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Desde sua ascensão nacional, o bolsonarismo nunca foi apenas um fenômeno ideológico ou uma agenda de costumes. Foi também, e sobretudo, um comportamento de rua — uma estética agressiva, um estilo de confronto direto e uma cultura que transforma o oponente político em inimigo a ser aniquilado. Essa matriz comportamental, longe de ser acidental, tem raízes profundas na cultura das torcidas organizadas de futebol, notadamente aquelas do Rio de Janeiro. E nenhum parlamentar simboliza melhor essa fusão perversa do que Carlos Jordy (PL-RJ), deputado federal, membro do núcleo duro do bolsonarismo e ex-integrante de grupos violentos ligados à Torcida Jovem do Flamengo.
O fenômeno não é novo. O "câncer da intolerância" que hoje corrói a política brasileira foi alimentado, desde 2013, por uma escalada progressiva de violência verbal e física, intensificada a partir da ascensão do movimento bolsonarista. No entanto, o que muitos analistas ignoram é o componente corporificado e territorializado dessa violência: ela não vem apenas de discursos inflamados de líderes como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia, Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro, mas também de práticas e conexões concretas com grupos historicamente associados à brutalidade dentro e fora dos estádios. A política, para essa ala, é uma extensão da "briga de torcida" — e Carlos Jordy é seu principal representante no Congresso Nacional.
Quem é Carlos Jordy: do "Bonde da Fumaça" ao gabinete em Brasília
Nascido em Niterói em 1982, Carlos Roberto Jordy Coelho de Mattos construiu sua trajetória política como vereador da cidade (2017-2019) e depois como deputado federal, eleito em 2018 na esteira do bolsonarismo com mais de 200 mil votos. Atualmente no segundo mandato, é vice-líder da oposição e da minoria na Câmara dos Deputados. Porém, antes da carreira política, Jordy teve uma juventude marcada por episódios de violência e por sua participação ativa em torcidas organizadas.
Conforme revelado por uma testemunha que preferiu manter o anonimato por medo de retaliações, o parlamentar frequentava o ensino médio como membro do "Bonde da Fumaça", uma torcida organizada do Flamengo conhecida por práticas violentas. A mesma fonte afirma que Jordy assediava meninas, espancava rapazes e consumia drogas em áreas públicas. As denúncias não são isoladas: o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL) já ironizou publicamente que o aliado deveria "cheirar menos cocaína" para manter a calma em embates políticos, enquanto outro colega de parlamento em Niterói declarou em 2017 que Jordy precisou "se mudar para Itajaí pelas brigas de torcida que ele organizava e pelas 'balinhas' que ele vendia" — "balinha" sendo uma gíria para ecstasy.
O passado de Jordy não é uma curiosidade folclórica: é a matriz comportamental que ele transportou para a política institucional. A violência que antes se restringia às arquibancadas e aos confrontos entre torcidas passou a ser aplicada contra adversários políticos, em uma clara operação de transferência de métodos e códigos.
Torcida Jovem do Flamengo: um histórico de violência com respaldo político
O grupo ao qual Jordy esteve vinculado — a Torcida Jovem do Flamengo (TJF) — é conhecido por seu protagonismo em episódios de brutalidade. Fundada em 1967 como uma dissidência da Charanga Rubro-Negra, a TJF se tornou a maior torcida organizada do Brasil, mas também uma das mais frequentemente associadas a atos criminosos. Em setembro de 2025, a Justiça do Rio de Janeiro suspendeu a Torcida Jovem por dois anos após descumprir um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público. A decisão da juíza Renata Guarino citou relatórios policiais que apontavam invasões em estações de trem, tumultos em vias públicas, roubos dentro do Maracanã, agressões a torcedores rivais em vários bairros — incluindo Niterói — e até investigação por morte de um torcedor vascaíno.
Essa estrutura de violência — hierarquizada, territorializada e reincidente — foi cooptada por setores do bolsonarismo não apenas como massa de manobra para atos antidemocráticos, mas também como escola de formação para quadros políticos. O "Bonde da Fumaça" revela-se, assim, um microcosmo dessa fusão: violência organizada + cultura de confronto + impunidade crônica = o caldo de cultura do qual emergiu o deputado Carlos Jordy.
O Parlamento como extensão da arquibancada: ameaças, intimidações e agressões
Não surpreende, portanto, que Carlos Jordy tenha levado para a Câmara dos Deputados os mesmos métodos que aprendeu nas torcidas. Em agosto de 2022, durante uma panfletagem em Niterói, ele foi flagrado dizendo a frase "eu te arrebento" ao vereador Túlio Mota (PSOL-RJ), em uma discussão sobre quem teria mais votos no bairro de Icaraí. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, mas o ministro Kassio Nunes Marques determinou seu envio à primeira instância, sob o argumento de que o crime não teria relação com o mandato parlamentar. A decisão, no mínimo, reforça um padrão de tratamento leniente dado a políticos que importam a violência das torcidas para a arena democrática.
Além das ameaças verbais, Jordy também enfrenta investigações da Polícia Federal por suspeita de desvio de cotas parlamentares por meio de aluguel de veículos em concessionárias de fachada — a Operação Galho Fraco, deflagrada em dezembro de 2025. Ao ser alvo das buscas, o deputado classificou a ação como uma tentativa de "intimidar a oposição", mais uma vez adotando o discurso da vitimização típico de quem opera na fronteira entre a marginalidade e a política institucional.
A "briga de torcida" como metodologia política
O caso de Carlos Jordy não é uma exceção; é a regra de uma facção do bolsonarismo que concebe a política como guerra. A violência física contra opositores, ameaças de morte, invasão de espaços públicos, coação de agentes públicos e desrespeito a decisões judiciais são comportamentos que dialogam diretamente com o ethos das torcidas organizadas: lealdade incondicional ao grupo, ódio ao rival, validação da força bruta como meio legítimo de resolução de conflitos e uma ética de "nós contra eles" que não admite mediação ou acordo.
Esse fenômeno não é meramente individual. Ele ecoa a estratégia mais ampla do bolsonarismo de militarização da vida cotidiana e de desumanização do adversário. As torcidas organizadas fornecem um repertório de ação e um modelo de organização territorial que o bolsonarismo aplicou com sucesso em acampamentos na frente de quartéis, bloqueios de rodovias e ataques a sedes dos Três Poderes. Sem a normalização prévia da violência — alimentada por décadas de impunidade das torcidas e por discursos de ódio de lideranças políticas e religiosas — o 8 de janeiro de 2023 jamais teria sido possível.
O que está em jogo
A imprensa e a opinião pública costumam tratar os episódios de violência política como "casos isolados" ou como "excessos de militantes radicais". Ignoram, porém, a estrutura de produção da violência que conecta Carlos Jordy à Torcida Jovem do Flamengo, o "Bonde da Fumaça" ao bolsonarismo de rua, e a arquibancada ao Congresso Nacional. O fenômeno descrito como "briga de torcida" não é uma metáfora. É literal. E seus efeitos reais incluem agressões covardes contra idosos petistas em Copacabana, assassinatos por divergência política, intimidação de vereadores da oposição e a normalização de um ambiente em que o antagonista político é tratado como um rival a ser espancado.
Enquanto a sociedade e o sistema de Justiça continuarem a tratar a violência das torcidas organizadas como caso de polícia e a violência política bolsonarista como caso de "polarização", o câncer da intolerância seguirá metastatizando. Carlos Jordy é apenas o sintoma mais visível de uma cultura que transforma adversários em inimigos e o Parlamento em extensão da guerra de arquibancada. A pergunta que fica é: até quando o Brasil aceitará que suas instituições sejam ocupadas por quem aprendeu, na juventude, que o caminho para vencer é espancar, humilhar e destruir o outro?
Com informações de Câmara dos Deputados, Wikipédia, CartaCapital, Veja, G1, Nexo Jornal, Diário do Centro do Mundo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Agência Brasil ■