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Dinheiro do PCC e de aposentados do Rio chegaram aos Bolsonaro
Verba da facção foi entrelaçada com R$ 3,69 bilhões de recursos públicos do Rioprevidência — destinado a aposentados e pensionistas do estado do Rio
Analise
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■   Bernardo Cahue, 07/06/2026

As investigações da Polícia Federal (PF) revelaram o centro de uma engrenagem financeira monstruosa, onde o dinheiro sujo do narcotráfico se misturou, de forma indelével, com os recursos que deveriam garantir a aposentadoria de servidores públicos do estado do Rio de Janeiro. No centro de toda essa teia está o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso em meio a um escândalo bilionário de fraudes. O que a PF descobriu é que a lavagem de dinheiro do PCC não apenas cooptou fundos de Vorcaro, mas se utilizou da estrutura do banco, que por sua vez era irrigado com dinheiro público de forma criminosa.

De acordo com a investigação, o Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores fluminenses, realizou, entre 2023 e 2025, investimentos temerários no Banco Master, chegando a cifras estratosféricas. A PF aponta que a cifra total de recursos desviados da previdência estadual e injetados no ecossistema de Vorcaro chega a R$ 3,69 bilhões (US$ 688 milhões). Somente entre 2023 e 2024, o fundo aplicou R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Master, e após mudanças regulatórias, passou a investir por meio de fundos, somando mais R$ 2,01 bilhões a partir de 2024. O economista Hugo Bertha, especialista em contas públicas, calcula que o rombo pode chegar a 25% do valor total do fundo, que “virou pó”.

O elo de ligação crucial para que esse dinheiro público escoasse foi a relação pessoal e promíscua entre Vorcaro e o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). A PF aponta que a relação entre eles “ultrapassou o mero contato institucional, alcançando indícios concretos da ocorrência de tratativas ilícitas”. A amizade, selada por encontros, viagens pagas por Vorcaro e até encontros festivos com uísque e feijoada, viabilizou que o Rioprevidência ignorasse alertas técnicos e fizesse aportes bilionários para salvar o banco da falência. Castro, que renunciou ao mandato e está inelegível, foi alvo de buscas e teve celulares apreendidos pela PF na Operação Compliance Zero, deflagrada em 26 de maio de 2026.

É na estrutura de fundos de Vorcaro que o dinheiro da aposentadoria e o dinheiro do tráfico se entrelaçaram. A PF descobriu que o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Gold Style, administrado pela REAG (gestora de Vorcaro), recebeu R$ 1 bilhão de empresas apontadas como parte do esquema de lavagem de dinheiro do PCC. Entre elas, a Aster Petróleo, distribuidora de combustíveis apontada como núcleo financeiro do PCC, que repassou sozinha R$ 759,5 milhões ao fundo. Outras empresas como a BK Bank e a Inovanti, também investigadas por ligações com o PCC, aportaram centenas de milhões de reais ao fundo.

Desse fundo Gold Style, o dinheiro, agora já uma mistura de verba pública desviada e dinheiro do tráfico, seguiu para a terceira camada do esquema: a Entre Investimentos e Participações. Esta empresa, apontada pela PF como “conta de canal de passagem” dos recursos e também utilizada para fazer os repasses ao filme Dark Horse, movimentou centenas de milhões. Documentos do Coaf mostram que a Entre repassou R$ 139 milhões a empresas investigadas por ligações com o PCC e a máfia italiana. Além disso, a empresa era a responsável por receber recursos do Rioprevidência e do PCC para, em seguida, enviá-los ao exterior.

É a partir da Entre que a quarta e última camada do esquema se conecta diretamente aos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro. A PF suspeita que parte do dinheiro — ao menos R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões) — foi enviado pela Entre ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas e administrado por aliados de Eduardo. A suspeita é que esse dinheiro, com origem na mistura de dinheiro público e do tráfico, tenha sido usado para bancar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, Dark Horse, e, principalmente, para financiar o estilo de vida luxuoso de Eduardo Bolsonaro nos EUA, para onde se mudou em fevereiro de 2025.

A gravidade do caso atinge um patamar inusitado com a recente classificação do PCC como organização terrorista pelo governo dos Estados Unidos, em vigor desde 5 de junho de 2026. A medida, articulada pelo senador Flávio Bolsonaro em reunião com Donald Trump na Casa Branca, fez com que o dinheiro do PCC que chegou ao fundo Havengate em território americano se tornasse, aos olhos do FBI, dinheiro de terrorista em solo norte-americano. Em resposta, a Polícia Federal não só aprofundou as investigações, mas também acionou formalmente o FBI, repassando todas as informações da teia financeira que conecta o PCC, o Rioprevidência, a REAG, o Gold Style e o Havengate.

A situação é de um paradoxo brutal. O mesmo dinheiro que os irmãos Bolsonaro ajudaram a classificar como “terrorista” está, segundo a PF, em posse e beneficiando diretamente a família. Ao pedir o enquadramento das facções, Flávio pode ter fornecido às autoridades americanas o pretexto perfeito para um cerco que, agora, ameaça prendê-lo. A ironia, notada pela coluna de Josias de Souza (UOL), é que o “feitiço do terrorismo pode enfeitiçar Flávio Bolsonaro”, e a decisão do governo Trump pode acabar “blindando o clã Bolsonaro” de forma inversa, ao atrair a atenção do FBI para suas próprias transações. A teia está desenhada: do aposentado do Rio de Janeiro ao traficante do PCC, de Vorcaro aos Bolsonaro, o dinheiro circulou. Agora, a conta pode estar prestes a chegar.

Com informações de G1, O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, BBC News Brasil, Agência Brasil, Brasil de Fato, Revista Fórum, Intercept Brasil, Metrópoles ■

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