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Há imagens que, por si só, contam uma história. E a foto divulgada na tarde de terça?feira (26) do senador e pré?candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um desses casos. Nela, Trump aparece sentado à mesa do Salão Oval, com os braços cruzados sobre o tampo, em uma postura de autoridade inconteste. Flávio está em pé, ao lado esquerdo do republicano, com o corpo ligeiramente inclinado na direção do anfitrião. Não há ali a horizontalidade de dois chefes de Executivo em conversa de igual para igual. O que se vê, nas palavras da análise publicada pelo blog de Octavio Guedes no G1, é “mais a foto de um fã com seu ídolo do que propriamente a de um presidenciável de um país soberano conversando com o presidente de outro país soberano”.
O cenário não poderia ser mais simbólico. O encontro — que não constava da agenda oficial da Casa Branca — foi articulado pelo ex?deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que atua nos EUA junto a aliados conservadores. Flávio desembarcou em Washington no domingo (24), sob o peso de um escândalo que se recusa a explicar: o pedido de R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a cinebiografia “Dark Horse” de seu pai, o ex?presidente Jair Bolsonaro. Desde que o áudio da conversa com Vorcaro foi divulgado pelo site The Intercept, em 13 de maio, o pré?candidato foi questionado pela imprensa em duas ocasiões. Em ambas, reagiu com risos nervosos e respostas evasivas. Agora, trocou o banco dos réus pelo Salão Oval — mas só na foto.
A fuga para frente e o pedido que soa como cortina de fumaça
Em coletiva logo após a reunião, Flávio afirmou ter solicitado a Trump que o governo americano classifique as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. “Enquanto Lula vai de joelhos, rastejando, para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas como terroristas, eu faço o contrário. Fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele”, declarou. O pedido, porém, não é novo: Flávio e o irmão Eduardo já pressionavam o Departamento de Estado nesse sentido desde o ano passado, segundo reportagens do The New York Times e da CNN Brasil. A novidade é o timing — semanas depois de o próprio governo Lula ter alertado que tal classificação poderia abrir margem para ingerência militar dos EUA em solo brasileiro. Trump, por sua vez, limitou?se a dizer que “irá avaliar”.
Por trás da foto, o rastro de fake news e uma mansão no Texas
Se a imagem oficial já era constrangedora, o ambiente de desinformação que a cercou foi ainda pior. Horas antes de o encontro sequer ter início, circulou nas redes uma fotografia gerada por inteligência artificial (IA) em que Trump, Flávio e Eduardo aparecem todos sentados no Salão Oval. O post no X acumulou mais de 80 mil visualizações antes de ser desmentido. A assessoria de Flávio logo apontou a inconsistência — o senador usava gravata verde e amarela, não azul — e o detector SynthID confirmou que a imagem foi fabricada com IA do Google.
Paralelamente, o irmão Eduardo vivia seus próprios dias de fogo. Na última sexta (22), o ex?deputado cassado divulgou um vídeo no qual afirmou ter chamado a polícia no Texas, onde mora, após o repórter do The Intercept que investigou o escândalo do Banco Master ter localizado sua mansão. “A minha esposa me ligou muito nervosa porque tinha uma pessoa ao redor da minha casa”, disse Eduardo, que também fez questão de mencionar que “no Texas, muitas pessoas têm arma dentro de casa”. A revelação do endereço expôs a contradição entre o discurso de “guerra contra o sistema” e o conforto de uma vida milionária nos subúrbios americanos.
O peso da análise: uma estratégia que pode ter saído pela culatra
Para analistas políticos, o episódio revela menos força do que fragilidade. O cientista político Paulo Calmon, da UnB, lembra que Flávio recuou quatro pontos na última pesquisa Datafolha após a eclosão do caso Master, ampliando a vantagem de Lula no cenário eleitoral. A viagem a Washington, nesse contexto, tem menos a ver com política externa do que com uma tentativa desesperada de mudar o assunto. O comportamento de Flávio diante de Trump — em pé, sorrindo, enquanto o presidente americano permanece sentado — é um gesto que vale mais do que qualquer discurso de campanha.
“Pode ser até que outras imagens sejam divulgadas, mas o que importa é que Flávio Bolsonaro não viajou para se encontrar com Trump, e sim para sair do Brasil, fugindo de perguntas sobre o escândalo do Banco Master”, resume Octavio Guedes. A frase, lapidar, expõe a essência do que se viu: um pré?candidato que transformou uma reunião internacional em outdoor eleitoral, mas que, ao final, apenas escancarou o tamanho do fosso entre sua ambição e a forma como é percebido — inclusive por seu próprio “ídolo”.
Com informações de G1, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo, CNN Brasil, Aos Fatos, Poder360, The Intercept Brasil, UOL, Metrópoles, Jovem Pan News, Gazeta do Povo, O Público, DW Brasil, Brasil 247, ICL Notícias, Hora do Povo, O Sul, Jornal Opção, Agência Lupa, AFP Checamos, Revista Fórum, The New York Times ■