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Eduardo Bolsonaro não sugeriu substituir o Pix pelo Zelle; ele fez pior
Em meio a pressões dos EUA para enfraquecer o sistema público de pagamentos brasileiro, o ex-deputado foi além da polêmica sobre a troca: tratou o Pix como peça de barganha, defendeu um sistema privado notoriamente fraudulento e tentou passar a imagem de defensor de uma ferramenta que jamais ajudou a criar
Analise
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■   Bernardo Cahue, 06/06/2026

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não sugeriu literalmente a substituição do Pix pelo Zelle. A afirmação de que teria defendido a troca do sistema público brasileiro pelo modelo privado norte-americano, veiculada por diversos veículos de imprensa na última semana, não corresponde exatamente ao que ele disse. Porém, a contextualização da fala e o conjunto da atuação do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos revelam um cenário muito mais grave: Eduardo Bolsonaro tratou o Pix como uma peça de barganha comercial, equiparou uma infraestrutura soberana de sucesso mundial a um serviço privado processado por fraudes de mais de US$ 1 bilhão, tentou atribuir a seu pai a criação do sistema — uma inverdade factual já desmentida — e, nos bastidores de Washington, articula há meses a aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras em uma clara tentativa de instrumentalizar a soberania estrangeira para favorecer interesses políticos e garantir a impunidade de seu núcleo familiar. Em outras palavras: não defendeu a troca do Pix. Fez pior.

I. O que Eduardo Bolsonaro realmente disse — e por que a diferença importa

Na quarta-feira (3 de junho), em entrevista à rádio TMC, Eduardo Bolsonaro afirmou o seguinte: “Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Então, dá para ir para a mesa de negociação com os americanos com bons argumentos. Dá para conversar e botar na mesa isso daí e tentar segurar o ímpeto de retaliação contra qualquer meio que a gente utilize de pagamento”. A declaração ocorreu em um contexto delicado: o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) havia publicado relatório mencionando o Pix 20 vezes, acusando o Brasil de manter políticas que “desfavorecem empresas americanas no comércio digital e serviços de pagamento” e recomendando tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A fala, portanto, não foi um comentário técnico isolado; foi uma resposta à ofensiva comercial americana contra um dos maiores ativos tecnológicos do país.

Embora Eduardo Bolsonaro não tenha dito textualmente “vamos substituir o Pix pelo Zelle”, a mensagem foi inequívoca: o Brasil deveria colocar o Zelle na mesa de negociação com o governo Trump como um trunfo — ou seja, tratar a adoção ou o reconhecimento do sistema privado americano como moeda de troca para reduzir tarifas e amenizar as críticas ao Pix. Ao sugerir que os dois sistemas são “muito semelhantes” e que essa suposta equivalência poderia servir de argumento comercial, o ex-deputado equiparou um modelo público, gratuito e universalmente acessível a uma rede privada, restrita e controlada por um consórcio de bancos. E, ao fazê-lo no momento em que Washington pressiona exatamente para enfraquecer o sistema brasileiro, entregou um argumento de mão beijada aos críticos estrangeiros.

II. O recuo explosivo e a mentira sobre a criação do Pix

Diante da repercussão negativa — que incluiu críticas de líderes do governo Lula, como a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), que classificou o movimento de “nojento” —, Eduardo Bolsonaro recuou. Em vídeo publicado nas redes sociais, exaltado, exigiu retratação de veículos de imprensa: “Eu absolutamente jamais disse isso. Eu desafio o Globo a calar minha boca e mostrar um vídeo onde eu tenha dito porventura algo nesse sentido”. E, em um giro de manipulação histórica, acrescentou que o Pix “foi criado por Jair Messias Bolsonaro, sem taxas, e assim continuará sendo”.

A afirmação é objetivamente falsa. O Pix foi concebido pelo Banco Central do Brasil a partir de estudos iniciados ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2016. O projeto foi estruturado em 2018 e o sistema entrou em operação em novembro de 2020, já durante a gestão de Jair Bolsonaro, mas sem qualquer participação do então presidente em sua formulação técnica. A criação é fruto do trabalho de servidores públicos liderados pelo engenheiro Carlos Eduardo Brandt, e não de qualquer ato do ex-presidente. Ao repetir essa mentira, Eduardo não apenas desinforma, mas também tenta se apropriar politicamente de uma conquista que sempre combateu — ironia que não passou despercebida nas redes sociais.

III. Pix x Zelle: uma comparação que expõe a ignorância ou a má-fé

As diferenças técnicas e estruturais entre os dois sistemas são profundas e revelam por que a suposta “equivalência” sugerida por Eduardo Bolsonaro é, no mínimo, desonesta.

  • Natureza jurídica e controle: O Pix é uma infraestrutura pública, criada e regulada pelo Banco Central do Brasil, com participação obrigatória de todas as instituições financeiras de grande porte. Já o Zelle é um sistema privado, operado pela Early Warning Services (EWS), empresa controlada por um consórcio dos maiores bancos americanos — JPMorgan Chase, Bank of America, Capital One e Wells Fargo. O Pix é de todos os brasileiros; o Zelle é dos bancos.
  • Universalidade e alcance: O Pix atende mais de 170 milhões de usuários no Brasil e está disponível em todas as instituições financeiras, sem exceção. O Zelle, embora presente em mais de 2,4 mil aplicativos bancários, não cobre todo o território americano e só funciona dentro do ecossistema bancário aderente.
  • Custo: O Pix é gratuito para pessoas físicas. O Zelle pode cobrar tarifas, dependendo da política de cada banco associado.
  • Segurança e proteção ao consumidor: O Pix conta com o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite reação imediata em casos de fraude ou erro. O Zelle, por sua vez, permite o cancelamento apenas se o destinatário ainda não for cadastrado; uma vez enviado o dinheiro para um usuário registrado, a operação é irreversível.

O aspecto mais grave, porém, é o histórico recente de fraudes do Zelle. Em agosto de 2025, a procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James, ingressou com uma ação judicial contra a Early Warning Services, acusando a empresa de ter projetado o Zelle “sem características de segurança críticas, permitindo que golpistas alvejassem facilmente os usuários e roubassem mais de US$ 1 bilhão entre 2017 e 2023”. A ação descreve um cenário de fraudes “desenfreadas”, com golpistas se passando por empresas de energia elétrica para enganar consumidores, e detalha que as transferências irreversíveis impediam as vítimas de reaver o dinheiro. Um exemplo concreto citado na denúncia: uma moradora de Nova York transferiu US$ 1.476,89 para uma conta fraudulenta chamada “Coned Billing”, após receber ameaça de corte de luz. O banco JPMorgan Chase informou que não poderia reaver o valor. Esse é o sistema que Eduardo Bolsonaro sugeriu colocar “na mesa de negociação” com os americanos.

IV. A articulação mais ampla: Lei Magnitsky, coação e o plano de instrumentalizar dados brasileiros

A fala sobre o Pix não é um episódio isolado. Ela se insere em uma estratégia mais ampla de Eduardo Bolsonaro em Washington, onde ele vive desde o início de 2025. O parlamentar (licenciado e atualmente ex-deputado) tornou-se uma espécie de lobbyista informal do bolsonarismo junto ao governo Trump, com dois objetivos principais: obter sanções contra adversários políticos no Brasil e pressionar pela anistia do pai.

A principal ferramenta dessa atuação foi a Lei Global Magnitsky, instrumento que permite ao governo americano impor sanções financeiras, bloqueio de bens e restrição de entrada no país contra estrangeiros acusados de violações graves de direitos humanos ou corrupção. Em julho de 2025, após intenso lobby de Eduardo Bolsonaro, o governo Trump incluiu o ministro Alexandre de Moraes, do STF, sua esposa Viviane Barci de Moraes e a empresa da família na lista de sancionados. Em entrevista, Eduardo admitiu ter pedido pessoalmente a Trump a “retomada das punições”. As sanções só foram retiradas em dezembro de 2025, após aproximação diplomática entre Lula e Trump. Eduardo reagiu “com pesar”, lamentando que a sociedade brasileira “não tenha conseguido construir a unidade política necessária”.

Mais grave: em novembro de 2025, a Primeira Turma do STF, por unanimidade, recebeu denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação no curso do processo. Segundo o relator, ministro Alexandre de Moraes, há indícios de que Eduardo “atuou para que o governo dos Estados Unidos impusesse sanções a ministros do STF, integrantes da PGR e da Polícia Federal, com o objetivo de criar um ambiente institucional de instabilidade, prejuízos econômicos ao Brasil e coagir os ministros a decidir favoravelmente ao réu Jair Bolsonaro”. Em outras palavras: o filho do ex-presidente é acusado de usar um governo estrangeiro para chantagear o Supremo Tribunal Federal. O inquérito corre na mais alta corte do país.

V. O que realmente estava em jogo: soberania financeira e controle de dados

Ao sugerir colocar o Zelle na mesa de negociação, Eduardo Bolsonaro não estava apenas cometendo um equívoco técnico. Estava, ainda que implicitamente, abrindo a porta para que uma infraestrutura pública e soberana — o Pix — fosse tratada como objeto de barganha comercial com um país estrangeiro. A pergunta que se impõe é: o que mais o Brasil teria que ceder em troca de um alívio tarifário? Se o Pix, que hoje movimentou mais de R$ 35 trilhões em 2025 e é usado por 170 milhões de brasileiros, pode virar moeda de troca, então nenhum ativo estratégico nacional está a salvo.

Especialistas apontam que a proposta de substituir o Pix por sistemas privados estrangeiros implica a cessão de dados financeiros de milhões de brasileiros a empresas e agências americanas. O Pix é operado pelo Banco Central, sujeito à legislação brasileira de sigilo bancário e à fiscalização do Congresso. O Zelle é controlado por bancos privados americanos, sujeitos à jurisdição dos EUA e, potencialmente, à vigilância do governo Trump. Trocar um pelo outro — ou mesmo equipará-los como equivalentes negociáveis — significa abrir mão da soberania sobre as informações financeiras da população. Em um contexto em que Eduardo Bolsonaro já pediu a aplicação da Lei Magnitsky contra magistrados brasileiros, a combinação é explosiva: dados financeiros nas mãos de bancos americanos podem ser utilizados como instrumento de coerção política e econômica, a critério de um governo estrangeiro.

VI. As reações e o desfecho da polêmica

Além de Gleisi Hoffmann, outras lideranças repudiaram a fala. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) classificou a proposta como “entreguista”. O presidente Lula, em entrevista, reiterou que o Pix “é do Brasil e não será negociado”. No campo técnico, o Banco Central emitiu nota destacando as diferenças estruturais entre os dois sistemas e reafirmando o compromisso com o modelo público. Eduardo Bolsonaro, isolado, recorreu à tática da negativa e do ataque à imprensa, sem jamais explicar por que, em plena ofensiva comercial dos EUA contra o Pix, ele escolheu justamente o Zelle — um sistema notoriamente problemático e alvo de ações judiciais milionárias — como exemplo a ser levado à mesa.

VII. Conclusão: mais do que um escorregão, um projeto

Eduardo Bolsonaro não disse, em termos literais, “vamos substituir o Pix pelo Zelle”. O que ele fez foi pior: tratou o Pix como moeda de troca em uma negociação desleal, equiparou uma conquista nacional soberana a um serviço privado fraudulento, mentiu sobre a paternidade da ferramenta e revelou, mais uma vez, que sua atuação em Washington tem um único norte — favorecer os interesses do seu núcleo político, ainda que para isso seja necessário relativizar a soberania brasileira e ceder dados e infraestrutura crítica a um governo estrangeiro. A fala foi apenas a ponta visível de um iceberg de articulações que incluem pedidos de sanções a ministros do STF sob a Lei Magnitsky, lobby por tarifas contra o próprio país e, agora, uma tentativa explícita de desvalorizar o sistema público de pagamentos mais bem-sucedido do mundo.

Cabe ao Congresso Nacional, ao Judiciário e à sociedade brasileira avaliar com a devida gravidade o papel de Eduardo Bolsonaro como agente político em território estrangeiro. O Pix não está em jogo — ele é seguro, público, gratuito e pertence ao Brasil. A questão é outra: até quando o país tolerará que um ex-parlamentar, morando nos EUA, atue ativamente para fragilizar suas instituições, seus magistrados e seus ativos estratégicos, tudo em nome de uma obsessão familiar pela impunidade e pelo poder?

Com informações de BBC News Brasil, G1, UOL Economia, Agência Brasil, O Estado de S.Paulo, Revista Fórum, Poder360, CartaCapital, Correio Braziliense, CNN Brasil, Reuters, AP News, O Globo, Gazeta do Povo, Tribuna do Norte, A TARDE, Estado de Minas, Jornal de Brasília, Agência Pública, Diário do Centro do Mundo, The Intercept Brasil, Valor Econômico, Folha de S.Paulo, Brasil de Fato e InvestNews.

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