Transação intermediada por Flávio e Eduardo para beneficiar o filme do pai revela rastro de dinheiro do banqueiro Vorcaro em um emaranhado de empresas de fachada no exterior; PF investiga conexão com lavagem de dinheiro e grupos tidos como terroristas pelos EUA
Uma nova e explosiva investigação da Polícia Federal coloca os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro no centro de uma intrincada teia de suspeitas de desvio de dinheiro público e lavagem de capitais. O foco da apuração é a rota de R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões) do banqueiro preso Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que teriam sido repassados a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O destino declarado seria a produção do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre o ex-presidente. No entanto, a suspeita das autoridades é que o dinheiro tenha sido, na verdade, usado como um fundo para custear as despesas pessoais e políticas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos, residência do parlamentar cassado desde 2025.
A Polícia Federal já decidiu ampliar o alcance da investigação. De acordo com a transcrição analisada, a corporação vai solicitar uma cooperação formal com o Federal Bureau of Investigation (FBI) para quebrar os sigilos dos fundos suspeitos, que incluem o “Enterry”, “Reag” e “Ravenngate” (ou “Havengate”). O pedido de cooperação internacional ganha um contorno ainda mais dramático com a recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. Esta classificação, que entrou em vigor em junho, pode transformar a conexão financeira entre os fundos ligados à família Bolsonaro e essas organizações em um problema de segurança nacional para os americanos, elevando drasticamente as possíveis consequências jurídicas para os envolvidos.
Abaixo, os detalhes da complexa operação financeira e as provas que ligam os filhos do ex-presidente a esse esquema.
- Pedido de R$ 61 milhões para o filme “Dark Horse”: Mensagens de WhatsApp e áudios obtidos com exclusividade pelo site Intercept Brasil, e confirmados por veículos como G1 e TV Globo, mostram o senador Flávio Bolsonaro pessoalmente pressionando o banqueiro Daniel Vorcaro por depósitos. Em um dos diálogos, Flávio afirma que a produção não poderia “vacilar” e que seria “muito ruim um calote”. Em nota oficial, Flávio confirmou o pedido, mas defendeu-se afirmando se tratar de um patrocínio privado para um filme sobre a história do pai, sem uso de dinheiro público.
- O Fundo Havengate e o papel de Eduardo Bolsonaro: O dinheiro do banqueiro foi transferido para um fundo sediado no Texas, Estados Unidos, chamado Havengate Development Fund LP. O administrador deste fundo é o advogado Paulo Calixto, o mesmo profissional de imigração que atende Eduardo Bolsonaro. Após reportagens indicarem seu envolvimento, Eduardo inicialmente negou qualquer gestão do fundo, declarando ter apenas “cedido seus direitos de imagem”. No entanto, documentos e conversas subsequentes, também divulgadas pelo Intercept, revelaram que ele teria atuado como operador da estrutura financeira, assinado contratos e até discutido sobre o rateio dos pagamentos.
- Contradições na defesa e suspeitas de fachada: A investigação aponta um forte indício de que o projeto do filme possa ter servido como uma “fachada” para a movimentação de capitais. Enquanto Flávio alega ter conseguido o financiamento para o filme, a produtora Go Up Entertainment e o deputado Mário Frias (PL-SP), envolvidos no projeto, negaram categoricamente ter recebido qualquer recurso de Vorcaro. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que o dinheiro teria sido, na verdade, desviado para burlar bloqueios judiciais impostos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) às contas de Eduardo Bolsonaro no Brasil e financiar sua estadia nos Estados Unidos.
- Conexão com o terrorismo e pedido de cooperação ao FBI: A situação se agravou quando a PF, ao rastrear o dinheiro, descobriu que uma das empresas da cadeia financeira (fundos da Reag) já havia sido investigada em operações de lavagem de dinheiro ligadas ao narcotráfico brasileiro. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, classificou a decisão norte-americana de classificar as facções como terroristas de “equívoco grosseiro”, mas este selo pode se voltar contra os envolvidos. Especialistas apontam que, a partir de agora, o governo dos Estados Unidos tem o poder de impor sanções severas a qualquer pessoa ou empresa que se relacione, direta ou indiretamente, com os recursos dessas facções.
Diante desse cenário, a PF deverá enviar todas as provas acumuladas ao FBI. A expectativa é que, além da quebra dos sigilos, haja o pedido imediato de bloqueio das contas e ativos nos EUA. A interpretação do caso pelas autoridades americanas, focadas no combate ao terrorismo, pode ser menos suscetível a justificativas políticas e mais drástica em suas consequências. O “feitiço do terrorismo”, como cravou o colunista Josias de Souza, pode ter se virado contra o clã Bolsonaro.
A situação mais imediata envolve o próprio Eduardo Bolsonaro, que responde a um processo no STF por coação no curso do processo, com julgamento marcado para 16 de maio. A expectativa entre analistas é que sua condenação poderá levar à perda de seu passaporte, inviabilizando sua permanência nos Estados Unidos.
Com informações de: BBC Brasil, G1, Folha de S.Paulo, Estadão, CNN Brasil, UOL, Revista Fórum, Intercept Brasil ■