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Crescem atos de intolerância religiosa e política em 2026
Agressão covarde contra idoso petista em Copacabana expõe o câncer da intolerância bolsonarista
Analise
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■   Bernardo Cahue, 14/06/2026

Os ataques de cunho político e religioso registraram um aumento vertiginoso no Brasil desde 2013, mas foi a partir da ascensão do movimento bolsonarista que o fenômeno se tornou sistêmico e profundamente enraizado em diversas regiões do país. Dados de observatórios de violência política e denúncias coletadas por organizações de direitos humanos apontam que, entre 2018 e 2026, os casos de agressões físicas, ameaças e intolerância contra adversários políticos e minorias religiosas cresceram de forma exponencial. Especialistas atribuem essa escalada à normalização de discursos agressivos e à desconstrução do respeito democrático — um legado direto de figuras públicas que, sem qualquer pudor, transformaram o insulto e a pregação do ódio em ferramentas de mobilização eleitoral.

O ano de 2026 já acumula dezenas de ocorrências desse tipo, muitas delas com requintes de crueldade. No último dia 14 de junho, o portal g1 divulgou o relato de um ataque brutal ocorrido três dias antes, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, que resume de forma chocante a atual realidade: Mauro Figueiredo Rocha Dias da Costa, um idoso de 69 anos, foi imobilizado, espancado e xingado enquanto portava um terço e uma bolsa com adesivo da deputada federal Benedita da Silva (PT). O caso é ainda mais grave porque ocorreu em frente ao seu prédio, com a presença de um porteiro que se recusou a intervir — um símbolo da omissão que muitas vezes acompanha a violência política no país.

Segundo o boletim de ocorrência registrado na 14ª DP (Leblon) e transferido para a 12ª DP (Copacabana), Mauro foi surpreendido por três agressores — um homem vestindo terno e duas mulheres com porte físico de lutadoras. O grupo começou a proferir ameaças de morte e insultos simultaneamente políticos e religiosos: "A gente vai te matar agora", "Você já prejudicou muita gente", "Seu petista de merda", "É Bolsonaro, é Bolsonaro" e "Sua igreja é uma igreja de merda". Durante a ação, os suspeitos arrancaram o terço do pescoço da vítima — um ato de profanação que evidencia a mistura intencional entre ódio político e intolerância religiosa. Uma das mulheres aplicou um "mata-leão" no idoso, enquanto o homem desferia socos em seu rosto. O espancamento durou cerca de cinco minutos, somente sendo interrompido por um transeunte que gritou "Para, para, para".

O deputado federal Reimont (PT) repercutiu o caso, associando a agressão ao adesivo da deputada Benedita da Silva fixado na bolsa da vítima. Em suas redes sociais, o parlamentar classificou a violência como "inadmissível e revoltante" e afirmou que "o registro policial aponta ameaças de morte e ofensas políticas e religiosas explícitas. Isso não é um fato isolado; é o reflexo de um ódio cego que tenta silenciar quem luta por justiça social". A declaração acerta em cheio a natureza do problema: não se trata de episódios desconexos, mas de uma estratégia difusa de intimidação que se alimenta da impunidade e do incentivo velado de lideranças políticas e religiosas.

O "câncer da intolerância" que hoje corrói o tecido social brasileiro foi deliberadamente alimentado por figuras do bolsonarismo radical. Entre os principais responsáveis por disseminar discursos que associam adversários a "inimigos a serem eliminados" estão:

  • Jair Bolsonaro – ao longo de sua trajetória pública, normalizou falas contra opositores, comunidades religiosas de matriz africana e movimentos sociais. Sua constante referência a "bandidos" e "comunistas" como alvos de violência criou um caldo de cultura para ataques como o de Copacabana.
  • Marco Feliciano – pastor e ex-deputado, notório por declarações que associam religiões afro-brasileiras ao "demônio" e por incitar perseguição religiosa disfarçada de "defesa da família".
  • Silas Malafaia – líder evangélico que transformou o púlpito em palanque para ataques a petistas, progressistas e à liberdade religiosa de cultos não cristãos, usando sua enorme influência midiática para espalhar intolerância.
  • Nikolas Ferreira – deputado federal que tornou as ofensas a adversários e a desqualificação do adversário político como marca registrada, frequentemente associando petistas e defensores de direitos humanos a "vagabundos" e "terroristas".
  • Michelle Bolsonaro – embora algumas vezes tente se apresentar como conciliadora, seu discurso em eventos religiosos e políticos frequentemente reforça uma visão maniqueísta que segrega "os que servem a Deus" dos "que servem ao mal", servindo de legitimação moral para a violência contra quem é tido como "inimigo de Cristo", como no episódio em que "demonizou" o presidente Lula por estar (supostamente, IA?) tomando um banho de pipoca.

O caso de Mauro Figueiredo Rocha não é exceção. Em 2026, já foram documentados ataques a terreiros de candomblé no Rio Grande do Sul, ameaças a vereadores petistas no Nordeste, e pelo menos seis episódios de agressões físicas a militantes de esquerda em São Paulo, todos com gritos de apoio a Bolsonaro e referências depreciativas a religiões não hegemônicas. O que une esses eventos é a certeza dos agressores de que estão amparados por uma "autorização moral" concedida por quem ocupa posições de poder e influência.

A polícia informou que imagens de câmeras de segurança do prédio onde mora a vítima serão analisadas, e que Mauro foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) para exame de corpo de delito. A investigação corre na 12ª DP, mas, considerando o histórico de casos similares, há enorme ceticismo sobre a efetiva identificação e punição dos agressores — a menos que haja pressão social e midiática consistente.

Enquanto lideranças bolsonaristas continuarem a repetir que "petista tem que levar tiro na cara" ou que "as religiões africanas são coisa do diabo", o câncer da intolerância seguirá metastatizando. A agressão a um idoso pacífico, que levava consigo apenas um terço e um adesivo de uma deputada, é o retrato mais nítido de um país onde o debate democrático foi substituído pela selvageria. O silêncio de parte da imprensa e a brandura do sistema de justiça diante desses atos só reforçam a sensação de que, para muitos, a violência contra "petistas e macumbeiros" ainda é tratada como "mero excesso de ânimo político". Não há mais tempo para eufemismos: o Brasil vive uma onda de terrorismo político e religioso de baixa intensidade, patrocinada verbalmente pelos nomes citados acima. E cada novo episódio — como o deste 11 de junho de 2026 — é uma prova cabal de que as palavras incendiárias de Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, Nikolas e Michelle Bolsonaro têm consequências sangrentas no mundo real.

Com informações de g1, portal G1 Rio, boletim de ocorrência da 12ª DP (Copacabana) ■

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