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A decisão do governo dos Estados Unidos, em maio de 2026, de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais foi comemorada com entusiasmo pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou a medida como um "grande dia", e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) apressou-se a agradecer às autoridades americanas. No entanto, por trás da retórica de combate ao crime organizado, desenha-se um cenário de alta complexidade jurídica e política: as investigações em curso no Brasil sugerem que os próprios irmãos podem estar umbilicalmente ligados ao financiamento das mesmas facções que pediram para ser combatidas, criando uma situação paradoxal em que poderão ser enquadrados nos Estados Unidos como terroristas.
O fio condutor dessa intricada teia financeira é o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso em meio a um escândalo bilionário de fraudes. A Polícia Federal (PF) descobriu que o fundo REAG, controlado por Vorcaro, era o destino de dinheiro das principais facções do narcotráfico brasileiro, notadamente o PCC. Dados enviados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e obtidos pela CPI do Crime Organizado mostram que o Fundo de Investimento Gold Style, administrado pela REAG, recebeu R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela PF como parte do esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro. Entre os repasses estão R$ 759,5 milhões feitos pela Aster Petróleo, uma distribuidora de combustíveis descrita pelas investigações como uma engrenagem central na lavagem de dinheiro da facção. O fundo também recebeu cerca de R$ 158 milhões da BK Bank e R$ 175 milhões da Inovanti, ambas apontadas como núcleos financeiros utilizados pelo PCC para ocultar recursos.
Ao todo, seis fundos administrados pela REAG — Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna — estão sob suspeita de integrar o esquema bilionário do PCC, com um patrimônio combinado de R$ 102,4 bilhões. A estrutura criminosa não parou por aí. A partir do REAG (primeira camada), o dinheiro do tráfico migrou para o Fundo Gold Style (segunda camada), que, por sua vez, alimentou a terceira camada: o fundo ENTRE. De acordo com o relatório do COAF, a Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Vorcaro como braço operacional, recebeu R$ 139 milhões de empresas suspeitas e foi usada como "conta de canal de passagem" para recursos. A PF também descobriu que a Entre Investimentos foi responsável por enviar ao menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) de Vorcaro para o fundo Havengate Development Fund LP, a quarta e última camada do esquema.
O fundo Havengate, sediado no Texas, é onde a investigação chega aos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro. O fundo é administrado por Paulo Calixto e Altieris Santana, da Calixsan, descritos pela PF como os "operadores de Eduardo Bolsonaro nos EUA". O próprio Flávio Bolsonaro confirmou que os recursos pagos por Vorcaro para a produção do filme "Dark Horse" (cinebiografia de Jair Bolsonaro) passaram pelo Havengate. Contudo, a PF suspeita que parte milionária desses recursos tenha, na verdade, sido desviada para financiar o estilo de vida luxuoso de Eduardo nos Estados Unidos, para onde ele se mudou em fevereiro de 2025. Mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostraram Eduardo Bolsonaro pedindo para um interlocutor "enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual". Flávio chegou a negociar com Vorcaro o valor de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões) para o filme, mas o banqueiro só pagou cerca de metade. Ambos os irmãos negam qualquer irregularidade, com Eduardo classificando as suspeitas como uma "tentativa de assassinato de reputação".
A gravidade da situação levou a Polícia Federal a dar um passo sem precedentes. A corporação não só aprofundou as investigações no Brasil como também acionou formalmente o Federal Bureau of Investigation (FBI), informando as autoridades americanas sobre toda a teia financeira que conecta o REAG, o Gold Style, a ENTRE e, finalmente, o Havengate. Fontes indicam que a PF deve solicitar oficialmente aos EUA a quebra do sigilo do fundo Havengate para determinar o destino final dos recursos. O deputado André Janones (Rede-MG) já afirmou que o FBI "vai para cima de Flávio Bolsonaro", em um movimento que amplia a cooperação entre as forças dos dois países. A movimentação da PF, que também inclui a descoberta de que Calixto e Santana abriram uma offshore em Delaware (paraíso fiscal americano) em 12 de fevereiro de 2026 para gerir os recursos do filme, aumentou ainda mais a pressão sobre os irmãos.
Nesse contexto, algumas análises políticas e jurídicas começam a levantar uma hipótese no mínimo curiosa. Ao pressionarem o governo Trump para classificar o PCC e o CV como narcoterroristas — abrindo caminho para possíveis intervenções militares e sanções econômicas dos EUA no Brasil — Flávio e Eduardo Bolsonaro podem ter, na verdade, acelerado um processo que os atinge em cheio. Ao estabelecer uma linha direta entre o dinheiro do tráfico e o Havengate, os irmãos podem ter fornecido às autoridades americanas todos os elementos necessários para enquadrá-los como terroristas, por associação ou por financiamento indireto. Alguns comentaristas chegam a sugerir que o pedido insistente dos irmãos pela classificação das facções poderia ser interpretado como um pedido involuntário para que decretassem as próprias prisões. A ironia é cruel: Flávio pediu a Trump que declarasse PCC e CV terroristas, e, agora, a PF descobriu que o REAG, camada inicial dessa engrenagem, recebia dinheiro diretamente dessas mesmas facções. O efeito bumerangue parece inevitável.
O governo brasileiro, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sempre se posicionou contra a classificação, temendo uma violação da soberania nacional. Agora, a decisão de Trump, influenciada pelos Bolsonaro, pode se voltar contra seus próprios mentores. Com a PF no encalço do Havengate e o FBI sendo acionado, Flávio e Eduardo Bolsonaro podem descobrir, da pior maneira possível, que jogar com o fogo do terrorismo pode queimar aquilo que se tem de mais caro: a própria liberdade. O desfecho dessa trama financeira e política, que envolve bilhões de reais e as mais altas esferas do poder, promete ser um dos capítulos mais dramáticos da história recente do país.
Com informações de BBC News Brasil, G1, Folha de S.Paulo, Revista Fórum, Brasil de Fato, Intercept Brasil, UOL, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, A Pública, Metrópoles, O Povo, Poder360, Terra, Extra, TV Pampa, Primeiro Jornal ■