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Regra só muda quando desfavorece a direita
Da edição do debate de 1989 à suspensão da pesquisa AtlasIntel em 2026, a seletividade na aplicação das regras de pesquisas eleitorais expõe um histórico de proteção a aliados políticos há 36 anos
Analise
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■   Bernardo Cahue, 11/06/2026

No dia 8 de junho de 2026, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão imediata da divulgação da pesquisa do Instituto AtlasIntel que registrou uma queda de seis pontos percentuais do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas intenções de voto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A decisão liminar atendeu a um pedido do Partido Liberal, que questionou a metodologia do instituto, especialmente o fato de o questionário ter abordado os áudios em que o senador cobra dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro.

Embora Nunes Marques tenha argumentado que o questionário teria "indícios de comprometimento da neutralidade metodológica" e configuraria "indução ao eleitor", a decisão ignora um fato central: o mesmo método questionado é utilizado por institutos consagrados como IBOPE e Quaest há mais de três décadas, sem qualquer punição.

O método "indutor" é padrão consolidado no mercado
O uso de perguntas sobre fatos recentes ou escândalos antes da aferição da intenção de voto não é uma inovação da AtlasIntel. Trata-se de uma prática metodológica adotada por institutos tradicionais para medir rejeição, avaliação de cenários e impacto de eventos na percepção do eleitor. O próprio IBOPE, desde a redemocratização, utiliza blocos de perguntas sobre escândalos, crises ou avaliações negativas antes da pergunta central sobre voto. O Instituto Quaest, outro exemplo, também emprega sistematicamente perguntas sobre temas sensíveis antes da aferição da intenção de voto.

A decisão de Nunes Marques, portanto, cria um critério seletivo: o mesmo método é considerado legítimo quando aplicado por institutos tradicionais e sem potencial de prejudicar a direita, mas torna-se "indutor" e "irregular" quando desfavorece aliados políticos. Como observou João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), trata-se de um "ato de censura baseado em um argumento fraco" e "inconstitucional", que fere a liberdade de divulgação de pesquisas.

O precedente de 1989: quando a regra foi mudada para favorecer Collor
A seletividade na aplicação das regras de pesquisa eleitoral não é um fenômeno novo. Em 1989, no segundo turno da primeira eleição presidencial após a ditadura, um episódio semelhante ocorreu com o IBOPE e a TV Globo. A emissora editou o último debate entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, exibindo no Jornal Nacional uma versão que destacava 3 minutos e 34 segundos de falas de Collor contra apenas 2 minutos e 22 segundos de Lula, favorecendo claramente o candidato apoiado pela Globo.

Além da edição tendenciosa, a Globo utilizou uma pesquisa do instituto Vox Populi com números extremamente favoráveis a Collor, abandonando a praxe de usar os números do IBOPE. O episódio gerou uma polêmica interna na emissora, com o diretor José Bonifácio de Oliveira admitindo à Folha de S.Paulo que a edição ficara "mais favorável a Collor" e que houve "erro de avaliação" do jornalismo da Globo.

Na ocasião, não houve qualquer suspensão ou punição. O método foi aplicado, o favorecimento ocorreu, e Collor foi eleito. A regra, quando favorecia a direita, era aceita sem questionamentos.

A mudança casuística que permitiu a Nunes Marques assumir o caso
A decisão de Nunes Marques também foi precedida por uma manobra regulamentar que levanta suspeitas de conflito de interesses. Três dias após a ação do PL ser protocolada no TSE, o ministro editou uma resolução alterando as regras de distribuição de processos de propaganda eleitoral. Até então, todos esses casos eram automaticamente enviados à ministra Estela Aranha, conforme norma instituída pela ex-presidente Cármen Lúcia.

Com a nova regra, Nunes Marques dividiu a relatoria entre si, o vice-presidente André Mendonça e a ministra Estela Aranha. Em novo sorteio, o caso da pesquisa AtlasIntel caiu nas mãos do próprio presidente do TSE, que rapidamente concedeu a liminar. A assessoria do tribunal justificou a mudança como necessidade de "dar celeridade aos trabalhos", mas a coincidência temporal levanta dúvidas sobre a real motivação.

Reações e o precedente perigoso
A suspensão da pesquisa gerou forte reação da comunidade acadêmica e de institutos de pesquisa. João Francisco Meira, da Abep, classificou a decisão como "precedente perigoso" para futuras disputas eleitorais. "Pode levar a outras decisões erradas daqui para frente", afirmou ao Valor Econômico. Ele também criticou a inutilidade prática da medida: "Essa decisão ficou obsoleta, anacrônica, fora de lugar. É inútil também, porque essa pesquisa é de domínio público".

A própria AtlasIntel rebateu as acusações, esclarecendo que o áudio foi apresentado aos entrevistados apenas após o encerramento do questionário principal, sem qualquer possibilidade de alteração das respostas já registradas. A participação na etapa de reação ao áudio foi voluntária e ocorreu em uma página completamente separada do formulário. O CEO do instituto, Andrei Roman, afirmou que a empresa recorreria da decisão, confiando na reversão da medida pelo plenário do TSE.

Conclusão: um alarme para a democracia
A decisão de Nunes Marques não é um caso isolado, mas parte de um padrão histórico de tratamento seletivo das pesquisas eleitorais. Em 1989, a regra foi alterada para favorecer Collor e a Globo, sem consequências. Em 2026, a regra muda novamente para proteger Flávio Bolsonaro, sob a justificativa frágil de "indução". A diferença é que, agora, o arsenal jurídico é usado para censurar, não para omitir.

Para a democracia brasileira, o precedente aberto por Nunes Marques é alarmante. Ao unir proteção política e agradecimento pessoal ao ex-presidente que o nomeou, o ministro transforma a Justiça Eleitoral em trincheira partidária. A decisão final do plenário do TSE será um teste decisivo: se referendada, consolidará um perigoso precedente de censura pré-eleitoral, onde a regra muda sempre que os números desagradam a direita.

Com informações de Brasil de Fato, CNN Brasil, Estadão, Folha de S.Paulo, JOTA, Poder360, UOL, Valor Econômico, A Crítica, Diário do Centro do Mundo, O Dia, Veja, Revista Fórum, O Globo, CBN, BBC News Brasil, InfoMoney, Gazeta do Povo, SBT News, PlatôBR, Conjur, IstoÉ, e Acesse Piauí■

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