Enquanto colunas de Malu Gaspar e Lauro Jardim detalham com rigor suspeitas sobre ministros do STF, Gabriel Galípolo e Fábio Luís Lula da Silva, a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no escândalo permaneceu envolta em nebulosidade e tratada com menor destaque, levantando questionamentos sobre o papel da grande imprensa
Desde a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro e a consequente liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, o caso se tornou um dos maiores escândalos políticos e financeiros da história recente do Brasil. As investigações revelaram um emaranhado de negócios obscuros, suspeitas de fraudes bilionárias em empréstimos consignados, contratos milionários e uma rede de influência que alcançou os mais altos escalões dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. No centro das atenções, estavam revelações explosivas sobre a proximidade de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com Vorcaro.
No entanto, a análise da cobertura da imprensa sobre o caso, especialmente de duas de suas mais influentes colunas — Malu Gaspar (O Globo) e Lauro Jardim (O Globo) —, revela um fenômeno curioso: um rigor investigativo exemplar quando o assunto envolve o universo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de membros do STF, que contrasta com uma abordagem mais cautelosa e menos incisiva quando os holofotes recaem sobre figuras da direita, notadamente o senador Flávio Bolsonaro.
O tratamento das "lacunas" e suspeitas sobre ministros do STF e aliados do governo
As colunas de Gaspar e Jardim foram fundamentais para destrinchar as conexões entre Vorcaro e figuras-chave do governo e do Judiciário. A cobertura foi, em muitos aspectos, contundente e detalhada.
- Alexandre de Moraes e Dias Toffoli: Ambas as colunas dedicaram inúmeros artigos e análises ao tema. Malu Gaspar revelou que o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Lauro Jardim, por sua vez, não poupou críticas, afirmando que Moraes “tergiversou” ao tentar explicar os contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em favor do banco. O ministro Dias Toffoli também foi alvo de escrutínio, com reportagens apontando a venda de um resort de luxo da família para um fundo ligado a Vorcaro, decisões que restringiram investigações da PF e uma viagem em jato particular na companhia de um advogado de um dos investigados. A coluna de Malu Gaspar foi além, apontando que a inércia do ministro Kassio Nunes Marques em relação a um pedido de CPI criava uma “blindagem” para Toffoli e Moraes.
- Gabriel Galípolo: O presidente do Banco Central foi repetidamente citado em reportagens que sugeriam pressão de Alexandre de Moraes sobre ele. Lauro Jardim chegou a afirmar que o escândalo do Master “vai dominar audiência com Galípolo” no Senado, mantendo o foco sobre sua atuação e possível conivência.
- Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha): A cobertura sobre o filho mais velho do presidente Lula foi extensa. Malu Gaspar dedicou uma coluna à revelação de que a Procuradoria-Geral da República (PGR) havia se manifestado contra a quebra dos sigilos de Lulinha, contrariando a Polícia Federal. Lauro Jardim também manteve o tema em pauta, informando que a investigação sobre Lulinha estava em “compasso de espera”. A abordagem, embora factual, contribuiu para manter a narrativa de que o círculo próximo ao presidente estava sob investigação.
O silêncio eloquente e a cortina de fumaça sobre Flávio Bolsonaro
O contraste com a cobertura sobre o senador Flávio Bolsonaro é instrutivo. Embora ele próprio e seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, tenham relações públicas e notórias com Vorcaro e o Banco Master, a profundidade e o tom das investigações pareceram seguir uma métrica diferente.
- À sombra das delações: Em sua coluna de 19 de março de 2026, Malu Gaspar, ao mencionar a "corrida para a delação" de Vorcaro, listou como alvos prioritários o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI), o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o próprio presidente Lula, citado por "intermediários". O nome de Flávio Bolsonaro, que já aparecia em conversas e havia recebido recursos, foi tratado de forma tangencial, muitas vezes mencionado como parte da "oposição" genérica que poderia ser afetada.
- Os elos com o filme “Dark Horse”: A reportagem do The Intercept, de 13 de maio de 2026, escancarou a cobrança direta de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para o financiamento do filme sobre o ex-presidente, que custou pelo menos R$ 61 milhões. A revelação teve enorme potencial danoso. Contudo, nas colunas de Malu Gaspar e Lauro Jardim, o assunto foi tratado de forma menos proeminente. Enquanto o material do Intercept era classificado como um “problema para o PT”, as colunas enfatizaram a estratégia do partido para lidar com o caso, desviando o foco da responsabilidade direta de Flávio. A abordagem foi mais de "como o governo vai usar isso politicamente" do que uma investigação aprofundada sobre as novas evidências de Flávio, em contraste com o tratamento dado às revelações sobre Moraes.
- A blindagem pela narrativa de "guerra política": Uma tática constante nas colunas foi enquadrar os ataques a Flávio e Jair Bolsonaro como parte de uma “guerra política” orquestrada pelo governo. Isso, ainda que pudesse ser verdade em parte, serviu para relativizar os fatos concretos. Ao mesmo tempo, as suspeitas sobre o próprio governo Lula e seus aliados eram apresentadas como escândalos de “conflito de interesse” ou “falta de transparência”, sem o mesmo tipo de qualificação política.
As invenções e a tática de desinformação
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que a imprensa tradicional pavimentava o caminho para a investigação robusta de algumas figuras, surgiram também “invenções” e narrativas falsas sobre o caso, que muitas vezes serviram para contaminar o debate e, ironicamente, proteger justamente os personagens que não estavam no centro das atenções.
- Falsas acusações contra jornalistas: A mais grave delas foi a disseminação de que a jornalista Malu Gaspar teria recebido R$ 3 milhões de Daniel Vorcaro. A informação foi prontamente desmentida por agências de checagem como Aos Fatos e Estadão Verifica, que confirmaram ser uma invenção. Este episódio, além de atacar a credibilidade de uma profissional, funcionou como uma cortina de fumaça, desviando a atenção das ligações do banqueiro com outros poderosos.
- Teorias sobre o Inquérito das Fake News: Circulou a alegação de que o ministro Alexandre de Moraes estaria usando o Inquérito das Fake News para proteger membros do STF envolvidos no caso Master, uma tese que, embora não comprovada, encontrou eco em setores da imprensa e da oposição, ajudando a pautar a cobertura sob o ângulo da “perseguição” ao invés do “mérito das provas”.
Uma cobertura assimétrica
O caso Banco Master evidenciou o melhor e o pior do jornalismo brasileiro. Por um lado, as apurações de Malu Gaspar e Lauro Jardim são exemplares em profundidade e impacto, expondo o intrincado jogo de influências que corrompe instituições. Por outro, a diferença no tratamento dispensado a Flávio Bolsonaro revela uma assimetria que ecoa a própria polarização nacional. Enquanto ministros do STF e o filho do presidente Lula foram dissecados com lupa, o senador Flávio, dono de uma relação igualmente nebulosa com Vorcaro, pareceu se mover sob uma cortina de fumaça, com sua participação sendo minimizada ou enquadrada como uma questão de “guerra política”. A imprensa, ao atuar dessa forma, ainda que involuntariamente, pode ter contribuído para a manutenção daquele velho e já conhecido princípio: a justiça e o escrutínio público valem para uns, mas não para todos.
Com informações de O Globo, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Aos Fatos, Estadão Verifica, CBN, Poder360, Metrópoles, Brasil de Fato e The Intercept Brasil ■