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Dark Horse foi financiado indiretamente pelo PCC
Investigação mostra uma teia financeira que conecta fundos administrados por Daniel Vorcaro, abastecidos pelo crime organizado, ao fundo Havengate, controlado por Eduardo Bolsonaro, e aos pagamentos da produção do filme
Analise
Foto: img/20260607.png
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■   Bernardo Cahue, 07/06/2026

A conclusão a que chegou a Polícia Federal (PF) sobre o financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não poderia ser mais grave: os recursos que bancaram o filme Dark Horse tiveram origem indireta em organizações criminosas, notadamente o Primeiro Comando da Capital (PCC), agora classificado pelos Estados Unidos como organização terrorista. A investigação, que já levou à quebra de sigilos e ao acionamento de autoridades estrangeiras, aponta uma complexa engenharia financeira com pelo menos quatro camadas, que vão do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraudes bilionárias, até o fundo Havengate, sediado no Texas e controlado por aliados diretos de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente e produtor-executivo do longa-metragem.

O fio da meada foi puxado a partir das investigações sobre o Banco Master. A PF descobriu que o fundo REAG, administrado por Vorcaro, recebeu R$ 1 bilhão de empresas apontadas como integrantes de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro. Esse dinheiro, oriundo do narcotráfico, não parou por aí. A partir do REAG (primeira camada), os valores foram transferidos para o fundo Gold Style (segunda camada), que também movimentou cerca de R$ 1 bilhão e serviu de estepe para a engrenagem ilegal. A terceira camada do esquema foi a Entre Investimentos e Participações, empresa de Vorcaro apontada pela PF como "conta de canal de passagem" dos recursos. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostram que a Entre recebeu R$ 139,2 milhões da Sefer Investimentos (alvo da Operação Compliance Zero) e outros R$ 20 milhões do fundo Gold Style. Os levantamentos da PF indicaram ainda que a empresa transferiu R$ 87,7 milhões para a RMD Instituição de Pagamento, suspeita de operar para o PCC, e outros R$ 139 milhões para empresas ligadas à máfia italiana e ao crime organizado no Porto de Paranaguá.

É na quarta e última camada que a história alcança os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro. A PF determinou que, a pedido de Flávio e sob a justificativa de financiamento do filme Dark Horse, Vorcaro autorizou a Entre Investimentos a enviar US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) para o fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas. O Havengate é administrado por Paulo Calixto e Altieris Santana, da Calixsan, apontados pela PF como "operadores de Eduardo Bolsonaro nos EUA". Mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil mostram Eduardo orientando Thiago Miranda, interlocutor de Vorcaro, a "enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual", em clara referência à necessidade de acelerar os repasses.

De posse desses elementos, as autoridades brasileiras adotaram uma série de medidas que indicam a gravidade do caso:

  • Acionamento do FBI: a Polícia Federal já entrou em contato formal com o Federal Bureau of Investigation, repassando todas as informações sobre a teia financeira que conecta as quatro camadas do esquema, e deve solicitar a quebra de sigilo do fundo Havengate, uma medida que depende de cooperação internacional e autorização da Justiça americana.
  • Novo inquérito: o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, defendeu a abertura de um novo inquérito para investigar especificamente o envio de recursos de Vorcaro aos EUA, sob suspeita de que parte do dinheiro tenha bancado despesas de Eduardo Bolsonaro e ações contra autoridades brasileiras.
  • Enquadramento como terroristas nos EUA: o governo dos Estados Unidos, atendendo a pedidos de Flávio Bolsonaro, classificou o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras. A ironia é que, ao estabelecer a linha direta entre o dinheiro do tráfico e o fundo Havengate, os irmãos podem ter fornecido às autoridades americanas os elementos necessários para um eventual enquadramento como terroristas por associação ou financiamento indireto.

Flávio e Eduardo Bolsonaro negam qualquer irregularidade. Em entrevista, Flávio afirmou que os recursos foram "integralmente destinados à produção do filme" e que Eduardo sobrevive de doações do pai e de reservas próprias. Eduardo, por sua vez, disse que "não exerceu qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedeu seus direitos de imagem". Entretanto, as investigações da PF e os documentos do Coaf mostram que a Entre Investimentos, a mesma empresa que repassou R$ 159 milhões oriundos de fundos ligados ao PCC e à máfia, foi a responsável por enviar os milhões de dólares ao Havengate. Além disso, o próprio Flávio aparece em mensagens cobrando Vorcaro: "Fala Thiago, te escrevo a pedido do pessoal do nosso filme pra vc dar um gás na resposta do jurídico do investidor", em janeiro de 2025.

A conclusão da PF, embora ainda não formalizada em um relatório final de inquérito, já está suficientemente delineada pelas evidências colhidas. O filme que pretendia narrar a trajetória do ex-presidente como um "azarão" (dark horse em inglês) acaba por revelar uma trama sórdida: o dinheiro do narcotráfico, lavado por meio de sofisticadas operações financeiras, chegou aos cofres de uma produção cinematográfica vinculada à família do ex-mandatário. O caso, agora sob os holofotes do FBI e com possíveis desdobramentos na Justiça americana, promete render capítulos ainda mais dramáticos e pode transformar o sonho da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em um pesadelo político e criminal sem precedentes.

Com informações de: BBC News Brasil, G1, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, The Intercept Brasil, UOL, O Estado de S. Paulo, O Globo, Extra, Diário do Centro do Mundo, Hora do Povo, O Dia, Bahia Notícias, Brasil 247, Metro1, Meio News, Diário do Pará, Juri News, PT na Câmara, A Critica, CGN, Antagonista, Veja.

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