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Imprensa em manobra para justificar atos covardes de intolerância política e religiosa no Brasil
Veículos de comunicação atuam para criar falsa simetria entre vítimas e algozes, utilizando o discurso da “violência recíproca” para amenizar a brutalidade dos ataques bolsonaristas
Analise
Foto: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2022/09/09/1662727515631b355b3395c_1662727515_3x2_md.jpg
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■   Bernardo Cahue, 14/06/2026

O ano de 2026 testemunhou uma escalada alarmante de atos de intolerância política e religiosa em todo o território nacional. Porém, o que mais preocupa não é apenas a violência em si, mas a reação de parte da imprensa, que em nítida manobra tenta justificar ou, no mínimo, relativizar as agressões sofridas por vítimas do extremismo bolsonarista. Dois casos recentes — o assassinato do petista Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, e a agressão provocada pelo bolsonarista Rodrigo Duarte em evento com Lula — expõem com clareza esse comportamento editorial perverso: a imprensa, ao destacar as sequelas físicas dos agressores (supostos “20 chutes na cabeça” e sangue no rosto), tenta recolocar algozes da provocação e da violência como vítimas, confundindo a opinião pública e alimentando o “câncer da intolerância” que corrói a democracia brasileira.

Desde 2013, os atos de intolerância vêm crescendo por todo o país. No entanto, foi a partir da ascensão do movimento bolsonarista que essa prática se tornou sistêmica. O “câncer da intolerância” no Brasil foi deliberadamente alimentado por lideranças que transformaram o discurso de ódio em ferramenta política. Entre os principais responsáveis estão:

  • Jair Bolsonaro – ao longo de sua trajetória pública, normalizou falas contra opositores, comunidades religiosas de matriz africana e movimentos sociais, criando um ambiente de hostilidade permanente;
  • Marco Feliciano – pastor e ex-deputado, conhecido por associar religiões afro-brasileiras ao “demônio” e por incitar perseguição religiosa;
  • Silas Malafaia – líder evangélico que usa seu púlpito para atacar petistas e defender uma visão maniqueísta de mundo;
  • Nikolas Ferreira – deputado federal que construiu sua imagem com base em ofensas sistemáticas a adversários;
  • Michelle Bolsonaro – apesar de tentar se apresentar como conciliadora, seu discurso religioso frequentemente segrega “os que servem a Deus” dos “que servem ao mal”.

A imprensa, em vez de denunciar com vigor essa escalada de ódio, tem recorrido a uma estratégia perigosa: a falsa equivalência. Nos dois episódios emblemáticos de 2026, essa manobra fica evidente.

Caso 1: O assassino bolsonarista que “recebeu 20 chutes na cabeça”

Em 2022, o ex-policial penal bolsonarista Jorge Guaranho invadiu uma festa de aniversário com temática petista, em Foz do Iguaçu (PR), e executou a tiros o guarda municipal e tesoureiro do PT, Marcelo Arruda. O crime foi cometido por motivo fútil: divergência política. Guaranho foi condenado a 20 anos de prisão. Em 2026, contudo, ele obteve autorização para cumprir pena em regime domiciliar, alegando graves sequelas físicas. Relatórios médicos e a própria decisão judicial mencionam que, durante o tiroteio, após ferir mortalmente Arruda, Guaranho foi baleado e espancado por convidados da festa, tendo supostamente recebido mais de 20 chutes na cabeça.

Aqui reside a manobra da imprensa. Diversos veículos de comunicação, ao noticiarem a concessão da prisão domiciliar, deram enorme destaque às agressões sofridas pelo assassino, com títulos como “Ex-policial que matou tesoureiro do PT tem sequelas graves de espancamento” e reportagens detalhando os “chutes na cabeça”, as “dificuldades para se alimentar” e os “episódios frequentes de quedas”. Embora tragam minimamente a versão da família da vítima, o efeito prático é o de humanizar o algoz e deslocar o foco da barbárie cometida por ele. Em nenhum momento se pergunta: por que um homem que matou friamente uma pessoa por divergência política merece o benefício da prisão domiciliar? Por que a comoção por suas dores físicas é maior do que a comoção pela vida ceifada de Marcelo Arruda? A imprensa, ao repetir acriticamente os argumentos da defesa, recoloca o assassino bolsonarista como vítima de uma “violência recíproca”, numa clara tentativa de justificar o injustificável.

Caso 2: O “provocador bolsonarista que saiu sangrando”

Em setembro de 2022, durante um ato religioso com a presença do então candidato Lula em São Gonçalo (RJ), o bolsonarista Rodrigo Duarte — que já havia anunciado nas redes sociais sua intenção de provocar — apareceu com um carro adesivado com ofensas a Lula e vestindo uma camisa com a imagem do petista atrás das grades. Ao se recusar a deixar o local, uma confusão foi iniciada. Duarte acabou agredido e deixou o local com a cabeça sangrando. A imprensa, de maneira geral, noticiou o caso com manchetes como “Bolsonarista sai sangrando de evento com Lula”, invertendo a ordem dos fatores: o provocador que incitou o confronto é apresentado como vítima final. A Folha de S.Paulo, por exemplo, destacou que ele “terminou com a cabeça sangrando” e mostrou vídeos da agressão, sem contextualizar adequadamente o papel ativo de Duarte na escalada do conflito. Não se tratou de um cidadão pacífico surpreendido pela violência, mas de um militante que buscou deliberadamente o enfrentamento. A mesma imprensa que tanto condena atos de vandalismo em manifestações da esquerda opta, neste caso, por um tratamento assimétrico: a provocação bolsonarista é minimizada, e a reação dos petistas — por mais condenável que seja — é exponencialmente destacada.

A manobra da falsa simetria

Esses dois casos são exemplares de uma estratégia jornalística recorrente: criar uma narrativa de “violência política de mão dupla” onde os extremos se equivalem. Em Foz do Iguaçu, o assassino condenado é retratado como um homem que sofreu graves lesões, enquanto a vítima mortal tem sua história resumida a poucos parágrafos. Em São Gonçalo, o provocador que saiu sangrando recebe quase o mesmo espaço que se daria a um inocente espancado. A mensagem subliminar é clara: “ambos os lados são violentos”, “não há certo e errado”, “todos merecem compaixão”. Trata-se de uma manobra que beneficia diretamente o bolsonarismo, pois ao naturalizar a violência política e ao equiparar o agressor à vítima, a imprensa contribui para desmobilizar a indignação popular e para deslegitimar o clamor por punições exemplares.

O que está em jogo

O “câncer da intolerância” que consome o tecido social brasileiro não é fruto do acaso. Ele foi plantado, regado e colhido por lideranças que transformaram o debate público em um campo de batalha onde o adversário não é um oponente legítimo, mas um inimigo a ser eliminado. A imprensa, ao adotar essa manobra de falsa equivalência, falha em seu papel mais essencial: o de denunciar a assimetria de forças e a origem estrutural da violência. Enquanto jornalistas e editores continuarem a tratar como “vítimas” os assassinos e provocadores bolsonaristas, estarão, na prática, justificando a intolerância e pavimentando o caminho para que novos ataques covardes aconteçam — como o sofrido pelo idoso petista Mauro Figueiredo Rocha, em Copacabana, apenas em junho de 2026.

A imprensa tem escolhas. E as escolhas feitas até agora revelam uma preocupante adesão à lógica da “simetria enganosa”, que só serve para confundir a opinião pública e enfraquecer a luta contra o fascismo cotidiano que o bolsonarismo institucionalizou. Chega de tratar assassinos e provocadores como coitados. Chega de manobras que validam a intolerância. O jornalismo precisa urgentemente recuperar sua bússola moral e seu compromisso com a verdade, sem medo de apontar o dedo na direção certa: a daqueles que, discursivamente ou na prática, promovem o ódio e a violência política e religiosa no Brasil.

Resumo: A análise critica a cobertura da imprensa sobre dois episódios emblemáticos de violência política, apontando uma tentativa recorrente de criar falsa equivalência entre vítimas e algozes. No assassinato do petista Marcelo Arruda, destaca-se o espaço dado às sequelas do assassino – como os supostos "20 chutes na cabeça" – que humanizam o agressor e desviam o foco do crime brutal cometido por motivação política. Já no caso do bolsonarista Rodrigo Duarte, um provocador que levou um tapa e saiu sangrando de um evento com Lula, a análise denuncia o discurso que trata o provocador como vítima, invertendo a ordem dos fatos e minimizando sua responsabilidade pela escalada do conflito. A conclusão é de que essa “falsa simetria” beneficia o bolsonarismo, ao naturalizar a intolerância e desmobilizar a indignação popular, e que a imprensa precisa urgentemente recuperar seu compromisso com a verdade e com a denúncia das assimetrias estruturais da violência política e religiosa no país.

Com informações de g1, Folha de S.Paulo, O Globo, Agência Brasil, BBC, CartaCapital, Poder360, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo ■

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