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ONG da produtora de Dark Horse teria ligações com assassinos de Marielle, diz PF
Investigação da Polícia Federal revela que o senador Flávio Bolsonaro destinou R$ 199 mil em emendas a uma ONG suspeita de integrar esquema de desvios liderado pelos irmãos Brazão, condenados pela morte da vereadora Marielle Franco
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 25/05/2026

A trama que envolve o filme "Dark Horse" e a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República ganhou um novo capítulo explosivo. A Polícia Federal (PF) investiga o envio de uma emenda parlamentar de R$ 199 mil do senador a uma organização não-governamental (ONG) que, segundo as apurações, integra um esquema de desvios de verbas públicas comandado pelos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, condenados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O caso ocorre enquanto a produtora do filme "Dark Horse", a Go Up Entertainment, recebeu US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso, para bancar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A emenda de Flávio Bolsonaro foi destinada ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro, área de forte influência política da família Brazão. O repasse ocorreu em 29 de novembro de 2023, pouco mais de um mês após o gabinete do senador ter sido procurado por Robson Calixto Fonseca, conhecido como "Peixe", policial militar da reserva que atuava como assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e que também foi condenado por organização criminosa no caso Marielle.

Mensagens obtidas pela PF mostram que "Peixe" tratou diretamente com uma assessora de Flávio Bolsonaro sobre a liberação dos recursos. O projeto beneficiado chamava-se "Jogadores do Futuro – Vibrando com o Time", sob responsabilidade do Ministério do Esporte. Mesmo após a repercussão do caso Marielle e com os Brazão já presos, "Peixe" voltou a procurar o gabinete do senador em novembro de 2024, pedindo mais dinheiro para que "o projeto não termine".

Além da emenda de Flávio, o Ifop recebeu outras duas emendas: uma de R$ 1,5 milhão do então deputado Chiquinho Brazão e outra de R$ 299 mil da deputada Chris Tonietto (PL-RJ). A PF suspeita que o instituto faça parte de um esquema que movimentou pelo menos R$ 268 milhões entre 2020 e 2024 por meio de emendas de diversos parlamentares.

A ligação com o filme "Dark Horse" surge porque a mesma empresária, Karina Ferreira da Gama, que comanda a produtora Go Up Entertainment, também preside a ONG Academia Nacional de Cultura (ANC) e o Instituto Conhecer Brasil – entidades que receberam verbas públicas milionárias. A ANC, por exemplo, recebeu uma emenda de R$ 2 milhões da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), além de outras de R$ 2,6 milhões de parlamentares como Alexandre Ramagem. O Instituto Conhecer Brasil firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar wi-fi em comunidades de baixa renda, negócio que está sob investigação do Ministério Público.

A Polícia Federal já abriu inquérito para apurar se essas organizações não-governamentais serviram como um ecossistema de captação e desvio de recursos públicos, com a intermediação de políticos bolsonaristas. O ministro Flávio Dino, do STF, determinou a abertura de investigação sobre emendas destinadas à produtora do filme. A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) também apresentou representação ao TSE pedindo a suspensão do filme "Dark Horse" e a abertura de investigação por abuso de poder econômico.

A conexão se torna ainda mais grave ao se considerar que os irmãos Brazão foram condenados pelo STF em fevereiro de 2026 a penas de 76 anos de prisão cada pelo assassinato de Marielle Franco, cometido em 2018. A investigação da PF revelou que o grupo dos Brazão operava um esquema de "captura de verbas públicas" por meio de ONGs, utilizando emendas parlamentares como instrumento de desvio. O próprio Flávio Bolsonaro, ao destinar recursos ao Ifop, acabou se inserindo nessa rede criminosa.

Procurado, o senador Flávio Bolsonaro afirmou que "não é papel do parlamentar auditar os projetos" e que os relatórios do Ifop sugeriam que o trabalho "foi um sucesso". No entanto, a PF já identificou que parte do valor foi devolvida (cerca de R$ 5 mil) e que o restante não teve prestação de contas adequada. A defesa de "Peixe" não quis se manifestar, e o Ifop não retornou os contatos da reportagem.

O caso expõe a teia de relações perigosas que envolve a pré-campanha de Flávio Bolsonaro: de um lado, o financiamento milionário de um banqueiro preso para um filme que se transformou em "comédia de erros"; de outro, a destinação de dinheiro público a uma ONG ligada a assassinos confessos de uma vereadora. A sobreposição desses dois escândalos ameaça não apenas a viabilidade eleitoral do senador, mas também a própria lisura do processo democrático.

Com informações de Brasil de Fato, Revista Fórum, O Globo, Intercept Brasil, Valor Econômico, Estadão, Folha de S.Paulo, Metrópoles, Terra, Imprensa Pública, Agenda do Poder, TVT News, Almapreta, Infomoney, Veronotícias, Marcia Dantas News, Facebook, Threads, X, YouTube ■

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