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O deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é o efetivo controlador do fundo Heavengate Development Fund LP, o veículo financeiro sediado no Texas que recebeu R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A conclusão decorre da análise de documentos oficiais obtidos pelo site The Intercept Brasil e de registros públicos nos Estados Unidos, que colocam Eduardo Bolsonaro no centro da gestão financeira do projeto – contrariando frontalmente suas declarações públicas de que seria apenas um “cedente de direitos de imagem” e que não teria nenhum cargo de gestão no fundo ou no filme.
A peça central da conexão é um contrato de produção datado de novembro de 2023, assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, no qual ele figura como produtor-executivo do filme “Dark Horse” juntamente com o deputado federal Mário Frias (PL-SP). O documento estabelece que os produtores-executivos se comprometeriam com atividades como “envolvimento nas considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme”, além da preparação de documentos para investidores e da busca por recursos para a produção, incluindo patrocínios, incentivos fiscais e colocação de produtos. Eduardo também teria atribuições ligadas às decisões sobre como os recursos do filme seriam captados e gastos, com poder efetivo sobre o caixa do projeto.
Não se trata, portanto, de um papel meramente honorífico ou simbólico: a posição de produtor-executivo confere, por definição contratual, poder de gestão e decisões financeiras sobre toda a operação cinematográfica. A assinatura de Eduardo no contrato desmente sua afirmação repetida nas redes sociais de que “apenas cedeu seus direitos de imagem e não exerceu qualquer cargo de gestão em Dark Horse”.
Se o contrato com a produtora já evidencia o comando executivo de Eduardo sobre o filme, os registros públicos do Texas atam a última ponta da meada: o fundo Heavengate Development Fund LP tem como “agente legal” o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC. Paulo Calixto é, comprovadamente, o advogado pessoal de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, responsável por seu processo de green card e por sua assessoria em questões migratórias e empresariais. Calixto também divide a sociedade da empresa controladora do fundo com o corretor de imóveis Altieris Santana, formando uma estrutura societária inteiramente ligada ao ex-deputado.
Dessa forma, o arranjo apresenta uma lógica inescapável: Eduardo Bolsonaro, na qualidade de produtor-executivo, tinha poder de decisão sobre o financiamento do filme. Os recursos desse financiamento – R$ 61 milhões de Vorcaro – foram direcionados para um fundo localizado no Texas, estado onde o próprio Eduardo reside. Esse fundo, por sua vez, é administrado por seu advogado pessoal, com quem mantém relação documentada de proximidade, inclusive em fotografias publicadas nas redes sociais do escritório de advocacia. A cadeia de controle é direta e pessoal.
A Polícia Federal (PF) já abriu investigação para apurar se parte desses recursos foi utilizada para custear as despesas de Eduardo Bolsonaro em solo americano, onde vive desde fevereiro de 2025. Os investigadores analisam se o dinheiro de Vorcaro pode ter financiado não apenas o filme, mas também a permanência do ex-parlamentar nos EUA, inclusive suas atividades de suposta coação internacional contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2025, Jair Bolsonaro já havia enviado R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos, o que foi considerado pelo STF à época como um indício concreto de articulação para interferir no Judiciário brasileiro.
A tentativa de Eduardo Bolsonaro de se descolar do fundo Heavengate tem sido desastrosa. Em entrevistas e redes sociais, ele classificou como “tosca” a suspeita da PF e afirmou que “não exerceu qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedeu meus direitos de imagem”. No entanto, o contrato assinado por sua própria mão digital em janeiro de 2024 evidencia exatamente o oposto: ele era produtor-executivo, com funções ativas de gestão e captação. Mais do que isso, o endereço registrado do fundo Heavengate coincide com o escritório de advocacia de Paulo Calixto em Dallas, evidenciando que Eduardo – por meio de seu advogado de confiança – mantém o controle efetivo sobre a estrutura.
O ex-parlamentar ainda tentou uma versão alternativa: disse que investiu R$ 350 mil de recursos próprios no início da produção do longa, atuando como diretor executivo, mas que foi reembolsado e saiu do cargo após a entrada de um fundo de investimento. “Quando a estrutura passou a ser uma estrutura de fundo de investimento, começou a ter outra estrutura, eu saí dessa posição de diretor executivo”, afirmou em vídeo nas redes sociais. Contudo, mensagens obtidas pelo Intercept Brasil mostram Eduardo Bolsonaro discutindo ativamente formas de enviar recursos para os Estados Unidos justamente no período em que o fundo Heavengate estava em operação. Em uma delas, ele teria escrito: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo”. Na sequência, afirmou que remessas feitas diretamente do Brasil poderiam enfrentar dificuldades e demorar meses, sugerindo acelerar o envio dos valores por meio de estrutura já existente.
O senador Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo, também tem oscilado em suas tentativas de blindar o parlamentar cassado. Em entrevista à GloboNews, Flávio confessou que o dinheiro de Vorcaro foi direcionado ao Havengate Development Fund LP, administrado pelo advogado de Eduardo, mas negou que qualquer centavo tenha sido usado para despesas pessoais do irmão. Em outra ocasião, afirmou à CNN que Eduardo “não recebeu nem um centavo” e que o irmão “não tem absolutamente nenhuma participação” na gestão dos recursos, contrariando frontalmente o que consta no contrato assinado por Eduardo como produtor-executivo com poder sobre o financiamento. As versões dos dois irmãos são, portanto, inconsistentes entre si e com a prova documental.
A repercussão do caso tem ampliado a crise no entorno bolsonarista. O escândalo conecta o financiamento de “Dark Horse”, contratos públicos milionários ligados à produtora do filme, fundos internacionais no Texas e estruturas operadas por aliados de Eduardo nos Estados Unidos. Para piorar, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já pediu a condenação de Eduardo Bolsonaro por coação no curso de processo, por ter articulado, a partir dos EUA, sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras numa tentativa de influenciar o julgamento do pai por golpe de Estado.
Diante desse quadro, a conclusão é inevitável: Eduardo Bolsonaro não é um mero coadjuvante ou figurante no escândalo do “Dark Horse”. A assinatura estampada em contrato, o controle sobre o advogado que gerencia o fundo Heavengate, o poder de gestão financeira sobre o filme e a localização de toda a estrutura no estado americano onde ele reside consolidam seu papel de efetivo controlador do fundo que recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro. A versão de que seria apenas um “cedente de direitos de imagem” não resiste ao confronto com os documentos oficiais e com os registros públicos do Texas. As investigações da Polícia Federal, agora, terão de responder à pergunta central: todo esse dinheiro realmente foi para o filme ou parte dele bancou o ex-parlamentar em solo americano?
Com informações de Intercept Brasil, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, Valor Econômico, UOL, CNN Brasil, Estadão, Metrópoles, O Sul, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Poder360, Jornal de Brasília, Terra, Plantaão Brasil, TV Pampa, Revista Fórum, teleSUR English, Al Jazeera, The Hill, Reuters, Bloomberg, RFI, Gazeta do Povo, Veja, Congresso em Foco, Notícias ao Minuto, A Pública ■