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O modus operandi da extrema-direita no Brasil e no mundo
Estratégias coordenadas de violência, desinformação e aparelhamento do Estado revelam padrões globais de ataques à democracia, com métodos similares adotados por grupos extremistas desde o Brasil até a Europa
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 20/09/2025

A extrema-direita contemporânea, tanto no Brasil quanto internacionalmente, tem operado através de um manual tático surpreendentemente similar – um conjunto de práticas que inclui desde violência política e campanhas de desinformação até o aparelhamento de instituições democráticas. Este modus operandi, embora adaptado a contextos locais, segue uma lógica transnacional de desestabilização democrática que merece análise detalhada.

1. Violência Política como Estratégia

Os eventos de 6 de janeiro de 2021 nos EUA e 8 de janeiro de 2023 no Brasil representam episódios icônicos de violência política incentivada por lideranças extremistas. Em ambos os casos, seguidores de ex-presidentes (Trump e Bolsonaro) invadiram sedes do poder para contestar resultados eleitorais democraticamente consolidados.

No contexto brasileiro, investigações revelaram planos ainda mais sombrios: o "Plano Punhal Verde Amarelo", elaborado por militares bolsonaristas, previa o assassinato de autoridades incluindo Lula, Alckmin, Alexandre de Moraes e José Dirceu (este último sob o codinome "Juca"). O plano incluía envenenamento e "neutralização" de figuras políticas consideradas ameaças.

Recentemente, dentro de um contexto de polarização política no Reino Unido, cerca de 100 mil pessoas que protestavam contra a entrada de imigrantes no país entraram em violento confronto com a polícia local ao tentarem romper uma barreira que os separava de outro grupo distinto de cerca de 3 mil manifestantes defendendo justamente o contrário. 26 policiais ficaram feridos e 25 pessoas acabaram presas.

2. Campanhas de Desinformação e Manipulação

A extrema-direita desenvolveu sofisticados aparelhos de produção de consenso, como detalha o pesquisador Flávio Casimiro:

"Existem mecanismos capilarizados de difusão e reprodução dessa narrativa: blogs, redes sociais, grupos familiares, páginas diversas."

Estas estratégias incluem:

  • Manipulação algorítmica para difusão em massa de desinformação
  • Deturpação e descontextualização de discursos de adversários políticos
  • Uso de inteligência artificial para criar conteúdos enganosos
  • Campanhas de acusações infundadas, como as teorias sobre a morte de Charlie Kirk nos EUA

3. Aparelhamento das Instituições e Obstrução da Justica

O aparelhamento do Estado para fins políticos é outra característica marcante. No Brasil, o caso Marielle Franco exemplifica essa estratégia: as investigações foram deliberadamente obstruídas durante o governo Bolsonaro, culminando no pedido de exoneração de Sérgio Moro do Ministério da Justiça.

A prática de espionagem contra opositores também se manifestou através da Abin, que durante o governo Bolsonaro observou diversas pessoas que se mostraram publicamente contrárias ao Governo. Com destaques para:
  • o influenciador ativista Thiago dos Reis, que teve a própria casa monitorada por policiais federais aos arredores, inclusive filmada por drones;
  • o influenciador digital Felipe Neto, indiciado por delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro com base na hoje extinta Lei de Segurança Nacional, após xingar Bolsonaro em uma live em seu canal na internet;
  • funcionário dos Correios, demitido por justa causa sem justificativa plausível por supervisores bolsonaristas, alegadamente por causa de uma postagem "pró-Palestina" em perfil próprio no Facebook - a empresa foi condenada a pagar uma indenização de 100 mil reais ao ex-empregado.

Vários países da União Europeia, também, vêm procedendo com extrema reprimenda e proibição oficial contra todos os protestos em favor do reconhecimento do Estado da Palestina e contra a invasão de Gaza por Israel. Com destaque, inclusive, para Leis aprovadas ditas como "anti-terroristas" no Reino Unido e na Alemanha, um aparelhamento estatal de cerceamento das liberdades de opinião e expressão nesses países.

4. Estratégias de Vitimização e Projeção

Um padrão recorrente é a projeção psicológica: acusar adversários exatamente daquilo que se pratica. A extrema-direita frequentemente acusa a esquerda de corrupção enquanto busca alterar leis para beneficiar próprios membros, como o projeto para modificar a Lei da Ficha Limpa ou correr com uma proposta de anistia ampla e irrestrita em Congresso, para permitir que Bolsonaro concorra às eleições presidenciais ainda em 2026.

A vitimização estratégica também é comum – uma tática para gerar simpatia pública e evitar responsabilização:

A maioria dos políticos de extrema-direita investigados pela Polícia Federal no Brasil vai parar no hospital.

5. Táticas Transnacionais Coordenadas

A conexão internacional da extrema-direita aparece claramente na articulação entre figuras como Eduardo Bolsonaro e o governo Trump, discutindo políticas de tarifas e possivelmente estratégias políticas. Essa rede global compartilha táticas como:

  • Doxing (exposição de dados privados para intimidar opositores, como ocorre após o assassinato de Charlie Kirk)
  • Bloqueios de infraestrutura (como as estradas no Brasil após eleições 2022)
  • Sequestro de recursos (como caminhões de mantimentos na Venezuela em 2019, ou as sacas de arrroz e café no Brasil em 2023, em claros movimentos semelhantes pela especulação dos preços e manutenção do cartel varejista)

Padrões que alertam o mundo

Como destacam especialistas de Harvard no New York Times, "as democracias não podem se defender sozinhas". O modus operandi da extrema-direita representa uma ameaça transnacional que requer respostas coordenadas e vigorosas das instituições democráticas.

A lição brasileira – onde o Supremo Tribunal Federal fez o que o Senado dos EUA e os tribunais federais tragicamente falharam em fazer: levar à justiça um ex-presidente que atacou a democracia – oferece um modelo de resistência institucional que outras democracias deveriam estudar.

Com informações de Brasil de Fato, Agência Brasil, G1, Facebook, Wikipedia, Folha de S.Paulo. ■

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