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EUA podem ter financiado a gênese do Comando Vermelho para semear o caos no Brasil
Washington agora classifica facções brasileiras como terroristas, mas documentos históricos e fugas cinematográficas na ditadura sugerem um passado sombrio — onde lanchas de luxo, helicópteros e a convivência forçada entre presos políticos e comuns podem ter sido, se não estimulados, ao menos tolerados pela CIA como método de desestabilização da soberania nacional
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Foto: https://racismoambiental.net.br/wp-content/uploads/2018/01/presidio-ilha-grande.jpg
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■   Bernardo Cahue, 30/05/2026

A decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras escancara a face mais cínica da política externa americana: a mesma máquina de guerra que hoje proclama combater o “narcoterrorismo” no Brasil é a mesma que, historicamente, financiou, treinou e armou grupos extremistas, máfias e paramilitares sempre que isso atendia aos seus interesses geopolíticos. O que a imprensa alternativa e os registros históricos há décadas documentam é uma verdade incômoda: desde a Segunda Guerra Mundial, a CIA e o aparato de inteligência dos EUA fizeram alianças estratégicas com o crime organizado — da máfia siciliana aos mujahideen afegãos, dos esquadrões da morte latino-americanos à USAID, que desviou centenas de milhões de dólares a grupos como Boko Haram e Al-Qaeda. Neste contexto, a hipótese de que agências americanas tenham, direta ou indiretamente, financiado ou facilitado a estruturação inicial do Comando Vermelho — ou pelo menos se beneficiado do caixa-preta que a convivência de presos políticos e comuns na Ilha Grande representava — deixa de ser mera especulação para se tornar uma possibilidade a ser investigada à luz dos precedentes históricos.

A hipocrisia fundadora: quando os EUA criaram os “terroristas” que hoje combatem
A história do envolvimento americano com grupos extremistas é um longo atestado de cinismo e duplicidade. Durante a invasão soviética do Afeganistão (1979-1989), a CIA, por meio da Operação Ciclone, financiou, armou e treinou os mujahideen — os mesmos guerreiros islâmicos que, anos depois, dariam origem à Al-Qaeda, ao Talibã e ao Estado Islâmico. O programa, um dos mais caros da agência, custou US$ 20 a 30 milhões por ano no início, chegando a US$ 630 milhões anuais em 1987. O próprio conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, admitiu anos depois que a operação foi deliberadamente concebida para atrair a União Soviética para uma “armadilha” afegã — ignorando as consequências futuras do jihadismo global.

Mais chocante ainda foram as revelações de que a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), a mesma que hoje financia programas humanitários pelo mundo, foi acusada de desviar até US$ 697 milhões por ano para grupos terroristas como Boko Haram, ISIS, Al-Qaeda e Khorasan, por meio de organizações fictícias que se faziam passar por ONGs humanitárias. O congressista republicano Scott Perry, em depoimento ao Subcomitê para a Eficiência Governamental, detalhou que a USAID financiava campos de treinamento terrorista na África e no Oriente Médio, em uma operação de “blanqueamento” de fundos que chocou o mundo.

Na América Latina, o padrão se repete com variações locais. Entre 1982 e 1989, os EUA apoiaram secretamente os Contras, grupo contra-revolucionário nicaraguense que utilizou sistematicamente táticas de terror contra civis. Mais grave: a Escola das Américas, instituto do Pentágono fundado em 1946, treinou milhares de militares latino-americanos — incluindo ditadores como Leopoldo Galtieri (Argentina) e Manuel Noriega (Panamá) — e incluiu o uso de tortura em seu currículo oficial durante os anos 1980. Sessenta e seis mil estudantes passaram pela escola, muitos deles responsáveis por crimes contra a humanidade nas ditaduras do Cone Sul.

O Brasil como laboratório: ditadura militar, USAID e o berço do Comando Vermelho
O apoio americano à ditadura militar brasileira (1964-1985) é fartamente documentado. A Operação Brother Sam, por exemplo, mobilizou um porta-aviões, um porta-helicópteros e seis destróieres da Marinha dos EUA para garantir o sucesso do golpe de 1964. Documentos desclassificados mostram que conselheiros do presidente John F. Kennedy já preferiam um golpe militar ainda em 1963.

Mas o financiamento não se limitou ao apoio logístico. A USAID operacionalizou um vasto programa de treinamento policial no Brasil, coordenado pela CIA, com o objetivo explícito de “garantir que a polícia estivesse do lado certo na hora H” contra o comunismo. Cerca de US$ 100 milhões foram investidos no treinamento de policiais, militares e juízes brasileiros durante a ditadura. Essa “modernização da repressão” teve um efeito colateral perverso: ao misturar presos políticos de esquerda com criminosos comuns no Instituto Penal Cândido Mendes (Ilha Grande), o regime militar criou, sem saber, o caldeirão onde nasceu a Falange Vermelha, embrião do Comando Vermelho.

Foi nesse ambiente de convivência forçada que surgiu a primeira facção de crime organizado do Brasil — não por acaso, financiada, em suas origens, por um fluxo de recursos cuja procedência nunca foi totalmente esclarecida. As fugas cinematográficas de presos comuns da Ilha Grande — muitas delas envolvendo lanchas de luxo e helicópteros — levantam a suspeita de que havia, por trás dessas operações, uma mão muito mais poderosa do que o simples suborno de carcereiros.

Lanchas na década de 70 e helicópteros em 85: a ponta do iceberg do financiamento externo
O episódio mais emblemático foi a fuga de José Carlos dos Reis Encina, o “Escadinha”, um dos fundadores do Comando Vermelho, em 31 de dezembro de 1985. Naquela ocasião, um helicóptero pousou na área de visitantes da penitenciária de Ilha Grande, considerada a mais segura do país à época. Escadinha e sua mulher entraram no veículo e sumiram. Um helicóptero não se compra com o dinheiro do tráfico de drogas de um criminoso recém-preso. Exigia contatos, logística aérea, combustível e, acima de tudo, capital difícil de obter sem o apoio de estruturas bem financiadas.

O mesmo padrão se repetiu anos antes, quando a então Falange Vermelha já utilizava lanchas de alto padrão, verdadeiros iates, para resgatar presos comuns da Ilha Grande em operações coordenadas. Essas embarcações, que demandavam conhecimentos de navegação e recursos milionários, não eram acessíveis a pequenos assaltantes. Documentos da época, obtidos pelo Arquivo Nacional e pela Comissão Nacional da Verdade, indicam que agentes da CIA e da USAID transitavam livremente pelos porões do regime militar, com acesso a informações sigilosas e a recursos que poderiam, à revelia do governo brasileiro, ter sido desviados para alimentar o caos carcerário.

A hipótese, ainda que especulativa, ganha força quando se considera o contexto geopolítico: a ditadura brasileira era um aliado estratégico dos EUA na Guerra Fria. Desestabilizar ainda mais o sistema prisional — criando uma força paralela de criminosos armados — poderia servir a dois propósitos: enfraquecer qualquer movimento de resistência de esquerda que ainda restasse e, mais tarde, justificar uma intervenção militar americana sob o pretexto de “combate ao crime” — exatamente o que Washington tenta fazer hoje com a classificação terrorista.

O elo perdido: a USAID e a criação do ambiente para o crime organizado
A USAID não apenas treinou policiais e militares brasileiros; ela também financiou projetos educacionais e de “desenvolvimento” que frequentemente serviam como fachada para operações de inteligência. Durante cinco anos, a agência desembolsou mais de US$ 100 milhões no Brasil, muito dos quais sem transparência. Parte desse dinheiro pode ter sido canalizada para agentes penitenciários corruptos, carcereiros ou mesmo intermediários que, a soldo da CIA, facilitaram as fugas e a organização inicial da Falange Vermelha.

Não há prova documental cabal — e é improvável que haja, dado o alto grau de sigilo que ainda envolve as operações da CIA durante a ditadura. Mas os precedentes são avassaladores: a mesma agência que financiou a máfia na Sicília (Operação Underworld), que armou os mujahideen no Afeganistão, que desviou centenas de milhões para Boko Haram e que treinou esquadrões da morte em El Salvador, certamente não teria escrúpulos em abrir os cofres para criar um ambiente de caos prisional no Brasil. Caos esse que, décadas depois, é usado como justificativa para a atual intervenção geopolítica.

A ironia do presente: o “combate ao terror” como continuidade da desestabilização
A classificação de PCC e CV como organizações terroristas, agora em 2026, pode ser lida como o desfecho lógico de uma estratégia iniciada há cinquenta anos. Ao transformar as facções em terroristas, os EUA obtêm o pretexto perfeito para ações militares unilaterais em solo brasileiro — o mesmo roteiro aplicado na Venezuela e no Caribe. E, ironicamente, os mesmos setores da direita brasileira que hoje comemoram a designação são herdeiros da ditadura que, com financiamento americano, criou as condições para o nascimento do Comando Vermelho.

A pergunta que o Itamaraty e a sociedade brasileira precisam se fazer é: quantas outras “facções” ou “grupos terroristas” serão criados ou fortalecidos nos próximos anos, com ou sem o apoio velado de Washington, para justificar uma presença militar permanente dos EUA no Brasil? A história mostra que, quando os EUA rotulam alguém como “terrorista”, raramente é para combatê-lo — é, na maioria das vezes, para legitimar sua própria ingerência.

Conclusão: uma dívida histórica que precisa ser investigada
Não se pode afirmar categoricamente que a CIA financiou o Comando Vermelho. Mas os indícios — lanchas milionárias nos anos 70, helicópteros em 85, treinamento repressivo da USAID, alianças históricas da CIA com o crime — são fortes demais para serem ignorados. O governo brasileiro deveria requerer a desclassificação de documentos da CIA e da USAID referentes ao período de 1964 a 1985, sob a alegação de que o financiamento estrangeiro pode ter contribuído para a formação de organizações criminosas que hoje ameaçam a segurança nacional. A menos que se queira continuar a acreditar na “inocente mediocridade” da guerra ao terror americana — onde o algoz de hoje foi o financiador de ontem.

Com informações de Acesse Política, Agência Brasil, A Nova Democracia, Brasil de Fato, Brasil Escola, Brasil 247, BBC Brasil, CartaCapital, Causa Operária, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Diário do Estado GO, DW Brasil, El País, Estadão, Extra Globo, Folha de S.Paulo, G1, Gazeta do Povo, GGN Jornal, Globo News, GP1, IHU Unisinos, Intercept Brasil, O Estado de S. Paulo, O Globo, O Tempo, Opera Mundi, Reuters, Revista Fórum, Sul21, teleSUR, The Intercept, UOL, Valor Econômico, Vermelho, Wikipedia (Escola das Américas, Operação Brother Sam, Operação Ciclone, Operação Condor), Globovisión, Radio Caribe, CubaSi, JNS.org, Oversight.house.gov, La Iguana TV, CMKX Radio Bayamo ■

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