do TSE, embora já tenha sido acionado em Brasília.
Conforme o direito tributário básico, a produtora Go Up Entertainment, que constava como regular na ANCINE desde julho de 2025 mas nunca havia produzido um filme, deveria ao fisco cerca de R$ 7 milhões sobre o financiamento de R$ 61 milhões ao fundo administrador Havengate. Como nem filme regular terá — já que a produção foi encerrada de forma irregular — não há imposto devido. No entanto, a proibição do filme pelas autoridades brasileiras será a principal alavanca de agitação da “massa de manobra” bolsonarista, que tentará tumultuar as eleições culpando principalmente os ministros Alexandre de Moraes e Edson Fachin de "censura". Trata-se de uma cortina de fumaça perfeita para camuflar o roubo bilionário dos cofres públicos destinados a aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro.
A operação da Polícia Federal que mirou o governo Cláudio Castro confirmou que os recursos desviados têm origem, sobretudo, no Rioprevidência (que gere os benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas) e na Cedae (estatal de água e esgoto), com aportes que somam quase R$ 3 bilhões. A PF apura se os aportes foram inflados por fundos fictícios e intermediários para viabilizar o saque.
Diante desse caleidoscópio de irregularidades — corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, conexões com o crime organizado e manipulação eleitoral — fica a certeza de que o poder econômico se articula com o crime em níveis antes impensáveis. A classificação das facções como terroristas pelos EUA, longe de ser uma medida técnica de segurança, ainda é usada como um trunfo geopolítico e uma tentativa de desviar a atenção da opinião pública. O crime pode não ser tão perfeito, mas a investigação ainda precisa superar obstáculos judiciais e políticos para que a verdade venha à tona. Cabe à imprensa independente, ao Ministério Público e à Justiça brasileira seguir esses rastros e impedir que o assalto aos cofres públicos e à vontade popular se concretize.
Com informações de Agência Brasil, BBC News Brasil, G1, GloboNews, Intercept Brasil, Metrópoles, Poder360, Revista Fórum, The New York Times, UOL, Veja, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Jornal de Brasília, SBT News, O Sul, TV Pampa, ICL Notícias, Conjur, France 24, Reuters ■