Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
10 presidentes em 10 anos no Peru: segundo turno é hoje
País decide hoje o futuro entre a herança de Fujimori e a promessa de mudança em meio à maior crise política da América Latina
America do Sul
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRbIDIj0mJkEygXEDiJYQ5utF2FDVkO8HFcFA&s
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 07/06/2026

O Peru chega ao segundo turno das eleições presidenciais deste domingo (7) imerso em um cenário de profunda instabilidade institucional. Na última década, oito presidentes passaram pelo poder, e o próximo mandatário, seja a direitista Keiko Fujimori ou o esquerdista Roberto Sánchez, será o nono chefe de Estado do país desde 2016. A votação acontece em meio a um ambiente de forte polarização, com pesquisas apontando empate técnico entre os candidatos e cerca de 20% do eleitorado ainda indeciso. Além da indefinição política, os peruanos vão às urnas pressionados pelo avanço da criminalidade, que se tornou uma questão central na campanha.

A trajetória do Peru nos últimos dez anos é marcada por uma sucessão de escândalos de corrupção, denúncias e processos de vacância presidencial que se tornaram recorrentes. Especialistas apontam o período posterior às eleições de 2016, que deram a vitória ao economista Pedro Pablo Kuczynski por uma margem estreita contra Keiko Fujimori, como o estopim para a crise. Na ocasião, o partido de Fujimori detinha a maioria no Congresso e, em menos de dois anos, conseguiu derrubar o mandatário. O mecanismo utilizado foi o artigo 113 da Constituição peruana, que permite a destituição do chefe do Executivo por "incapacidade moral permanente", um instrumento que ficou conhecido como "impeachment express" e foi responsável por sucessivas quedas. O cientista político e especialista em sistemas eleitorais, Fernando Tuesta, ressaltou a gravidade da situação ao comentar a apuração controversa do primeiro turno de 2026, afirmando que, após a confirmação dos dados, não havia mais margem para mudanças por parte da Justiça Eleitoral.

Para entender a fundo a crise que o país enfrenta, é necessário relembrar os presidentes que ocuparam o Palácio de Pizarro na última década, conforme detalhado por veículos como a CNN e a revista Wired. A lista evidencia um rodízio de governantes que, na maioria dos casos, não conseguiram completar seus mandatos:

  • Ollanta Humala (2011-2016): Foi o último presidente a conseguir completar um mandato integral de cinco anos. Após deixar o cargo, enfrentou investigações por corrupção, mas nunca foi condenado.
  • Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018): Economista renunciou ao cargo em meio a um escândalo envolvendo a construtora brasileira Odebrecht, pressionado por um Congresso de maioria fujimorista que se preparava para votar sua destituição.
  • Martín Vizcarra (2018-2020): Vice-presidente que assumiu após a renúncia de Kuczynski, foi destituído pelo Congresso após acusações de ter recebido propina quando era governador. Foi condenado posteriormente a 14 anos de prisão.
  • Manuel Merino (2020): Presidente do Congresso que assumiu após a queda de Vizcarra, mas renunciou apenas cinco dias depois, sob forte pressão das ruas e após protestos que deixaram mortos.
  • Francisco Sagasti (2020-2021): Eleito pelo Congresso para um mandato-tampão de transição, conseguiu conduzir o país até as eleições de 2021 sem grandes sobressaltos, entregando o cargo ao vencedor.
  • Pedro Castillo (2021-2022): Professor e sindicalista de esquerda, foi preso após tentar dissolver o Congresso e governar por decreto, em uma tentativa de autogolpe que resultou em sua destituição.
  • Dina Boluarte (2022-2025): Primeira mulher a presidir o Peru, foi derrubada pelo Congresso em outubro de 2025 com uma votação unânime. A acusação central foi o "Rolexgate", um escândalo envolvendo relógios de luxo e enriquecimento ilícito.
  • José Jeri (2025-2026): Assumiu após a queda de Boluarte, mas permaneceu poucos meses no poder, sendo destituído em fevereiro de 2026 por má conduta.
  • José María Balcázar (2026): Presidente interino, escolhido para ocupar a cadeira apenas até a posse do novo mandatário eleito em julho de 2026.

Após um primeiro turno turbulento, realizado em 12 de abril, Keiko Fujimori (Força Popular) garantiu a vaga para o segundo turno com 17,1% dos votos. A disputa pela segunda posição foi decidida por uma margem mínima de apenas 18.799 votos, com o esquerdista Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru) alcançando 12% contra 11,9% do empresário de extrema direita Rafael López Aliaga. A demora na apuração gerou contestações, mas foi validada pelas autoridades eleitorais.

No último dia de campanha, as propostas dos candidatos evidenciaram a polarização. Em comícios lotados, Fujimori defendeu uma agenda focada em ordem, segurança e um governo de confiança. “Queremos um governo que nos traga paz, que restaure a ordem”, pediu a filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que concorre pela quarta vez consecutiva. Por outro lado, Sánchez, ex-ministro de Pedro Castillo, reuniu apoiadores com música andina e prometeu “democracia”, “o fim do caos” e uma reforma constitucional para modificar a Carta Magna. A pesquisa mais recente apontava um empate técnico, com um quinto do eleitorado indeciso, indicando que a decisão será nas urnas.

A economia e a segurança são temas quentes. Enquanto o Peru apresenta um crescimento acima da média regional e mantém uma das moedas mais estáveis do mundo, fruto de uma surpreendente resiliência institucional apesar da crise, a população está indignada com o avanço do crime organizado, incluindo extorsões e homicídios. Além disso, a eleição tem repercussões geopolíticas: analistas apontam que o voto escolherá entre uma aproximação com os Estados Unidos, defendida por Fujimori, e um alinhamento com a China, sugerida por Sánchez, afetando os fluxos de comércio no Oceano Pacífico.

Com informações de BBC News Mundo, CNN Español, G1, Folha de S. Paulo, Agência Brasil, R7, France 24, Wired en Español ■

Mais Notícias